Arte

Mostra de São Paulo: 'Depois da chuva' e a demencracia brasileira

Em Depois da Chuva, aqueles que se opunham à ditadura militar não comemoram as Diretas Já e veem as canções de protesto dos festivais com escárnio.

21/10/2013 00:00

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Créditos da foto: Divulgação


 
Antes das manifestações de junho deste ano, é muito provável que o movimento para eleições diretas para presidente tenha sido a última vez que o jovem brasileiro se sentiu fazendo parte de um momento paradigmático da história do país. O ano de 1984 não é apenas pano de fundo, mas sim o cerne a partir do qual as escolhas de vida dos personagens de Depois da Chuva se mobilizam.
 
A eleição indireta para presidente do grêmio estudantil de um colégio católico de classe média em Salvador é análoga ao contexto nacional. Mas Caio (Pedro Maia) não divide do mesmo entusiasmo que seus colegas. Ele e seus amigos mais velhos utilizam uma rádio pirata para disseminarem seus ideais anarquistas e sua visão da abertura como farsa, a qual chamam de “demencracia”.
 
O recorte e tratamento escolhidos por Cláudio Marques e Marília Hughes em suas estreias na direção de longa-metragem – já eram reconhecidos por ótimos curtas, como Nego Fugido diferem do usualmente visto nos vários filmes sobre a ditadura militar no Brasil . As “Diretas Já” não são motivo de comemoração e, ao contrário do que era de se esperar de um filme passado na Bahia, o tropicalismo e as canções de protesto dos festivais são vistas com escárnio. Caio e seu grupo de amigos anarquistas negam a contracultura domesticada e ouvem punk e free-jazz, que formam uma trilha sonora tão agressiva e experimental quanto as fanzines que produzem.
 
Se acertam nas interpretações realistas e nos repetitivos segundos planos desfocados, ilustrando a distância de ideias entre os personagens que dividem o mesmo quadro, o casal de diretores erra na representação da figura dos pais dos protagonistas: o pai ausente, recurso que o cinema brasileiro parece não esgotar para explicar a revolta dos jovens que lhes servem de objeto, e a mãe relapsa, extremamente caricata.
 
Quando Caio decide participar das eleições para o grêmio estudantil, justifica que assim poderá derrotar o sistema por dentro, mas nós sabemos que isso evitará sua expulsão do colégio e que tenha que se afastar de sua namorada, Fernanda (Sophia Corral). A decisão causa revolta em Tales (Talis Castro), o mais radical do grupo, que não consegue mais se identificar com seus colegas idealistas. Num movimento que remete ao visto em Depois de Maio, do diretor francês Olivier Assayas, o filme expõe seus personagens tendo que lidar com o vazio resultante das contradições pós-rebeldia sem resultado. A forma como os diretores resolvem esse processo é um tanto fatalista e melodramática.
 
A irregularidade de Depois da Chuva não invalida seu questionamento acerca do grau de efetividade da abertura democrática. Na cena que abre o filme, os estudantes discutem se devem aceitar ou não que as eleições ocorram de forma indireta. Um deles argumenta que é preciso dar um passo para trás para poder dar dois pra frente. Mas Caio sabe que esses passos adiante significam a possibilidade de votar somada à manutenção do poder dominante, e não a transformação completa do sistema. Tancredo morreu, Sarney assumiu e o resto é história, à qual este filme permite que revisitemos com um outro olhar.





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