Arte

Marie Antoinette

30/05/2006 00:00

Sofia Pleym

CANNES - A tentativa de Sofia Coppola de filmar uma versão "pop" da mítica rainha francesa, que escapasse à formula rígida do filme de época, com atores empoados e musica clássica ao fundo, falhou. O resultado é uma visão americana, no pior sentido da palavra, de Maria Antonieta e o contexto histórico em que viveu. O olhar norte-americano apropria-se do mito, colocando toda a corte a falar inglês e vistos sob o véu de estranheza e de pitoresco com que eles costumam ver as demais culturas do mundo.

O filme poderia, entretanto, pela tortuosa via de estereótipos e anedotas, constituir um retrato "autoral" (para usar o termo em moda nesta edição do Festival) da corte francesa, uma adaptação livre, mas rica da história da rainha para a tela. Não é o que acontece. Sofia Coppola, apesar de ter baseado o filme numa única biografia de Maria (de mesmo nome e de autoria de Antonia Fraser), reconhece ter pretensões históricas no retrato pitoresco e anedótico que desenha, perdendo assim a licença poética e entrando no puro vicio narcisista norte-americano de considerarem-se senhores do mundo (e de sua História).

A diretora escolheu para o enredo o período em que a Rainha esteve em Versailles, de sua chegada ao palácio aos 14 anos para se casar com o herdeiro do trono francês (o futuro Luis XVI) até a partida com a explosão da Revolução Francesa. A escolha decepcionou o público mais ávido por emoção, que queria ver a cabeça de Kirsten Dunst cortada. Coppola explicou que retratar o período em que a família real viveu como prisioneira na Bastilha e sua execução depois de 2 anos constituiria um outro filme (seria a deixa para um “Marie Antoinette II”?).

Um outro ponto fraco do filme é o elenco, uma colcha de retalhos que mistura atores americanos, franceses e (Marianne) diversas nacionalidades, que não se sustenta. A escolha de Jason Schwartzmann para o papel de Luis XIV é altamente questionável: por mais que o Rei tenha sido historicamente retratado como uma figura inóspita e opaca, o ator americano consegue passar as duas horas de projeção com a mesma expressão no rosto.

Kirsten Dunst tem uma interpretação coesa ao longo do filme, mas apontada como frágil por muitos críticos. A atriz declarou na coletiva que gosta muito de trabalhar com Sofia Coppola e que apenas em seus filmes sentia-se ela mesma ao se ver projetada na tela. Isso talvez explique a razão para a alegada fragilidade de sua interpretação: se o que vemos na tela é Kirsten Dunst, é natural que a distância entre a atriz e a histórica figura de Maria Antonieta fique evidente.

O inglês Steve Coogan, no papel de Ministro consultor enviado pela Rainha da Áustria (mãe de Maria Antonieta), salva as cenas em que atua. Asia Argento, no papel de Condessa de Barry, desempenha mais uma vez o papel de mulher rebelde e sedutora, mas sofre um problema de enredo criado por Coppola. A diretora dá bastante ênfase para a oposição entre Maria Antonieta e a figura da Condessa no inicio do filme, mas não explora o conflito de maneira mais profunda e livra-se dele de maneira muito desprendida no meio da trama.

O filme foi recebido friamente no Festival. Ao final da primeira projeção para a imprensa, os aplausos misturaram-se com vaias e a entrevista coletiva em seguida foi fria e um pouco áspera. Falou-se em "Barbie Antoinette" e houve referência ao seriado norte-americano de televisão “Desperate Housewives” que, como o nome indica, retrata o dia-a-dia de donas-de-casa desesperadas.

A produção, que custou 40 milhões de dólares, não apresenta um resultado na tela que faça jus ao custo, mas deve conquistar o publico americano e fica sendo uma grande aposta para o Oscar de melhor figurino. Há algumas passagens bem realizadas, nas quais se sente a sensibilidade da diretora, e “Marie Antoinette” escapa à armadilha de ser um filme de capítulos, apresentando um ritmo e estilo próprios, provavelmente mérito de Kirsten Dunst, cuja performance, se não foi fantástica, foi ao menos constante.

Os pontos altos não sustentam o filme como a obra-prima que era esperada, mas ele não é um fracasso completo. Muito da rejeição de “Marie Antoniette” em Cannes tem origem no prazer do publico em se vingar da princesinha de Hollywood, assim como do povo francês do século XIX em cortar a cabeça da Maria Antonieta.



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