Arte

Reflexão agora é a partir da ação

"O planeta está num limite visível, palpável, a pobreza cada vez maior, os valores de cabeça para baixo. Construímos o que aqui está e temos a obrigação de uma reinvenção", diz a diretora Bia Lessa no seu espetáculo 'PI - Panorâmica Insana'

07/06/2019 20:51

 

 
Com uma plateia de mais de 300 lugares lotada em todas as sessões do seu novo espetáculo, PI – Panorâmica Insana, a paulista Bia Lessa, de 60 anos, uma das mais importantes diretoras do teatro brasileiro contemporâneo, encena o  décimo quarto trabalho, mais um na lista dos seus grandes sucessos, de crítica e de público – como Cartas portuguesas, O homem sem qualidades, As três irmãs, Casa de Bonecas, Medeia e Grande sertão: Veredas Guimarães Rosa.

Ele está em cartaz atualmente no Rio de Janeiro até o dia 16 deste mês.*

O espetáculo, de uma hora e meia, conta com uma cenografia de grande impacto, assinada pela diretora, um mar de 11 mil peças de roupas atapetando o chão do palco de 140 metros quadrados, e outras penduradas em cabides laterais.

Panorâmica Insana é um recado vigoroso de Bia Lessa repassado através dos textos de Júlia Spadaccini, Jô Bilac e André Sant'anna, com citações de Kafka e Paul Auster: "Precisamos reinventar uma nova forma de vida. Algo que ainda não existe, mas que é urgentíssimo", ela diz em entrevista a Carta Maior, se referindo ao mundo cão no qual vivemos hoje.

A artista, que vive no bairro de Santa Tereza, no Rio, tem como referência plástica Cildo Meireles ("um gênio;  será sempre para mim uma referência”) e como influências, José Celso e os saudosos Paulo Mendes da Rocha, José Celso, Antunes Filho e Pina Bauch.

Como admirável cenógrafa que ela é, Bia gosta de variar de quarto, na sua casa, quando dorme. E moraria com prazer num galpão "com múltiplas funções".

Abaixo, a bela entrevista de Bia Lessa na qual ela fala sobre a sua tristeza com o desmonte da cultura no Brasil.

CM- Próximos passos de Panorâmica: São Paulo? Outros estados? Exterior? Festivais?

BL -
Estamos tentando viabilizá-lo. Queremos levá-lo a todos os lugares possíveis.

CM - Plateia lotada todas as noites?

BL -
Toda noite. Isso é uma beleza; temos que agradecer.

Carta Maior - O espetáculo PI funciona como um espelho? Os espectadores se sentem refletidos no que ocorre no palco?

Bia Lessa -
Não saberia te dizer se é especialmente um espelho, mas todo teatro é, de alguma forma, um encontro entre os homens. Numa espécie de espelhamento. Nesse caso, no caso do PI, acho que isso acontece de forma mais direta; são falas que ouvimos todos os dias pelas ruas, que não são estranhas ao espectador. Acho que ali se estabelece um jogo entre o que é a fala espontânea e o que é a literatura. Esse meio termo é que me parece interessante.

CM - Como o espetáculo se formou dentro de você? Aos poucos? Ou houve um gatilho? Gatilho político?

BL -
O espetáculo se formou a partir do desejo da Claudia Abreu e do Luiz Henrique Nogueira de montarem um espetáculo de um

autor contemporâneo e que fosse uma reflexão do que estamos

vivendo. (De novo o espelho). Junto a isso, a realidade mundial,

que nos obriga a uma ação imediata. Não me parece que é tempo de reflexão - a reflexão agora precisa ser feita a partir da

ação. Esse é o gatilho – a ação! E não é um gatilho que diz respeito unicamente ao momento político que estamos

passando no Brasil, mas um gatilho que diz respeito a um mundo

que construímos e já não nos serve mais. O planeta está

num limite visível, palpável, a pobreza cada vez maior, os valores

de cabeça para baixo. Construímos o que aqui está e temos a obrigação de uma reinvenção.

