Arte

Primeiro longa-metragem saudita é uma jóia

"Wadjda", o nome do filme, é o nome próprio de sua pequena protagonista, uma menina de 11 anos, cujo sonho é comprar uma bicicleta.

05/11/2013 00:00

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Créditos da foto: Divulgação
O Sonho de Wadjda, primeiro longa-metragem filmado inteiramente na Arábia Saudita, estreou em Berlim depois de uma exitosa exibição internacional.

 

Wadjda é o nome de sua pequena protagonista, uma menina de 11 anos,  cujo sonho é comprar uma bicicleta. Todas as dificuldades imagináveis atravessam seu caminho: o preconceito que diz que andar de bicicleta não é para meninas; o fato de que ela não tem dinheiro, a mãe não quer ajudá-la, o pai, embora afetuoso com ela, permanece distante e indiferente, as professoras e a diretora da escola que ela freqüenta são rígidas ao absurdo em proibir tudo o que é considerado pecaminoso para meninas, desde pintarem as unhas a serem vistas por homens que não são familiares.

 

Além de ser o primeiro longa saudita, embora em co-produção com uma filmadora (Razor Film) e várias fundações de fomento alemãs, Wadjda é dirigido por uma mulher, Haifaa Al Mansour, já conhecida internacionalmente por curtas e documentários, inclusive sobre a situação das mulheres em seu país e no Golfo Pérsico. Haifaa, casada com um diplomata norte-americano, vive no Bahrain. Na Arábia Saudita o filme teve o apoio da Companhia Rotana, do Príncipe Al Waleed bin Talal, considerado um dos homens mais ricos do mundo.


As cenas foram filmadas inteiramente em Riyad, a capital saudita. As dificuldades foram tão complicadas quanto as que a pequena protagonista tem de enfrentar. Haifaa tinha de acompanhar as filmagens desde dentro de uma van, por monitor de tevê e walkie-talkie, por não poder ser vista nas ruas na companhia de homens “estranhos” – os membros da equipe de filmagem.

 

A almejada bicicleta, exposta na frente de uma loja, cujo dono é um dos persoangens simpáticos do filme,  custa 800 rials (pouco menos de 200 dólares americanos, R$ 450). Wadjda se dispõe a fazer tudo para conseguir seu objetivo: produz fitas cassetes com músicas modernas (coisa igualmente proibida), faz e vende fitas coloridas na escola (coisa também proibida) e – proibição das proibições, age como “go-between”, mensageira, entre uma das professoras e seu amante.


Entretanto tudo isto só lhe mostra a distância quase infinita que existe entre ela e os almejados 800 rials. O comerciante a favorece, fazendo de tudo para reservar a bicicleta para a pequena compradora, mas a distância permanece parecendo intransponível. Até que Wadjda ouve falar do concurso de récitas de versos do Corão na escola, cujo prêmio é de 1.000 rials. Ela, que até então era vista pelas professoras e sobretudo pela diretora como uma rebelde desleixada em relação aos preceitos religiosos e de comportamento, decide entrar no concurso.Tudo isto num momento difícil para a família, porque sua mãe compreende que está perdendo seu marido, por não ter-lhe dado um filho homem: ele está se decidindo se vai buscar uma segunda mulher ou não. Em ajuda de Wadjda vem também seu amiguinho Abdullah, que possui uma bicicleta: ele a empresta a ela, em segredo, para que ela possa aprender a andar.


Não vou estragar o suspense do filme sobre o que vai acontecer a pequena protagonista, vivida na tela pela estreante Waad Mohammed, numa desempenho magistral.  Por isto, vou me limitar a fazer alguns comentários sobre certos significados do filme. 

Um deles é que o tema central do filme é a hipocrisia. Quase todos os personagens, enquanto guardam um respeito de fachada pela rigidez dos costumes e a repressão sobre a vida das mulheres, têm seus segredos e labirintos secretos. Até a pequena Wadjda é iniciada neste mundo, pois para disputar a récita do Corão tem de fingir ser o que não quer ser. Os únicos que de fato escapam a esta condição são o pequeno Abdullah e o comerciante em cuja loja descansa o sonho da protagonista.
 
É impossível não ver um paralelo entre a busca da bicicleta e os recentes movimentos de protestos das mulheres sauditas para levantar a proibição de que dirijam automóveis. O filme é muito corajoso, embora crie uma imagem alegórica desta dimensão e, aliás, em nada prejudicando o enredo que lhe é próprio, isto é, o de uma menina que quer ter uma bicicleta.
 
Ao ver o filme, com uma fotografia simples bem articulada por uma montagem segura, pode-se pensar na presença de um neorrealismo italiano, do pós-guerra. É claro que se pensa em “
Ladrões de Bicicleta” (1948), de Vittorio de Sica, mas outras aproximações também são possíveis, como com “La Strada”, (1954), de Federico Fellini.
 
Entretanto, nada disto tira a originalidade do filme. Apenas demonstra que ele está em boa companhia.


 

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