Arte

Scorsese em Wall Street: oportunidade e ganância

O que interessa a Scorsese é mostrar uma imagem não panfletária de alguns pilares do sonho americano: agressividade, violência e obsessão pelo dinheiro

19/01/2014 00:00

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Créditos da foto: divulgação


O que interessa a Martin Scorsese, 71 anos, ítalo-americano nascido no Queens, bairro de imigrantes católicos de classe média de Nova Iorque, é mostrar no seu cinema, que continua sendo de vertiginosa agilidade, uma mega imagem não panfletária de alguns pilares do sonho vendido pelo marketing e da cultura americana: agressividade, violência e obsessão pelo dinheiro. O tema permeia praticamente todos os seus filmes - Os bons companheiros, Caminhos Perigosos, Taxi Driver, Touro Indomável, As Gangues de Nova Iorque, Cassino, o excepcional Os infiltrados (pelo qual ganhou um Oscar) e agora O lobo de Wall Street, que concorre novamente ao premio máximo do cinema americano.
 
“Filmei uma história de loucura e da obscena mentalidade de um negócio podre,” diz Scorsese a propósito de Jordan Belfort, que foi broker da bolsa de Wall Street. Ele chegou a ser apontado pela Forbes como um dos homens mais ricos do mundo e escreveu uma autobiografia que inspirou o cineasta/ícone da excepcional geração do cinema americano dos anos 70.
 
Negócio podre, de compra e vendas de papeis sem lastro, que sempre se apoiou e floresceu antes (como na história do filme; nos anos 90), em 2008 e até os dias de hoje em duas palavras: ganância e oportunidade. A segunda palavra, aliás, mencionada diversas vezes no filme de Scorsese é bem familiar no Brasil: Opportunity.
 
A tal purga que se faz de tempos em tempos – lá ministrada pelo FBI em termos relativos -, procurando manter o sistema purificado de suas toxinas, firme e presente ad infinitum. O escândalo Belfort envolveu o rapaz de menos de 30 anos na época, vindo da pequena burguesia do Bronx e do Queens. O contrário da grande maioria dos seus pares com origem nas classes médias altas e ricas – lá, como aqui. 
 
Ganhou, aos 26 anos, 22 milhões de dólares no espaço de tempo de três horas vendendo papel sujo, e podia gastar 26 mil em um jantar com uma garota. O filme, em tom farsesco, mostra a ascensão e a queda de mais este anti-heroi de Scorsese que vem se juntar à galeria de personagens malditos retratados em seus outros filmes.
 
O Lobo de Wall Street, como escreve Caio Sarack, é a distopia americana vista por dentro. Mostra a avidez americana pelo dinheiro. Alguns anos mais tarde, depois do escândalo Jordan Belfort, a suíte desse episódio seria a queda do Lehman Brothers – é neste contexto que o filme deve ser visto - e o gigantesco naufrágio que levou de arrastão o sistema de bancos, Wall Street e deixou milhares de americanos sem casa, arruinados e a ver navios. Os primeiros recuperaram-se como se sabe à exaustão. Os outros, ingênuos (?) sonhadores do tal sonho americano, engrossaram fileiras dos novos pobres do neoliberalismo.
 
No filme, o lobo líder da matilha de corretores é construído com força e rara excitação por Leonardo di Caprio, que faz um trabalho memorável. Leonardo é amigo de Scorsese e seu parceiro de negócios como foi também, durante anos, o ator Robert de Niro. Bancou O Lobo de Wall Street com a sua produtora Appian Way e foi quem descobriu, tempos atrás, o livro de Belfort antes de ser publicado e escrito durante os dois anos em que o escroque esteve preso.
 
Di Caprio comenta: “Com todas as pessoas que ferraram tanta gente desde 2008, eu fiquei obcecado para interpretar um desses personagens e entender a mentalidade e a natureza da sedução e da ganância de Wall Street.”
 
E o cineasta explica sua fascinação antiga pelo tema da janela da oportunidade aberta pela avidez comentando: “Se existe um filme que sempre me encantou foi Ouro e Maldição, o clássico de Eric Von Stroheim, de 1925.” 
 
As sequências dos delírios de Belfort/di Caprio sob o efeito de drogas leves, medianas ou pesadas (o filme é pulverizado com cocaína, a droga da onipotência) são inesquecíveis. Os discursos motivacionais do broker dirigidos à matilha de funcionários da sua empresa, a Stratton Oakmount, de Long Island, e que urram junto com o chefe, são lobos apresentados por Scorsese como adoradores da religião do capitalismo. A ansiedade insuportável do protagonista e companheiros é tratada com quaaludes e mandrix, travando a língua e paralisando o cérebro. A permanente exaltação dos climas das situações.
 
Leonardo se consome no seu personagem e convida o espectador, com sucesso, a embarcar no ritmo alucinante de orgias, jogos, sexo contínuo, desperdício, cinismo e amoralidade durante as mais de duas horas de filme. 
 
O jornal Libération anota com propriedade: “O filme tem uma vitalidade que fascina; mas ela também é ameaçadora.”
 
Belfort/di Caprio dá o tom definitivo do assunto. “Esta é a América! Esta é a minha casa!” ele berra em um dos discursos finais, antes de ser processado, se recusando a sair do labirinto que está para tragá-lo e assumindo o risco de ser preso – como acabou ocorrendo. Isto é: preso suavemente, beneficiado que foi com delação premiada.  
 
Quem se dispuser a assistir ao filme de Scorsese pensando encontrar uma versão atualizada do Gordon Gekko de Michael Douglas (filme de Oliver Stone, Wall Street de 1987) vai se frustrar. Nos anos 80 o corretor salafrário ainda se assemelhava a uma Branca de Neve. Rapidamente aprendeu a ser o Lobo da história. 
 
Scorsese está na sua melhor forma. Trabalha rocky punk, como diz Leonardo a propósito do amigo. Tem razão. Seus travellings neste filme são funcionais, vertiginosos, os flashes velozes, fulgurantes, há imagens desfocadas que se esgotam em si mesmas, e a pressão do ritmo vai se desfazendo na medida em que Jordan Belfort se encrenca, perdido na sua desmedida. A esta altura o espectador está de ressaca, exausto, mas nunca entediado. Afinal, é preciso que a liberdade não exceda o sistema em que foi constituída – como diz também Sarack na sua resenha sobre o filme. 
 
Há outro filme por detrás de O lobo de Wall Street cujo final não deixa de ser ambíguo, moralista e polêmico. Na realidade, Belfort foi preso, solto e hoje continua contratado para dar brilhantes palestras motivacionais, ensinando a vender até caneta bic usada. O policial que conseguiu acuá-lo volta para casa de busão (no caso, o subway de Nova Iorque), depois de encerrado o caso, sentado no meio dos trabalhadores que sustentam a grande festa da dinheirama.
 
O segundo filme é este: atualmente Jordan Belfort vive em um dos condomínios mais luxuosos e caros da Califórnia, em Manhattan Beach, próxima de Los Angeles. Faturou até agora mais de dois milhões de dólares com o livro que vendeu para a Appian de Leonardo e suas 40 versões em 18 idiomas. Está lançando a continuação da sua saga, O lobo de Wall Street número dois. 
 
Belfort até hoje não pagou metade da sua dívida àqueles a quem vendeu vento. Deve 110 milhões de dólares a 1 500 investidores e continua sob processo.
 
Mas é um rapaz que sabe aproveitar a oportunidade que aparece – opportunity. Não as chances da política, como aqui. No seu caso, a avidez dos trouxas pelo dinheiro.
 
Leia também: Para além do Lobo de Wall Street



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