Arte

Retrato social do Chile

15/09/2013 00:00

Gérson Trajano

Um latifundiário decadente e debilitado, Esteban Trueba (Jeremy Irons), volta para a sua fazenda em busca de resgatar o passado. Com ele, sua filha Blanca (Winona Ryder) e sua neta Alba (Hannah Taylor-Gordon). Assim começa ‘A Casa dos Espíritos’, filme dirigido pelo dinamarquês Billie August em 1993, baseado na obra homônima de Isabel Allende, publicada em 1982.

Por meio da saga da família Trueba, o filme narra a história do Chile a partir da década de 1920, uma sociedade patriarcal e conservadora, onde a família ocupava todos os espaços, e o que não fosse provido por ela representava um corpo estranho e indesejável, até os anos 1970, quando um golpe militar depõe o governo do socialista Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973.

No filme, além de latifundiário, Trueba torna-se também senador da República pelo Partido Conservador e financia o golpe militar. Mas logo vê sua influência reduzida, quando as forças armadas fecham o Congresso e ele é impedido por um oficial de falar com o ministro do Interior sobre a prisão de sua filha. Blanca é detida e torturada para revelar o paradeiro de Pedro Segundo (Antonio Bandeiras), líder trabalhista, com quem tem uma filha, Alba.

O diálogo entre o senador e o militar ajuda a elucidar o processo do golpe e momento político vivido pelo Chile. Trueba pergunta ao milico quem ele acha que fez contado com os generais superiores para deflagrar o golpe? Quem estabeleceu os elos com os norte-americanos? Que dinheiro e que reputação garantiram as armas para o golpe de Estado?

Arrogante e autoritário, o soldado responde simplesmente: “Você e seus amigos ainda têm o poder econômico, mas nós governamos o pais.” Ou seja, eles têm a força. As armas.

Para desestabilizar o governo Allende, a burguesia e os fascistas chilenos, os governos norte-americano e ditatoriais da América do Sul, inclusive o do Brasil, promoveram sabotagens e boicotes, que levaram à falta de gêneros de primeira necessidade – inclusive medicamentos – para a população, com o intuito de amedrontar, principalmente, as camadas médias da sociedade.

Edward Korry, embaixador dos Estados Unidos em Santiago, chegou a afirmar, na época da eleição de Allende, 1970, que os EUA não permitiriam que chegassem ao Chile um só parafuso, nem uma só porca. “Enquanto Allende permanecer no poder, faremos tudo ao nosso alcance para condenar o Chile e os chilenos às maiores privações e misérias”, disse o embaixador.

Direitos das mulheres - Apesar do protagonista ser Esteban Trueba e da maioria dos eventos girarem em torno dele, são as mulheres da família que efetivamente dominam a história. Três delas marcam o enredo do filme, que combina narrações em primeira e terceira pessoas: Clara (Meryl Streep), esposa de Trueba, Férula (Glenn Close), irmã do fazendeiro, e Blanca, sua filha.

Mais do que figuras de uma história sobre uma família chilena ao longo do século XX, essas personagens representam a luta da mulher pelo seu direito de amar, de se expressar livremente, de igualdade de condição e sobretudo sobre o seu próprio corpo, em uma sociedade tipicamente masculina e opressora, que não permitia qualquer tipo de manifestação contrária aos seus preceitos.

Assim, Esteban inveja o relacionamento de Férula e Clara, e expulsa a irmã de sua casa, que morre abandonada. Interna Blanca em um colégio, para que ela não se aproxime dos empregados da fazenda. Mas quando ela regressa, apaixona-se por Pedro, filho do capataz e líder do movimento dos trabalhadores rurais contra os senhores de terras, de quem engravida.

Contrariado, ele tenta obrigar a filha a se casar com um conde francês. Ela se nega, demonstrando firmeza e resolução. Com isso ganha o orgulho e o respeito da mãe.

As injustiças e a postura machista de Esteban levam Clara a rejeitá-lo e ele exige seu direito de marido sobre ela. Clara não sede e Estaban se vê numa encruzilhada entre as idéias que defende e o amor por sua mulher.

Quando o filme foi lançado no Brasil e nos Estados Unidos, a crítica especializada elogiou o figurino, a fotografia, a música e produção. Mas criticou o diretor por não mostrar com mais intensidade os amores proibidos, a vingança, o misticismo, os opressores e os oprimidos como no livro de Isabel Allende. Mas deve-se considerar que cinema não é literatura.


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