Arte

Mostra de São Paulo: A incredulidade como caminho na política grega

Em 'Demokratia, a via Crúcis', Marco Gastine acompanha impossível os descaminhos trilhados pelos gregos na tentativa de reconstruírem seu país.

22/10/2013 00:00

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"Demokratia, a via Crúcis" tem dois pontos que logo de cara nos chamam atenção, e por motivos diferentes. O primeiro deles é o nome, que já coloca o espectador em provocação: "via crúcis" é o caminho que percorre Jesus até sua crucificação. O segundo ponto é de onde esse filme vem e do que ele tratará: a Grécia e sua eleição parlamentar.
 
Logo nos primeiros dez minutos de filme já podemos ver algumas relações possíveis dos termos que estão no título e a própria relação do título com o documentário. O diretor Marco Gastine, nascido em Paris, mas morador de longa data da capital grega, acompanha quatro parlamentares em eleições para o parlamento grego que em princípio busca construir consenso e uma gestão de coalizão. Dois desses candidatos são de partidos tradicionais e que se ajustam um com o outro nesse momento de desmonte do estado grego: PASOK (partido socialista pan-helênico) e Nova Democracia (partido conservador). Os outros são um do partido Aurora Dourada (partido nacionalista e de extrema-direita) e a única mulher do documentário, candidata da frente de esquerda Syriza. A alusão que o nome suscita é dupla: "cruzinhas" são feitas ao lado do nome do candidato para sua eleição e o caminho e sabatina porque passam os candidatos.
 
 
Para não ficarmos nos imbricamentos e processos eleitorais propriamente ditos, é interessante notar a maneira como o diretor tentou abrir um caminho específico, a então via crúcis que quer retratar com o cenário político grego.
 
 
A aparência crua do documentário deixa que o espectador veja sem tratamento de imagem o que acontece na rotina dos candidatos, mas a edição e montagem do filme mostram que não é suficiente para a mensagem a mera veiculação dos fatos. A aparência crua é uma experiência proposta pelo diretor. A naturalidade com que discursos de ódio são veiculados, como no caso das cenas do candidato do Aurora Dourada, não há repetição, enfoque aparente. As imagens parecem ter pesos idênticos, o diretor não assume nenhum candidato como o seu. Se a impressão é contrária, fica a provocação: pode ser porque nós é que já decidimos.
 
Mas o filme traz um problema global: a incredulidade na instituição política. A tentativa de personalizar o debate parte, neste filme, dos candidatos tradicionais, um conservadorismo introjetado que particulariza a política. A decisão pelo programa dos partidos ficou para os dois partidos que radicalizam o debate: Syriza e Aurora Dourada. Os programas são claros e a todo instante reiterados.
 
O ambiente político de indignação pelo qual a Grécia passou - e ainda passa - cria tensões que acabam desenrolando em caminhos extremamente inversos. O documentário aborda esses caminhos com certa frieza: o discurso de ampliação da democracia e o de ódio a estrangeiros aparecem lado a lado, diante de uma câmera que não escolhe nenhum dos lados.
 
O tom inerte é abandonado em dois momentos e, então, o documentário se dobra e direciona suas críticas à política grega: no início vemos uma senhora comendo as frutas pequenas de uma árvore pública e no final vemos cenas da cerimônia de posse. Uma música melancólica acompanha esses momentos e eles contrastam com a frieza documental da cobertura eleitoral dos candidatos. O filme, mesmo com todos os contrastes propositais que apresenta, não abandona sua principal intenção já enunciada no título. Resta ao espectador a dúvida se a "via crúcis" por que anda a demokratia é um caminho necessário para o fortalecimento democrático ou o caminho por onde ela está sendo constantemente espoliada.



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