Arte

O Brasil dos resistentes

Sob curadoria do museólogo Fábio Magalhães, 'Resistir é preciso' já foi vista por mais de 270 mil pessoas.

04/04/2014 00:00

CCBB

Créditos da foto: CCBB

Está em cartaz no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), no Rio de Janeiro, e merece a visita de todos os que nutrem legítimo interesse pelo país e têm a expectativa de que ele continuará progredindo com firmeza, uma mostra imperdível. Para vê-la, recomenda-se levar filhos, netos e alunos e receitá-lo aos amigos, a todos que, livres do complexo de vira-latas, acreditam no processo democrático no Brasil, período ainda curto, fato com frequência esquecido.
 
E àqueles que confiam na criatividade e na competência de uma sociedade que produz uma exposição de alto nível profissional como esta.
 
A mostra, apresentada até o dia 28 deste mês, deveria ser motivo de minuciosas e destacadas reportagens nos cadernos ditos de "programas de fim de semana” da velha mídia, relegando ao segundo plano o noticiário de lazer destas semanas que correm agora, espetáculos que muitas vezes nada mais são, como diz o cineasta Silvio Tendler, que "a extensão do que mostra a televisão."
 
Resistir é preciso é o provocante título dessa exposição que chega de Brasília e São Paulo onde foi vista por mais de 200 mil pessoas, e está a caminho de Belo Horizonte quando será inaugurada em outubro deste ano. No Rio, 70 mil pessoas visitaram a mostra. Até agora três mil são alunos participaram das visitas mediadas, do projeto CCBB Educativo.
 
Importante levar os estudantes a conhecerem a história da resistência à ditadura civil-militar neste momento em que até alguns historiadores/professores universitários, convocados a fúteis entrevistas na televisão, cìnicamente classificam os resistentes como gigolôs do golpe!
 
A mostra é organizada em parceria com o Ministério da Cultura, Correios e Banco do Brasil e idealizada pelo Instituto Vladimir Herzog com o objetivo de manter viva na memória dos brasileiros a luta não apenas da imprensa alternativa (a imprensa nanica) durante a ditadura, mas dos artistas e intelectuais, dos sindicatos, dos trabalhadores rurais, dos estudantes, do povo - cada um lutando ao seu modo -, todos esses protagonistas da luta pela redemocratização.
 
A sua curadoria é do museólogo Fábio Magalhães, ex-curador chefe do Museu de Arte de São Paulo (Masp).
 
Ela apresenta obras de arte produzidas fora e dentro dos cárceres do Presídio Tiradentes, em São Paulo, no período dos vinte e um anos selvagens e, no seu final, dos anos cínicos do regime autoritário. De Sergio Ferro, Carlos Takaoka, Manoel Cyrillo, Carlos Henrique Heck, Sergio Sister entre outros.


 

Cartazes – alguns raros, históricos, talvez únicos. Excelentes imagens emblemáticas, outras raras, umas censuradas na época, todas elas da Brasília mergulhada na ditadura, de autoria dos repórteres fotográficos Luis Humberto e Orlando Brito. E depoimentos em vídeo produzidos com cuidado e talento jornalístico pela equipe de Magalhães e do Instituto Herzog.
 
Mas "o foco central é o resgate da história da imprensa alternativa e a luta de resistência contra a ditadura através do jornalismo, profissão por meio da qual Herzog lutou contra o regime militar", observa Ivo, filho de Wladimir Herzog e diretor executivo do Instituto que leva o nome do seu pai.
 
É admirável – e pouco conhecido - o número de publicações estudantis, operárias, comunitárias, sindicais, rurais, de grupos de mulheres, que desafiaram o regime e eram distribuídas gratuitamente ou vendida em bancas de jornal: Binômio (o precursor pré-64, que, de Belo Horizonte, com o jornalista José Maria Rabêlo, alertava para o golpe em andamento), Unidade (com Audálio Dantas), Amanhã, O Sol, Brasil Mulher, Movimento, Coojornal, Lampião, Unidade e Luta, Pasquim, Tribuna Metalúrgica, Voz Operária, Grilo, Bondinho, O São Paulo, Tribuna Operária, Libertação. Opinião, financiado pelo empresário da indústria têxtil, Fernando Gasparian, vendia 30 mil exemplares  na mesma semana em que a semanal mais popular atingia a marca de 42 mil.
 
