Arte

Mostra de São Paulo: "A Família" expõe ferida histórica da Alemanha

Dirigido por Stefan Weinert, o longa-metragem 'A Família' cobra da Alemanha uma dívida pouco reconhecida de seu passado recente.

28/10/2013 00:00

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Créditos da foto: Divulgação

Quarta maior economia do mundo, alto padrão de vida, país-chave nas decisões relacionadas à União Europeia, a Alemanha tem como um de seus representantes na 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo um filme que lhe cobra por uma dívida pouco reconhecida de seu passado recente.
 
 
No documentário “A Família”, o diretor Stefan Weinert aponta para um episódio mal resolvido da história do país: os mortos na fronteira do muro de Berlim por guardas do lado socialista. Através de entrevistas com os familiares dessas pessoas, somos apresentados a um capítulo pouquíssimo divulgado do conflito que dividiu a Alemanha durante a Guerra Fria.
 
 
A tentativa de fugir da Alemanha Oriental deixou 136 mortos. Os depoimentos de familiares de algumas dessas vítimas evidenciam a falta de informações acerca das circunstâncias em que as mortes ocorreram. Se um cidadão alemão-oriental fosse morto ao tentar fugir do país, funcionários da Stasi (polícia política da Alemanha Oriental) mentiam aos parentes sobre a causa da morte, inventando um "acidente de trânsito", uma "fatalidade" ou até falsificando a certidão de óbito. Ou simplesmente ocultavam o falecimento. Há uma mãe que só descobriu que o filho estava morto 20 dias depois. Em outro caso, a vítima já havia sido cremada.
 
 
Mas nem todos os mortos estavam tentando fugir para o lado ocidental. Chegar muito próximo à fronteira já era suficiente para ser alvejado, como no caso de dois irmãos que ao se perceberem próximos demais ao portão que separava as Alemanhas decidiram dar meia volta, mas mesmo assim levaram tiros dos guardas. Um deles morreu. Em determinada cena, o sobrevivente volta ao mesmo local e diz que poderiam ter mantido uma das torres onde ficavam os guardas “para que pudéssemos lembrar”.
 
 
À toda essa obscuridade e crueldade é somada a negligência da Justiça com o caso. Os guardas responsáveis pelos assassinatos receberam sentenças irrisórias, baseado no argumento de que representavam a camada mais baixa da hierarquia da Stasi e que, sendo assim, apenas cumpriam ordens. Mas quando o Estado falha, o indivíduo busca resolver seus problemas por si mesmo, como quando assistimos ao filho de uma das vítimas indo conhecer o responsável pela morte de seu pai.
 
 
“A Família”, portanto, trata do direito à verdade e à memória por parte dos pais, irmãos e esposas que tiveram seus parentes mortos pelo Estado. A montagem e a ausência de trilha sonora durante os depoimentos de conteúdo mais emocional evitam a sentimentalização forçada, demonstrando uma postura ética para com o tema rara de se ver nos documentários atuais.

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