Arte

O segundo grande triunfo de Arsène Lupin

Sucesso do ator francês Omar Sy no filme 'Os intocáveis' se repete agora no seriado que relê o clássico de Maurice Leblanc e quebra recordes de assistência na sua primeira temporada no streaming

14/02/2021 10:43

(Divulgação/Netflix)

Créditos da foto: (Divulgação/Netflix)

 
Uma das grandes jogadas do audiovisual em streaming neste começo de 2021, a série Lupin reforça uma atuação vitoriosa da Netflix, um dos mais poderosos grupos produtores de filmes e de séries dos nossos estranhos tempos de agora. Ao invés das big five, Fox, Paramount, Universal, MGM, Warner e também Colúmbia e dos glamorosos estúdios do passado, por força da pandemia, confinamentos e das restrições sanitárias que nos mantêm a todos em casa durante horas, dias e meses seguidos, a telona dos cinemas está sendo substituída pela tela da TV, do computador, laptop, ipad e até - sacrilégio - do celular.

Os puristas da arte cinematográfica se rebelam e torcem o nariz com as mudanças que afetam a experiência única da telona, da sala escura, do som envolvente e do ritual fascinante de uma ida ao cinema para assistir a um filme. Com toda razão. Mas a turma do adapte-se aponta para uma necessidade inegável: superar o hábito e considerar novas formas de comportamento do espectador do áudio-visual: filmes, vídeos, seriados.*

No caso de Lupin, a Netflix anuncia que desde o começo deste ano os cinco episódios da primeira temporada dessa primeira série francesa produzida pelos americanos foram vistos por 70 milhões de domicílios no mundo, está quebrando recordes da assistência em streaming e chegou ao top 10 da plataforma nos Estados Unidos. A segunda temporada já se encontra em rápida produção, com o ator francês, Omar Sy, de 43 anos, de raro carisma - é claro.

Nascido numa pequena cidade próxima de Paris e depois de um grande sucesso no filme Os intocáveis, de 2011, onde contracenou com um ídolo do teatro e do cinema francês, o excelente ator François Cluzet, Omar Sy trabalha novamente como protagonista nessa releitura do clássico de Maurice Leblanc. O ladrão de casaca escrito no começo do século 20 povoou a imaginação da geração de muitos dos mais velhos de hoje, os adolescentes de então que devoravam livros das estantes dos pais.

Na magistral jogada da produção da série de aventuras e suspense recriada por George Kay e François Uzan, Arsène se travestiu de Assane e é encarnado por um ator negro, de belo físico e grande carisma. No lugar do lendário gentleman-ladrão de luvas brancas e cartola, Lupin agora se veste com notáveis redingotes de cachemere, um par de tênis de última geração (para melhor correr e fugir pelos telhados de Paris) e usa com desenvoltura o típico boné parisiense notabilizado pelos apaches de Pigalle.

O personagem carismático foi criado por Leblanc para funcionar como um alter ego épico de Sherlock Holmes. Mas possui traços de Robin Hood. Se nem sempre Arsène transfere bens roubados dos ricos para entregar aos pobres, ele respeita os menos favorecidos pela vida e pelo sistema, e eventualmente distribui dinheiro e alegria para o que hoje são chamados com o notável eufemismo de ''vulneráveis.''

Lupin, o seriado, narra a história do filho de um imigrante senegalês na França que se inspira na lenda do personagem icônico Arsène Lupin, personagem do livro que seu pai colocou nas suas mãos de menino. Ele se torna não apenas um ''cavalheiro'' mas também um ladrão profissional exemplar.

(Reprodução/Netflix)

É uma homenagem ao autor desse clássico da literatura francesa que volta a nos trazer o ladrão gentil, bem educado (aluno dos melhores colégios) e cordial que usa a inteligência e o talento investigativo para se disfarçar em diferentes identidades, e assim executar seus planos não apenas gratuitamente criminais (?), mas de vingança e de busca da verdade e da justiça.

Uma dica (ou advertência): o espectador que ainda não assistiu a Lupin não deve vê-lo como a um filme. Trata-se de um seriado modelo americano porém com a sedução e o requinte de toques europeus. Trilha musical sutil, imagens à meia luz, distorcidas ou desfocadas, iluminação intrigante e textura e enquadramento de imagem próprios. Um ritmo de narrativa, profundidade de foco específico e a construção (rasa) de dezenas de personagens que pretendem prender a atenção e a curiosidade irresistível do espectador até o capítulo do dia seguinte. A avalanche de acontecimentos e de perfis de personagens escorre com a competência desejada para o gênero.

Aqui, um palpite: o sucesso da inteligente releitura de Lupin carrega consigo uma atualidade indiscutível que se encontra na ordem do dia - além do delicioso achado de revestir Arsène de Assane.

Vilões empresários multimilionários, inescrupulosos e poderosos, que podem ser traficantes de armas de alto coturno e uma alta burguesia pronta a comprar tudo e todos com carteiradas espetaculosas. Na outra ponta, policiais boçais comprados com esse dinheiro sujo.

Talvez na segunda temporada dessa série pândega o pequeno Luxemburgo venha a ser incluído como cenário importante da trama e esteja à espera de Assane. Afinal, Luxemburgo é ''o cofre forte da Europa'' no dizer de Thomas Piketty e está aí com o reforço de fortunas brasileiras de Minas Gerais/Brasília, recém reveladas há dias. Aguardemos.



*Um dos trabalhos mais interessantes sobre o assunto é Consumo em Rede – Distribuição de Conteúdos Audiovisuais em Plataformas Digitais da jornalista especializada em TV, cultura e entretenimento, mestre em Comunicação Social pela PUC do Rio Grande do Sul, e com dissertação defendida em 2016 sobre Práticas de binge-watching na era digital: novas experiências de consumo de seriados em maratonas no Netflix. |  http://blog.consumoemrede.com.br/ 



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