Arte

Maturidade da ‘Infância Clandestina’: cicatrizar a ausência do adulto ao brincar

22/04/2013 00:00

Flávio Ricardo Vassoler

Friedrich Nietzsche (1844-1900) certa vez sentenciou:

− Maturidade do adulto: recuperar a seriedade da criança ao brincar.

Quando a criança precisa caminhar pelo corredor polonês da ‘Infância Clandestina’ (2011), filme dirigido por Benjamin Ávila, os brinquedos dão lugar ao esconderijo para que os algozes da última ditadura argentina (1976-1983) não a capturem.

Eis a sina de Juan, o menino cujo nome passa a ser Ernesto. Seus pais, guerrilheiros revolucionários exilados em Cuba, decidem regressar à Argentina para fazer frente à ditadura. Os montoneros optam pela luta armada.

Que significa a morte de uma galinha para uma plêiade de marmanjos ao redor de uma mesa farta? Nada mais que um prato a ser degustado, certo? Pois o escritor russo Anton Tchékhov (1860-1904) certa vez narrou a morte de uma galinha pelo prisma de uma criança à espreita. A princípio, a ave teimosa insistia em lhe escapar – chegara mesmo a lhe driblar entre as pernas. Qual não foi a surpresa do garotinho quando a angústia o tomou diante da galinha que estrebuchava nas mãos da avó a lhe torcer o pescoço. O animal lhe inspirava pena, mas era preciso matar a galinha para acabar com todo aquele sofrimento. “Vai, vovó, chega, vovó!” Assim que a ave morreu, o garotinho já não sabia o que fazer com os escombros da memória – e da culpa. Enquanto a brincadeira dos adultos sente fome, a maturidade da criança chora ao se aproximar do sentimento do mundo.

Juan tem que transformar Ernesto em sua máscara. A verdade das máscaras: Juan Ernesto. O pré-adolescente vai descobrindo o mundo aos solavancos. Os pais, guerrilheiros carinhosos, tentam mediar seu crescimento, mas não podem prometer que amanhã haverá um novo afago. “E se as forças da repressão nos encontrarem?” Para Juan Ernesto, ser filho é uma completa contingência.

Como Tchékhov, o diretor Benjamin Ávila projeta o foco de sua câmera lúdica junto à consciência de Juan Ernesto. Assim, nos momentos em que há trocas de tiro, as imagens objetivas e realistas dão lugar a cenas de desenho animado. Para a insciência de Juan, a luta contra a ditadura não passa de uma realidade ficcional. O rapazinho vai sentindo a intromissão do conflito político em sua vida quando a mamãe não tem tempo para alimentá-lo, quando o papai não pode lhe dar aulas sobre como abordar as garotas na escola. O titio de Ernesto, então, faz as vezes do pai facultativo para lhe dar lições latinas sobre a arte de Don Juan:

− Tá vendo este amendoim coberto por uma fina camada de chocolate, Juancito? Jamais o mastigue de pronto. O chocolate vai derretendo em contato com a língua. Quando o gosto mais doce estiver escapando, aí sim é hora de tomar conta do amendoim. Entendeu?

Leva tempo para que a metáfora latina (e machista) sobre como lidar com as garotas se assente em termos práticos. Ora, tempo é o que Juan não possui. Cada vivência clandestina ao lado dos pais precisa ser escondida pela memória. Os agentes da repressão estão sempre à iminência da captura.

Ernesto se apaixona por Maria, mas Juan não pode se declarar. Os dois se aproximam paulatinamente, como se a conquista de Juan Ernesto mimetizasse a cautela dos pais diante da realidade dominada pelos antagonistas militares. A cena em que o casal mirim quase troca o primeiro beijo sintetiza o ímpeto tchekhoviano de ‘Infância Clandestina’.

Há um bosque nas cercanias da escola. Em uma clareira, a carcaça de um carro abandonado se transforma em carruagem para o casalzinho apaixonado. Maria diz a Juan que tem vontade de conhecer o Brasil e nossas belas praias. “Não seja por isso: vamos agora para lá!” Juan faz Ernesto se transformar em motorista para levar sua esposa mirim a Floripa. Para Maria, aquela brincadeira amorosa assenta as bases para um carinho que desabrochará com o tempo – o mesmo tempo de que Juan não dispõe. Para Juan, ou pior, para Ernesto, é preciso se esconder do tempo que lhe roubará os pais, o tempo de quem detém o poder, o tempo que o deixará órfão. Assim, é preciso ser adulto, Maria, “tá vendo esse dinheiro?” (O dinheiro que seus pais guerrilheiros haviam poupado para fomentar o combate à ditadura.) “Vamos fugir, vamos viver juntos, eu arranjo um trabalho, o Brasil será nossa casa”. Maturidade da criança: evitar a seriedade do adulto ao viver. Aquilo é muito para Maria. Ela ama Ernesto, mas não consegue acompanhar a rapidez de Juan. “Não quero deixar a minha família...” Eis a despedida do primeiro amor: a fratura.

Logo o castelo de cartas da realidade ficcional de Juan Ernesto começa a desmoronar. Seu pai é o primeiro a morrer – Juan sequer terá a oportunidade de se fingir de médico para, com um estetoscópio improvisado, constatar o silêncio dos batimentos cardíacos. A mãe deixa de respirar pouco tempo depois. A ditadura detém o tempo. Juan Ernesto aprende quem são os senhores do esconde-esconde, os detentores de sua clandestinidade.

O menino é capturado e interrogado pelos algozes. Nesse momento, o diretor Benjamin Ávila nos convida a pensar, ainda uma vez, por meio da lógica que se instaura na consciência da criança. Se tivéssemos que viver uma dupla identidade todos os dias, conseguiríamos discernir Juan de Ernesto em nós mesmos? Quando Juan responde ao torturador que se chama Ernesto, a criança está mentindo?

Juan, Ernesto e os espectadores somos coagidos pelos avós ditadores a tomar uma colher de óleo de fígado de bacalhau. Já não há a menor possibilidade de refúgio em meio à realidade ficcional. A máscara se confunde com o próprio rosto quando o poder decide não apenas quem somos, mas também quem passaremos a ser. O órfão Juan Ernesto, então, reformula o aforismo de Nietzsche nos porões da última ditadura argentina:

− Maturidade da ‘Infância Clandestina’: cicatrizar a ausência do adulto ao brincar.

*Flávio Ricardo Vassoler é escritor e professor universitário. Mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, é autor de O Evangelho segundo Talião (Editora nVersos) e organizador de Dostoiévski e Bergman: o niilismo da modernidade (Editora Intermeios). Periodicamente, atualiza o Subsolo das Memórias, http://www.subsolodasmemorias.blogspot.com/, página em que posta fragmentos de seus textos literários e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.


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