Arte

Mostra de São Paulo: "Ana Arabia", um conflito e um plano

Num único plano-sequência de 81 minutos, mais recente filme de Amos Gitai milita pela convivência pacífica entre judeus e árabes.

30/10/2013 00:00

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Créditos da foto: Divulgação

O diretor israelense Amos Gitai é reconhecido por expor em seus filmes sua crítica ferrenha ao conflito entre judeus e árabes. Premiado por longas como “O Dia do Perdão” e “Free Zone”, o cineasta, já homenageado pela Mostra em edição anterior, acredita que a única solução possível para a disputa histórica é a convivência pacífica entre os povos.
 
Essa crença fica evidente mais uma vez em sua última obra, “Ana Arabia”. Gitai escolhe como cenário um vilarejo que funciona como um oásis de coexistência entre judeus e árabes em uma região próxima a Tel Aviv. Vemos, assim, a jornalista israelense Yael (Yuval Scharf) adentrando este lugar para conversar com o árabe Yussuf (Yussuf Abu Warda), ex-marido da falecida Hannah Klibanov, judia nascida em Auschwitz, mas que se converteu ao islamismo para poder se casar, e cuja história é o que provoca a visita da repórter. Outros personagens, como os filhos, os amigos e a nora de Yussuf, todos habitantes do mesmo vilarejo, vão surgindo durante o passeio que Yael dá pelo terreno, obrigando-a a incessantemente retirar seu moleskine da bolsa para anotar algum caso interessante.
 
Os 81 minutos de duração dessa história nos são mostrados em um único plano-sequência, dando uma ideia de ciclo ao filme, como se estivéssemos, junto com Yael, entrando em um lugar único, idealizado, beirando o fantasioso e repleto de nostalgias que são constantemente trazidas à tona.
 
Em entrevista recente, o diretor disse que o plano único funcionava como uma mensagem política dos esforços pela paz no Oriente Médio, que não podem ser interrompidos. No entanto, o filme torna-se refém de sua linguagem. A dinâmica que o uso do plano-sequência impõe não permite qualquer aprofundamento nas histórias dos personagens que vão sendo encontrados pelo caminho – efeito contrário ao causado pelos planos fixos longuíssimos de Tsai Ming Lang em “Cães Errantes”, também em exibição na Mostra.
 
Assim como sua protagonista por vezes transparece, Gitai não está realmente interessado nos relatos daqueles que vivem ali, mas sim em utilizar suas falas, marcadas por lições morais, para construir uma colagem superficial que permita expressar sua oposição ao conflito entre árabes e judeus. Seus personagens são meros instrumentos para a construção de seu discurso militante. Walid (Shady Srour), filho de Yussuf, por exemplo, tem suas participações caracterizadas por questionamentos agressivos para a jornalista, como se ela fosse a representação da opressão israelense.
 
Em determinada passagem, Yussuf diz que já não sabe de onde sua família é, pois possui parentes espalhados por Israel, Jordânia e Palestina. Sua única certeza é de pertencer a este labirinto no qual passamos todo o filme colhendo histórias, onde coexistem um pomar e um ferro velho, árabes e judeus. É essa possibilidade de mobilizar discussões acerca de um tema cuja descrença na resolução já virou lugar comum que consegue garantir a “Ana Arabia” o status de filme a ser visto. 



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