Arte

Narciso gosta de se mutilar

Se levássemos a lógica de (re)produção de nossa sociedade às últimas consequências, quem deveríamos elevar à condição de protagonista romanesco?

21/10/2013 00:00

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Se levássemos a lógica de (re)produção de nossa sociedade às últimas consequências, quem deveríamos elevar à condição de protagonista romanesco? Que valores nosso (anti-)herói esposaria? Seria tal personagem um bom pai? Estaríamos diante de um irmão solícito? O que é que as demais personagens, seus amigos e amigas, diriam sobre nosso Ulisses?
 
O raciocínio narrativo em questão talvez padeça por conta de uma contradição de base. Se levássemos a lógica de (re)produção de nossa sociedade às últimas consequências, é possível que não encontrássemos uma personagem de carne e osso, um símile de ser humano com rosto passível de toque e riso, contorções e torpor. Se levássemos a lógica de (re)produção de nossa sociedade às últimas consequências, o que deveríamos elevar à condição de protagonista romanesco?
 
− Eu sou aquele que sou! – arremata nosso herói já devidamente proprietário de seu papel(-moeda).
 
Ecce homo, eis o homem: o rosto da cédula de R$ 2,00. (Eis a verdade das máscaras; e ai daquele que não puder vesti-la.)
 
O diretor Heitor Dhalia parece ter partido da mesma premissa ao fazer de Lourenço, a personagem encarnada brilhantemente por Selton Mello, o protagonista a inalar O cheiro do ralo (2007).
 
Lourenço é um burguês quintessencial. O cheiro do ralo não doura a pílula. Lourenço é dono de um antiquário. Eu não quero saber de onde você vem e/ou qual é a sua estória. Eu quero contar quanto você chama. Quantos anos você tem? Não. Quantos anos você rende? Diante de Lourenço, as pessoas somos aquilo a que efetivamente fomos relegados.
 
− Vamos lá, meu amigo, fala logo, o que você tem pra me vender? Vamos lá, meu amigo, eu não tenho muito tempo!
 
Eis, então, uma jovem com uma caixinha de música.
 
− Primeiro presente da minha vó. Eu tinha muito medo do escuro, então ela dizia que, se eu acompanhasse a musiquinha, o escuro se esqueceria de mim. E cê tá vendo essas pedrinhas incrustadas na tampa da caixinha? Minha vó dizia que se eu não soltasse o dedinho delas, o escuro não teria forças pra me puxar pelo pé.
 
O olhar clínico de Lourenço é imune à memória. Quanto vale a Caixa de Pandora?
 
− No máximo, 20 reais. [A jovem sequer tem tempo de (tentar) converter mais memórias, o câmbio de Lourenço é tabelado.] Se quiser, pega aquele saquinho ali do lado do lixinho. Tem 20 reais em moedas de 5 centavos. Eu fui juntando como os dias que passam, uma por dia. Ah, e não foi minha vó que me ensinou isso, não. Foi a vida.
 
2000 centavos mais experiente, a jovem dá lugar a um músico peculiar: ele ainda quer manter a altivez do stradivarius que tem em mãos, apesar de estar no antiquário de Lourenço. Vou ensinar a ele como é que a banda toca por aqui.
 
− 100 reais, máximo.
 
O violinista mal consegue engolir o despeito.
 
− Mas é um stradivarius!
 
Cabe a Lourenço ensinar ao erudito fora de lugar qual é o 11º mandamento da burguesia paulistana.  
 
− A nossa bela Sala São Paulo, coração da música erudita brasileira, fica na Estação da Luz, meu caro, ilhada pela Cracolândia. Talvez você consiga me convencer de que, se eu pagar 1000 reais pelo seu stradivarius avariado, poderei começar a estudar violino para fazer um concerto aos zumbis esfarrapados do crack. Será que os abortos gostam de tons mais graves ou mais agudos? Por que não lhes alugamos smokings para que eles assistam aos concertos em nosso bunker da música clássica? 100 reais, máximo.
 
Para sentirmos o cheiro do ralo, só precisamos levantar as axilas. Nossas artérias, dutos de esgoto. (Evangelho segundo Lourenço.)
 
Quem é meu pai? Quem são meus irmãos? Deixemos que os mortos enterrem os mortos. Lourenço sente repulsa pela mãe. Ora, o carinho não pode ser quantificado – e permutado. O afago não tem valor de troca, a menos que ele possa ser sintetizado por uma bunda. Sim, a bunda da garçonete do boteco pé sujo no qual o sovina Lourenço almoça – o burguês calcula que apenas será um bom burguês quando conseguir barganhar consigo mesmo, quando se tornar mais uma cobaia da negação do princípio do prazer para os outros – os outros, todos os outros, os compradores, os vendedores, os clientes.
 
Lourenço mal consegue entender o nome da bunda. “Deve ser uma junção do nome da rainha do tecnobrega com a estrela da telenovela de então”. Lourenço intui que o pobre tenta enriquecer com nomes e mais nomes aglutinados aquilo que a sociedade lhe usurpa desde o princípio. Mas a bunda o seduz. Afinal, qual é a cara de R$ 1.000.000,00? Quando pensamos em um milhão de reais, raciocina o contador Lourenço, logo nos vêm à mente carros, viagens e mulheres, não necessariamente nessa ordem. Mas tudo isso, na verdade, não é a cara de R$ 1.000.000,00. Um milhão de reais são uma completa abstração. Crescei e multiplicai-vos. É por isso que eu sempre tenho na carteira uma nota de R$ 100,00 com a figura do peixinho. E é por isso que ela, a Juci&%#@, é a bunda.
 
Juci&%#@ se afeiçoa por Lourenço. Lourenço quer a bunda.
 
− Quanto?
 
Na primeira vez, um tapa na cara. (O burguês contábil que só sente prazer em ver o crescimento do montante, a reprodução de sua abstração, bem sabe que o prazer do dinheiro pressupõe a castração do prazer do corpo, do prazer concreto, do prazer imediato. É preciso postergar, é preciso continuar a investir. Para o avarento, o prazer já se confunde com a dor; o tapa lhe traz a ereção.)
 
− Quanto?
 
Na segunda vez, uma joelhada. (Lourenço já pensa em presentear Juci&%#@ com um chicote.)
 
− Quanto?
 
Na terceira vez, Juci&%#@ negocia com Lourenço. Lourenço compra a bunda.
 
Experimentemos ver o mundo pelo prisma de Lourenço. Inalemos o cheiro do ralo. A casa de câmbio converte o sentimento em sentimentalismo barato. Nossas amizades viram contatos – potenciais contratos. Networking. Todos os caminhos levam a Roma. O amor vira happy hour – não podemos superaquecer a máquina, é preciso lubrificar as engrenagens. Usamos camisinha não porque queremos evitar doenças venéreas, não porque queremos viver mais. Na verdade, estando ilesos, já vivemos menos. Lourenço não vive. (A ironia, a musa de Lourenço que o faz ter ereção na medida em que o castra, me obriga a dizer que Lourenço, aquele que não vive, nos obriga a sobreviver. Lourenço é quem manda.) Em verdade, em verdade Lourenço nos diz: usamos camisinha para que a bunda não fique grávida, para que um novo Lourenço não venha ao mundo. (O Brasil bem sabe que é mais provável que nasça uma nova Juci&%#@.) Para o burguês, o amor próprio mais rematado, o hedonismo de sua necessária vitória, dá sempre as mãos ao mais subterrâneo autodesprezo. O prazer e a dor, as duas faces da moeda de Lourenço.
 





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