Arte

O grande mestre, de Wong Kar-Wai: o poeta da perda decepciona outra vez

Em O Grande Mestre, Kar-Wai parece se perder na montagem confusa e se rende à mesmice do cinema comercial careta. Termina quase ridículo.

15/05/2014 00:00

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Créditos da foto: Divulgação

O cinema de Wong Kar-Wai é o de alguém que capta e "reinventa a sedução asiática" observou com argúcia e bom gosto, que por sinal eram as suas marcas, o crítico de cinema paulista Leon Cakoff (1948-2011) quando, doze anos atrás, o mundo se deslumbrou com o filme Amor à flor da pele (o célebre In the mood for love) do então jovem chinês de Hong Kong, personagem da segunda onda de cineastas do Japão, Coreia e Taiwan. Cakoff tinha razão. Nenhum outro diretor oriental, nem mesmo o mestre Hsian-Hsien, de Taiwan, chegou, com o seu clássico Flores de Xangai, ao nível de reproduzir a beleza da sensualidade dos bordeis do sul da China nos anos 30 frequentados pelos mestres das lutas marciais antes da invasão japonesa. Além de meros prostíbulos, eles eram a versão muito mais sofisticada dos grandes cafés e cabarés ocidentais da época.  
 
Envolto numa aura de lembranças passadas, não apenas In the mood for Love, mas todo o cinema de Kar-Wai é, como ele mesmo descreve com poesia, a narrativa "daqueles momentos perdidos que escapam por entre nossos dedos e depois, retalham nossa memória para sempre".
 
Isto se aplica até no caso do equivocado O grande mestre, seu mais recente trabalho, onde mesmo decepcionando no conjunto apresenta-se como o poema da perda, no cinema: as perdas de amor, de pessoas (na guerra) e também da identidade no mundo impessoal e massificado de hoje.
 
Entre o filme-fetiche Amor à flor da pele e O grande mestre, o artista nascido em uma família de Xangai fugida da China de Mao Tse-Tung para se radicar em Hong Kong, assinou um segundo memorável filme, 2046 e, em seguida Um beijo roubado, falado em inglês, na Califórnia, nada mais que delicado road movie, ums filme romântico à sua moda, mas frágil e reticente.
 
Com O grande mestre Kar-Wai realiza um projeto pessoal acalentado por ele há anos, mas deixa frustrados muitos da legião de admiradores ao recontar a história aventurosa de Ip Man, o lendário artista marcial sempre lembrado no ocidente como um dos professores de Bruce Lee nos anos 1950 e já cinebiografado em outros dois filmes. Foi o mestre do kung-fu que reuniu as escolas da luta do norte e do sul da China com extraordinários talento, habilidade e carisma.
 
Ser, saber, fazer: os pilares do kung-fu, lembra Ip Man aos alunos. O kung-fu não é espetáculo; é filosofia, recomenda. E ensina: Como um ideograma, é composto de duas palavras: horizontal e vertical. Aquele que cai e o que continua de pé.
 
A bela primeira parte do filme pesquisa texturas (as chuvas, vapores, fumaças dão sempre um clima especial às imagens), luzes e ângulos, closes inesperados de pequenos objetos aparentemente sem importância, e a cena se abrindo com uma inesquecível sequência de kung-fu em noite chuvosa, na rua, sem se valer de truques vulgares dos voos gratuitos dos lutadores que encantaram as platéias ocidentais dez anos atrás.
 
Mas a partir de certo ponto Kar-Wai parece se perder na montagem confusa e se rende à mesmice do cinema comercial careta. Termina quase ridículo, fazendo com que Tony Leung, seu ator predileto, aqui na pele de Ip Man, pisque o olho para o espectador, num grande close, na tela, perguntando a nós, atônitos, na plateia, como se estivéssemos no auditório de idiota programa humorístico de televisão: ’qual é mesmo o seu estilo de kung fu?’!
 
O grande mestre traz também labirintos de memória e lembranças da vida particular dos personagens, um esboço de ligação romântica se intercalando com lances de história real: a rivalidade entre as escolas do kung-fu do norte e do sul, depois sua união e a guerra sino-japonesa, em 37, com Xangai brutalmente ocupada.
 
Mesmo se perdendo a partir da segunda parte da produção – a primeira é irretocável até a sequência de luta decisiva de kung-fu com a bela atriz chinesa Zhang Ziyi numa plataforma de estação de trem -, o cinema do poeta Kar-Wai continua refletindo sobre os instantes fugazes da existência, os eventos se repetindo indefinidamente na memória, momentos nos quais o futuro – no caso, do mítico Ip Man - poderia se decidir diferente.
 
Mesmo frustrada, a narrativa de O grande mestre trabalha com requinte. Desfaz-se em pedaços, se reorganiza, os personagens se encontrando e desencontrando indefinidamente.
 
No filme, o jogo de Kar-Wai continua sendo o das histórias inacabadas, efêmeras, fragmentos de lembranças recorrentes, às vezes sem sentido – até mesmo aquelas que achávamos ter esquecido, até mesmo neste belo filme frustrado.





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