Arte

O teatro documentário da Cia. Los Puercos

'Caecus' aborda machismo, ditadura civil-militar, luta antimanicomial e pauta LGBTQ . Confiram entrevista com Luiz Campos, diretor da Cia.

18/09/2018 12:22

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Créditos da foto: Divulgação

 
Nos próximos domingos, 23 e 30 de setembro, a Cia. Los Puercos traz o espetáculo Caecus: um documento cênico, uma abordagem fortemente crítica da cultura de violência, tão característica da sociedade brasileira. Composta por quatro cenas, aparentemente independentes, a peça aborda a violência contra a mulher, a ditadura civil-militar no país, a luta contra a homofobia e, também, a luta antimanicomial.

Em curtíssima temporada na capital paulista, a peça está em cartaz no Teatro Documentário (Rua Maria José, 140, Bela Vista), nos próximos domingos (23 e 30 de setembro), às 19h, com preços acessíveis (R$ 20 inteira e R$ 10). Quem estiver no interior de São Paulo poderá conferir o espetáculo no dia 21 de setembro, durante o Festival Taperá de Cenas Teatrais, na cidade de Salto (SP).

Optando por textos críticos e propostas que visam estimular a reflexão do público, a Cia. Los Puercos vem lutando contra a maré golpista. Criada há quatro anos, em plena retração dos investimentos no setor da Cultura, eles conseguiram montar várias peças, entre elas, a Oração do dramaturgo espanhol Fernando Arrabal que, comovido com os esforços do grupo, cedeu o direito de montagem da obra, sem cobrar nada por isso.

A Cia. também vem sendo procurada por educadores, das mais diversas áreas, para encenar Caecus ao público escolar, além de participar de festivais e eventos. No último dia 8, por exemplo, a peça foi encenada para 1.500 famílias, durante o Encontro de Mulheres do MST “Marielle Vive”, em Valinhos (SP).

Em entrevias à Carta Maior, Luiz Campos, diretor da Cia. e pesquisador teatral, conta sobre o espetáculo e a batalha de se fazer teatro hoje no Brasil. Acompanhem:

Como surgiu a Cia. Los Puercos?

Luiz Campos
– Nós estamos no cenário do teatro paulistano há quatro anos. A Cia. surgiu de um curso livre de teatro na Mooca. Eu era professor desse grupo e, no final do curso, eles montaram a Cia. e me chamaram para dirigi-la. Como eu venho de teatro de grupo, sou um defensor do teatro de grupo, realizado por um coletivo de pessoas que, efetivamente, acredita no projeto que está fazendo.

Nosso primeiro trabalho, A Descoberta, foi um solo de palhaços com o qual participamos de alguns festivais. Depois fizemos As mulheres de guarda-chuva perdidas em uma noite suja, misturando Fernando Arrabal e Plínio Marcos. Nossa concretização enquanto Cia. aconteceu com Oração, texto do Arrabal, que encenamos na Oswald de Andrade. Nós queríamos muito produzir essa peça. Era o momento do golpe contra a Dilma e acreditávamos que era um texto muito importante para aquele momento, mas nós não tínhamos dinheiro para comprar os direitos de montagem da peça.

O Arrabal é um dos grandes escritores da geração pós-Beckett, do teatro do absurdo, autor de O Arquiteto e o Imperador da Assíria, muito conhecido no meio teatral. Então, eu mandei um e-mail para ele, dizendo que nós não tínhamos grana, mas que precisávamos encenar a peça dele aqui no Brasil. Ele respondeu muito carinhosamente, contando que também estava sem grana quando escreveu aquela peça; e permitindo a montagem da peça, sem cobrar nada. Nós também tivemos o apoio do Sérgio Mamberti, que faz a voz de Jesus em off na peça; e do Gregório Duviviver, nós trabalhamos, inclusive, uma das crônicas dele nessa montagem.

Como bom teatro do absurdo, a Oração conta a história de um casal que mata e come seres humanos. De repente, o homem dessa dupla encontra uma Bíblia e decide ser bom e puro. Em vez do casal, eu trabalho com duas personagens femininas, uma mais surrealista e a outra mais realista, criando um jogo entre consciência e inconsciência. Com essa peça, nós conseguimos um certo reconhecimento da classe teatral aqui em São Paulo.

E o Caecos, como surgiu a ideia?

Campos
- Depois de Oração, eu perguntei aos atores o que eles gostariam de dizer. Nós não entendemos o teatro como entretenimento, mas como movimento de resistência, de luta, de crítica, de reflexão para tirar as pessoas da zona de conforto. Surgiram vários temas, entre eles, a homofobia; a luta antimanicomial, com base nas atrocidades do Hospício de Barbacena; a questão da ditadura civil-militar; e, também, o machismo e a violência contra a mulher. Os atores trouxeram esses temas e eu fiz a costura depois. Nós fizemos muita pesquisa, assistimos a muitos depoimentos e trabalhamos apenas com fatos verídicos.

Nossa ideia era partir para o teatro documentário que é transformar em cena algum fato, documentos, fotos, relatos, notícias e outros. Nosso compromisso era dar visibilidade àquilo que as pessoas querem esconder. Daí “caecus” que significa “cego” em latim. Caecus é, portanto, o que está diante de nós, mas ninguém quer ver, e há muita coisa escondida no Brasil. Durante a pesquisa e criação propriamente dita, a opressão feminina surgiu em todas as cenas. Isso foi muito interessante. Na questão da ditadura e da luta antimanicomial, os depoimentos escolhidos foram de mulheres; na questão da homofobia, contamos com o depoimento de uma cross-dressing; além da própria violência contra a mulher presente em uma das cenas.