CM - Qual é o mundo que nos serve, Bia?

BL -
O mundo que nos serve é simples, um mundo no qual todos

comam, durmam, estudem, possam escolher seu destino.

CM - O que precisará ser feito?

BL-
Precisamos reinventar uma nova forma de vida. Algo que ainda não existe, mas que é urgentíssimo. Mas com certeza algo que ponha no lixo esse consumo desenfreado, esse poder do

dinheiro como forma única de soberania.

CM - E o que devemos fazer no presente?

BL -
Essa receita eu acho que não temos, mas acho que já sabemos o que não fazer.

CM - O que você e todos nós precisamos saber?

BL
- Acho que já sabemos, e aí é que está a questão. Sabemos, e

daqui para a frente é opção, e não mais ignorância.

CM - E nós, brasileiros, neste momento difícil da nossa vida neste país? O que devemos fazer?

BL -
Devemos trabalhar, trabalhar e trabalhar como diz Tchecov.

CM - A cultura brasileira (popular e a acadêmica) é forte o bastante para se recuperar do estrago ao qual está sendo submetida pelo atual governo?

BL -
Acho que sim e acho que não. Perdemos muitas coisas

irrecuperáveis; o Museu Nacional, por exemplo, e estamos vendo ruir o Museu Casa do Pontal, tantas coisas... o Antunes Filho, riquezas que se vão e com elas um enorme conhecimento. Deveríamos pensar no que fazer, não no que destruir. Há tanto a ser feito...

CM – Foi você quem criou o folder do programa do espetáculo onde há a relação de estatísticas impressionantes de eventos comprovando a gigantesca destruição desse "mundo _ em _ que_ vivemos"? Qual o dado estatístico que mais impressiona você? Algum detonou o processo de criação de PI – Panorâmica Insana?

BL
- Pois é, o programa é composto de dados da realidade. Às vezes, os dados parecem mais objetivos que o discurso. Sim, eles nos ajudaram muito, esses dados ecoam na minha cabeça cotidianamente. E os dados batem à nossa porta todos os dias. Cada vez mais pessoas dormindo na rua, cada vez mais doentes sem tratamento, cada vez menos escolas e universidades, cada vez menos, cada vez menos, cada vez menos ... visivelmente menos. Olha as ruas do Rio de Janeiro, olha a África, olha Paris.

CM – O processo criativo teve muita conversa com Julia Spadaccini, Jô Bilac e André Sant’anna?

BL
- Muita conversa, muito trabalho com Julia e Jô, parceiros

queridos dessa jornada. Com o André foi diferente; ele não

participou diretamente do processo. Eu conhecia seu trabalho,

de altíssima qualidade e ineditismo, e há muito queria encená-lo.

Achei oportuno juntar os monólogos do Sant’anna com o texto

que estava sendo criado.

CM - Quais as principais influências no seu trabalho?

BL - Somos feitos de tantas coisas. Primeiro de nossos pais, nossa

educação. Eu sou feita muito de minha mãe, e de cada coisa que

vi no mundo, uma cadeira quebrada apoiada num tijolo, uma gambiarra solucionando um problema, os livros tantos, o

cinema, a literatura, a arquitetura, o Paulo Mendes da Rocha, o

Sergio Sant'anna, o Antunes Filho, Zé Celso, Tadeu Ando, Pina

Bauch...

CM - Você espera o quê, do mundo? Das pessoas?

BL
- Espero que possamos melhorar o que cá está, e não falo apenas desse nosso Brasil, mas de um mundo cão que construímos.

CM - O ser humano tem jeito?

BL -
Se o ser humano foi capaz de construir o que construiu até

agora, das maravilhas às maiores brutalidades, não é possivel

que não consigamos fazer diferente. Se não der, que venha a natureza e nos coma.

*Teatro Prudential (ex-Teatro Manchete)

  Praia do Russell/ Flamengo

  De quinta a sábado

  Sessões às 21 horas



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