Arte

Setenta combatentes e apenas um filme

Sobreviventes da dor e da violência, os 70 militantes trocados por um embaixador sequestrado são os entrevistados de Emília Silveira.

10/10/2013 00:00

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Dos onze documentários de produção nacional, de longa metragem, exibidos este ano no Festival do Rio, apenas o filme Setenta, da jornalista Emília Silveira, tem como tema os anos de ditadura civil-militar no Brasil. No grupo dos docs brasileiros, um deles mostra futebol - o clássico Fla x Flu. Outro, samba. O terceiro aborda a violência nas favelas. O quarto, as origens do Circo Voador, templo do entretenimento no Rio de Janeiro, 30 anos atrás. A saga de Serra Pelada nos anos 80 é o assunto de um quinto, a vida e a obra do cantor Cauby Peixoto, o sexto. O sistema penitenciário e histórias de amor são temas da lista e dois deles fazem uma viagem ao redor do próprio umbigo com lembranças do cinema brasileiro de décadas passadas.

Causa espécie que assim seja. Apenas um filme político no pacote. Assim como Setenta, os demais são produções finalizadas meses atrás, dois anos depois de terem se espalhado pelo país as Comissões da Verdade trazendo, enfim, alguma expectativa de identificação e punição para os que prenderam, torturaram e mataram à vontade durante os anos batizados pelos alemães, por motivos diversos dos nossos, de “anos de chumbo”. 

A lógica sugere que o assunto deveria ser um dos grandes temas nacionais a serem discutidos no nosso cinema neste momento em que se avizinha no horizonte a data que marcará, em março de 2014, os 50 anos do golpe civil-militar. Para um cinema que goza da fama de celeiro de excelentes documentaristas é estranho a escassez de novos filmes políticos.

A diretora de Setenta, Emília Silveira sofreu na pele a violência e a dor relatados nos depoimentos dos 18 entrevistados do grupo de 70 combatentes da ditadura brasileira trocados pelo terceiro embaixador sequestrado no Rio de Janeiro, o suíço Giovanni Enrico Bucher, no dia 7 de dezembro de 1970. Presa em quartel da polícia do exército, depois no Departamento de Ordem Política e Social (o Dops) do Rio de Janeiro e em seguida na penitenciária de Bangu, Emília foi casada com outro militante, Marco Maranhão. Uma noite, convidada pelo ex-marido para participar, no tradicional restaurante Lamas, no bairro carioca do Catete, de um dos encontros regulares dos remanescentes do grupo dos setenta, alguns deles amigos até hoje, ela aceitou o convite, filmou a reunião e decidiu fazer o documentário. Isto ocorreu em 2003. De lá para cá Emília e outra amiga jornalista, Sandra Moreyra, a roteirista, começaram outra guerrilha, como ela diz, para levantar dinheiro para a produção que agora, 13 anos depois, enfim vai para as telas.

A estrutura do documentário é clássica e enxuta. Imagens de época situam a atmosfera de repressão e violência no Brasil dos anos 70 para o espectador, a maioria uma platéia de jovens ainda não nascidos na época. Nunca será demais mostrá-las e lembrar
Em seguida, o sequestro, e um mês e meio depois o embarque dos setenta prisioneiros para o Chile de Allende. Lá, a vida retratada em preciosas imagens resgatadas e em algumas pouco conhecidas como as do famoso documentário de Haskal Wexler e Saul Landau, Brazil, a report of torture no qual vários dos setenta mostram, com seu próprio corpo, fìsicamente, as torturas sofridas. (Foi exibido há cerca de um ano num canal de televisão.)

Setenta acompanha o golpe de Pinochet e a diáspora que se segue. Alguns dos brasileiros conseguem sair do Chile e vão para a França; outros são asilados na Suécia, Berlim, Bruxelas. A vida na Europa do grupo, cada qual no seu destino, e dois suicídios de militantes que não suportaram as sequelas psicológicas deixadas pela tortura no Brasil. Maria Auxiliadora Lara Barcelos (Dora) se mata no metrô de Berlim e o dominicano Frei Tito enforca-se num mosteiro próximo de Paris. Entrelaçados aos fatos, as entrevistas comentando os acontecimentos. O filme vem até os dias que correm.

O que os jovens setenta pensavam, à época? Quais foram os seus sonhos? O que pretendiam? E que indivíduos eles eram, aos 20 anos de idade e como são hoje – depois de quase meio século? Como se transformaram? São professores, políticos, executivos, donas de casa, sobreviventes da dor e da violência, os entrevistados no filme comovente de Emília cujo roteiro de Sandra Moreyra é pontuado pelas entrevistas do casal Affonso e Mara Alvarenga, Marco Maranhão, Jean Marc Van der Weid, Elinor Brito, Nancy Mangabeira Unger, René de Carvalho - filho de Apolônio de Carvalho, Chico Mendes, Reinaldo Guarany, Vera e Bruno Dauster, Wilson Barbosa, Ismael de Souza, Jaime Cardoso, Frei Oswaldo, amigo de Frei Tito, e de Maria Auxiliadora Barcelos – estes dois entrevistados ainda em Santiago - e Luiz Alberto Sanz. Há imagens de todos eles, jovens, depois mais velhos, no exílio, e como são e pensam hoje.

Um dos depoimentos conclusivos mais tocantes é o de Luiz Alberto quando declara, emocionado, o orgulho que o filho Paulo, um empresário de sucesso, de São Paulo (também entrevistado) nutre por ele e suas ações políticas. “E eu que não pude acompanhá-lo como queria e ao Joca, seu irmão,” diz ele.

Para todos, “valeu a pena” porque, honestamente, seguiram o que a consciência dizia para fazer à época, mesmo que às vezes os caminhos e o timing dos eventos fossem equivocados. 

Um bom documentário conta com dois pilares. Sem um deles se torna manco. A sua qualidade é resultado de uma excelente pesquisa de imagens de época, fortes, surpreendentes, desconcertantes ou desconhecidas até então. São as jóias do filme. E da habilidade de quem conduz as entrevistas, filma os personagens e monta os depoimentos procurando a emoção real do conteúdo.

Setenta, sem qualquer pretensão, na sua simplicidade, possui os dois. É um documentário imperdível.

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