Quando vocês estrearam?

Campos
– Em março no Teatro de Contêiner da Cia. Munguzá. Eles ocuparam um espaço na região da Cracolândia, colocaram contêineres e fizeram um teatro ali. Recentemente, eles conseguiram uma autorização mais permanente, ressignificaram aquele espaço e ganharam, inclusive, o Prêmio Shell. Para nós estrear ali foi muito significativo.

Durante a peça, nós fazemos um paralelo entre a política do Dória na Cracolândia e a política do Hospício de Barbacena. Como Barbacena fica perto de Belo Horizonte, eles criaram o hospício naquela região; e os prefeitos das cidades vizinhas começaram a prender as pessoas “indesejáveis” ali. Passava a Kombi da prefeitura e levava a população carente, os mais pobres – negros, nordestinos, mulheres, moradores de rua –, para o hospício de Barbacena. Eles eram abandonados ali. Então, nós fizemos o paralelo. Como a lateral dos contêineres era de vidro, durante o espetáculo, a gente abria o contêiner e deixava o entorno, a região da Cracolandia, integrar-se à peça. A região fazia parte do cenário.  

Agora, nós estamos no Teatro Documentário, nos dias 23 e 30 de setembro.

Vocês também circulam em escolas e eventos?

Dia 8 nós fomos para Valinhos, apresentar a peça para 1.500 famílias no Encontro de Mulheres do MST. No próximo dia 21, estaremos em Salto (SP), participando do Festival Taperá de Cenas Teatrais. Também vamos para escolas e acontece de algum professor assistir à peça, gostar e trazer sua turma de alunos. Aí a gente faz debates depois da peça e, em geral, a questão da homofobia e da violência contra a mulher mobilizam muito os mais jovens.

Também procuramos parcerias para levar a peça adiante. Hoje, contamos apenas com bilheteria e há sempre a luta por espaço. São Paulo é a cidade com mais espetáculos teatrais: uma média de 250 peças por mês, englobando tudo (stand-up, infantis, musicais etc.). Temos espetáculos praticamente todos os dias da semana, mas muitos entram em cartaz e logo saem. Existem as companhias antigas, já reconhecidas; e uma grande maioria que surge e desaparece pela dificuldade de se manter. As contas não fecham e muitos acabam pagando para trabalhar.

Além disso, nós estamos em plena crise no setor da Cultura. Nossa Cia., por exemplo, não conseguiu nenhuma lei de incentivo. A lei de fomento está cada vez mais ameaçada; tem o PROAC que todos tentam; a Lei Rouanet que precisa ser reformulada, porque as empresas só querem investir em grandes espetáculos. Isso tudo impede a continuidade de várias companhias. Essa é a realidade dos grupos de teatro em São Paulo.

Além do seu trabalho como diretor, você tem um livro sobre o Ghigonetto.

Campos
– Sim. Eu convivi com o [Antônio] Ghigonetto e minha pesquisa, durante a graduação, foi sobre a trajetória artística dele, resultando no livro  Ghigonetto, um homem de teatro. Ele faleceu em 2010, aos 80 anos. E agora, no mestrado, eu estou pesquisando a história do Grupo Decisão que teve, entre seus fundadores, o Ghigonetto, o Antônio Abujamra, o Emília Di Biasi, o Mamberti. Esse grupo foi de uma importância enorme para a introdução do teatro brechtiano no Brasil. Ele existiu durante quatro anos apenas, entre 1963 e 1967, mas trouxe um teatro muito politizado. Eles encenavam as peças em portas de fábrica, nas periferias, nos sindicatos, montaram “Terror e Miséria do Terceiro Reich”, “Os fuzis da senhora Carrar” e naquele contexto de resistência, em meio à efervescência do teatro nos anos 1960.

É possível estabelecer um paralelo entre o teatro daquele período e o teatro hoje?

Campos
– Antes, os artistas encabeçavam mais esses movimentos de resistência e, de certa forma, isso se perdeu; aliás, o mesmo acontece com os jornalistas que, como os artistas, foram muito perseguidos durante a ditadura militar. Hoje, nos atos e manifestações, eu sempre encontro uma expressão ou manifestação artística; mas muitos artistas preferem não se posicionar a respeito do golpe. Eles temem perder empregos e oportunidades de trabalho e isso realmente acontece, já vi amigos perderem papeis porque publicaram muito sobre política em suas redes sociais. Eu pago um preço por me posicionar.  Uma coisa é o Sérgio Mamberti, a Fernanda Montenegro, a Letícia Sabatella se posicionarem; outra somos nós, os atores da minha geração.

Mas, evidentemente, a vontade de tomar posicionamentos existe e, historicamente, a classe artística sempre esteve mais à esquerda do que à direita. Até porque é muita barbárie que estamos vendo. Nossa Cia. está nessa estrada por amor, lutando para sobreviver. Aliás, nosso próximo trabalho será sobre o MST. Nós não abdicamos de falar sobre temas e projetos que realmente acreditamos. Arte é isso.

Informações sobre a peça:

CAECUS, um documento cênico

Rua Maria José, 140 – Bela Vista

Dias 23 e 30 de setembro, às 19h.








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