Arte

Mundaréu Plínio Marcos

Filme viaja na vida e obra do santista Plínio Marcos, ator, funileiro, ponta-esquerda da Lusa Santista, dramaturgo de linguagem desbocada e cheia de fúria.

28/10/2013 00:00

Arquivo Plínio Marcos

Créditos da foto: Arquivo Plínio Marcos


Por meio de filmes, poemas, espetáculos, depoimentos, músicas e textos Nas quebradas do mundaréu – A viagem de Plínio Marcos, documentário dirigido por Júlio Calasso, que estreou na 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, é um mergulho na obra de Plínio Marcos (1935-1999), um artista que mudou a dramaturgia brasileira.
  
 
O filme não tem um desenvolvimento linear tradicional e apresenta o dramaturgo mais pelos trechos de suas peças e de filmes homônimos da sua criação artística do que pelas declarações de amigos e familiares, em uma projeção de 102 minutos.
  
 
Nascido em Santos e de uma família modesta, Plínio Marcos escreveu 33 peças, foi traduzido e encenado em francês, espanhol, inglês e alemão. Suas obras são motivos de teses de sociolingüística, psicologia da religião, semiologia, dramaturgia e filosofia em universidades do Brasil e do exterior.
 
 
Influenciado pela escritora e jornalista Patrícia Galvão, a Pagu, começou a se interessar por teatro popular. Em 1958, impressionado pelo caso de um jovem currado na cadeia, escreveu sua primeira peça, Barrela, que provocou escândalo na sociedade santista. A peça ficou proibida por 21 anos após a apresentação.
  
 
A partir daí ele não parou mais. Sempre com uma linguagem crua, cheia de fúria, desbocada e mostrando os extremos que o ser humano pode chegar, escreveu obras que renovaram a cena teatral brasileira como Dois perdidos em um noite suja (1966), Navalha na carne (1967) e O abajur lilás (1969).
  
 
"Ele trouxe para o palco uma personagem inovadora", diz Tônia Carreiro no filme, sobre a prostituta Neusa Sueli, vivida por ela em 1968.  A peça acontece em um quarto de bordel onde a meretriz, o cafetão Vado e o homossexual Veludo encarnam a existência subumana e marginalizada.           
  
 
Antes de se dedicar ao teatro, Plínio Marcos foi funileiro, jogador de futebol –  ponta-esquerda na Portuguesa Santista – soldado da Aeronáutica e palhaço de circo. Foi ainda  jornalista, ator e produtor de televisão.
  
 
Na realidade, ele foi um transgressor cultural e ferrenho defensor de seus direitos e ideais, num momento em que o Brasil vivia uma ditadura militar que censurava, prendia e assassinava. Neste ambiente, teve sua obra proibida e passou a se auto-intitular “autor maldito”. Durante muitos anos Plínio Marcos viveu somente das edições e reedições das suas peças auto-financiadas, que ele vendia nas portas de teatros, cinemas e nas ruas de São Paulo.
 
 
Defensor da cultura popular, ele lançou, em 1974, o LP (long play) – Plínio Marcos em prosa e samba – Nas quebradas do Mundaréu, em parceira com os  sambistas Geraldo Filme, Zeca da Casas Verde e Toquinho Batuqueiro.. O disco é considerado uma referência para quem quer estudar o samba de São Paulo. O filme de Calasso conta essa história.
  
 
O disco é resultado de um show que ele já vinha fazendo com os sambistas e outros músicos, e que logo na abertura anunciava que “nas quebradas do mundaréu, lá onde o vento encosta o lixo e as pragas botam os ovos, nos atalhos esquisitos, estreitos e escamosos do roçado do bom Deus, vivi o povão lesado da sociedade, que, apesar de tudo, é generoso, apaixonado, alegre, esperançoso e crente numa existência melhor na paz de Oxalá.” 

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