Arte

Pedro e o capitão Malhães

Assistindo às declarações de Malhães fica difícil entender como alguém consegue construir aparato tão frágil de argumentos sem esboçar qualquer desajeito.

02/04/2014 00:00

Marcelo Oliveira/Ascom - CNV

Créditos da foto: Marcelo Oliveira/Ascom - CNV

"Quiero decirle, además, que con capucha no abrí la boca porque hay un mínimo de dignidad al que no estoy dispuesto a renunciar, y la capucha es algo indigno." (Pedro y el Capitán, de Mario Benedetti)

A palavra dignidade aparece na literatura muitas vezes como um conceito limite para homens e mulheres. Volúvel, retrátil e/ou expansível, a dignidade é algo a ser significado no discurso do livro, conto, poesia etc. Aos 50 anos do golpe civil-militar de 1964 no Brasil, o terma da dignidade humana ressoa como problema ainda não esclarecido, visto que temos ainda soltos e anistiados (mas não perdoados) os torturadores daqueles 21 anos que passaram (?).
 
A literatura não está rodeada por um cerco impermeável que impede a história de deixar nela suas marcas, é ela - literatura - uma relação direta de ida e vinda com a história e o discurso. Os autores, por exemplo, estão no mundo e sob efeito desse mundo inevitavelmente. Mario Benedetti foi um uruguaio expulso de seu país pelo já conhecido trajeto da ditadura na América Latina. Nascido em 1920, Benedetti pode ser um particular que expressa uma luta universal da expressão artística contra a ferida humana, a opressão.
 
A peça "Pedro y el Capitán" (1979), de Benedetti, me veio à lembrança quando vi pela primeira vez as declarações do coronel reformado Paulo Malhães, agente da inteligência da repressão na ditadura, em vídeo à Comissão Nacional da Verdade (CNV). Claro que cometi algumas injustiças com a obra, mas certas relações podem ser feitas com a ficção de Benedetti e o discurso fugidio do coronel reformado, que mostram a que ponto a ficção serve para tirar da realidade seu invólucro estático e assim podermos entender o humano (demasiado humano) constituído e constituinte da sua condição.
 
A peça, pelas próprias palavras de Benedetti, é "uma conversação entre um torturador e um torturado, na qual a tortura não estará presente como tal, mas como a grande sombra que pesa sobre o diálogo".
 
O Capitão (ou Coronel Reformado Malhães)
Assistindo ao vídeo das declarações fica difícil entender como alguém consegue construir um aparato tão frágil de argumentos, mas mesmo assim não esboçar qualquer desajeito. O prólogo de Benedetti, então, me instiga: "está sobretudo inventando uma trincheira, uma estrutura pela qual possa resguardar sua lealdade a seus companheiros e a sua causa".
 
O uso que Malhães faz de parábolas e especulações para justificar seus "assassinatos necessários" mostram a que ponto chegamos com a ideia democrática de liberdade de opinião. Racionalização da irracionalidade. Hoje é lícito proteger as mais atrozes posições porque temos uma faculdade originária: a liberdade abstrata.
 
O Capitão é esse universo onde cabem muitos coronéis Malhães. O Capitão de Benedetti esboça algo que está além de Malhães: o capitão é um morte por emboscada. O torturador é dominador e instrumento pelo qual se domina.
 
Malhães nos fala: "tortura tem cabimento, tortura é um meio. O senhor quer saber uma verdade? O senhor tem que me apertar para eu contar, senão não conto". Não há escrúpulos quando os meios são ofuscados pela inebriante luz do fim.
 
Quando lemos Pedro e o Capitão e ouvimos Paulo Malhães falar sem arrependimentos dos seus crimes conseguimos ver a que distância chega a violência da ditadura, que à pancadas vai deformando e formando o Capitão, o coronel.
 
Os Pedros e os capitães
- Onde está Pedro? Onde estão os Pedros? - o entrevistador de Malhães o pergunta.
 
- "Como bem sabe o senhor, não existia DNA… Tirávamos os dentes e cortávamos daqui pra cima (mostra as pontas dos dedos)" - disse el Capitán.
 
O reconhecimento de que a guerra instaura uma exceção faz com que o coronel Malhães passe por cima da memória de quem quer que ele aponte como subversivo ou terrorista. A razão está por trás dele, o coronel não a conhece, mas é esta razão que o empurra para o assassinato, para a tortura, para a violência.
 
É nessa torção que a peça de Benedetti aponta: que razão é essa que deforma e conforma o humano? Olhar para pesquisas tais como a feita pelo IPEA sobre o estupro e sua justificação, mostram que o invólucro racionalista das atrocidades ainda persiste em tempos democráticos. É difícil compreender como uma anistia foi assinada antes do perdão e do arrependimento. Uma conciliação sem expurgo, sem retratação aparece nas declarações de Malhães, a violência é feito norma, "matei tantos quanto foram necessários (...) não me arrependo".
 
A Comissão da Verdade tem tido um papel de refazer um percurso, mais que interrogar os torturadores tem o papel didático de mostrar o que foi esta privação última do homem, de sua dignidade. É como se a Comissão tentasse assumir o papel do interrogador, mas sempre lembrando de que assumir esse papel é impossível. Nas palavras de Pedro, Benedetti escreve, respondendo a Malhães e outros capitães:
 
- Por que te aplico o mesmo tratamento? Não é para tanto. Ademais, tens o poder, o marcador de gado, a piscina com merda, o plantón. Eu não tenho nada. Salvo minha negativa.
 
Quando estamos cercados, mais cheios de perguntas do que de qualquer fresta de respostas, só nos resta a negativa, mas que seja por ela que reconstruamos o passado. 
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Fonte: Depoimento do coronel Paulo Malhães, ex-agente do CIE.



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