O fio condutor da exposição é uma linha do tempo que vai de 1964 a 1985 e relembra o trabalho de intelectuais e artistas da música, literatura e artes plásticas que produziram obras  clamando por democracia e denunciando os abusos e crimes da ditadura. Os trabalhos produzidos pelos presos políticos são da coleção do jornalista, também ex-preso do regime golpista, Alípio Freire.
 
Uma das peças expostas mais conhecidas é Lute, de Rubens Gerchman, a escultura de letras vermelhas monumentais, feita corajosamente em 1965 e de grande impacto. Está montada em uma das salas do fim da mostra e é uma  convocação imperiosa – em qualquer tempo e por todas causas justas.



Mais trabalhos produzidos na época também estão expostos. De Carlos Vergara, Cildo Meireles, Claudio Tozi, Alex Fleming, Ligia Pape, Antonio Dias, Amelia Toledo, Pedro Escoteguy, Renina Katz e tantos outros.
 
Outra peça original é o pequeno esboço para o belo monumento Tortura nunca mais, desenhado em 1978 para Brasília e assinado por Oscar Niemeyer. Chamado pelos populares de Arco da Maldade até hoje não foi construído. Oscar descreveu assim o seu trabalho: “É a figura humana sendo transpassada pelas forças do Mal: uma lança com 25 metros de extensão.”
 
Os testemunhos recolhidos para Resistir é preciso são tocantes. Alguns trechos deles:
 
Da psicanalista e escritora  Maria Rita Kehl: “Este foi o período mais importante da minha formação; não foi a da universidade.” Do jornalista José Maria Rabêlo: “Depois, quando reassumimos o Brasil, aqueles anos aparecem minúsculos.”
 
Brizola, falando para uma multidão entusiasmada, no comício das Diretas Já, na Praça da Sé, em São Paulo: “Este processo não vai parar aconteça o que acontecer em Brasília”.
 
Um testemunho do ex-ministro José Dirceu, quando ainda líder estudantil e no qual alerta: “A luta não vai parar.” Um símbolo da sua situação atual, 50 anos depois, de preso político ilegalmente fechado e isolado, em escandaloso desrespeito e infração à lei do Estatuto do Idoso.
 
Depoimento do jornalista Juca Kfouri: “É grave, pessoas respeitáveis, chamarem de terroristas (os resistentes)”.
 
E outro, do ex-ministro Franklin Martins, se dirigindo à câmera com os olhos marejados: “Eu me sinto um homem pleno. Pertenço a uma geração que viveu com intensidade e nos levou a um país melhor (...)  Você pode me perseguir, me torturar, me matar, mas não pode me obrigar a viver passivamente sob uma ditadura – eu vou lutar”.
 
A última seção desta exposição em homenagem aos resistentes à ditadura civil-militar brasileira de todos os cantos do país é uma câmera negra com os nomes dos mortos, assassinados e desaparecidos como que despencando num canto do chão.
 
Na ante-sala desta câmera, onde o visitante pode sentar-se num banco rústico de madeira, os versos fortes da bela canção de Aldir Blanc e João Bosco, O Bêbado e a equilibrista: "Mas sei que uma dor assim pungente / Não há de ser inutilmente."
 
Serviço
Resistir é preciso se encontra aberta à visitação pública de quarta a segunda-feira, no Centro Cultural Banco do Brasil/RJ das 9 às 20 hs. Este mês a mostra é tema de uma série de dez episódios exibidos na TV Brasil.
 
Para agendar visitas guiadas para estudantes, de terça a sexta-feira, das 9 às 21 horas, o telefone é 3310-7480 que atende das 8 às 18 horas.



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