Arte

Tanques sobre Santiago

11/09/2013 00:00

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Créditos da foto: divulgação
Uma das primeiras cenas do filme Chove Sobre Santiago (Il pleut sur Santiago), do cineasta Helvio Soto, são de tanques militares que saem logo pela manhã de um quartel para tomarem de assalto as ruas da capital chilena. O dia, 11 de setembro de 1973, data do golpe militar que depôs o presidente socialista Salvador Allende. Os blindados são filmados de frente e enchem a tela. Dão a impressão que vão passar por cima da platéia, como o efeito causado pelo primeiro filme dos irmãos Lumière, de um trem chegando na estação, apresentado no Grand Café.

A imagem dá a dimensão da obra de Soto, que mostrar o aparato truculento em direção ao Palácio de la Moneda, sede do governo chileno. Na sequência seguinte, a câmera mostra a movimentação de soldados e um oficial que discursa diante da tropa, afirmando que mais uma vez o exército se prepara para escrever uma página gloriosa da história do Chile. Um página que registra mais de 40 mil vítimas, entre desaparecidos, torturados e assassinados, segundo relatório da Comissão Valech, de 2011.

Apesar do título ter uma conotação poética, Chove Sobre Santiago foi o nome da operação arquitetada pelas forças reacionárias do Chile, que culminou com o golpe de Estado em 1973. Essas mesmas forças colaboraram ativamente com outra operação, a Condor, uma aliança político-militar entre os regimes militares de Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai e Uruguai, que trocava informações sobre os ativista de esquerda em todo Cone Sul.

No filme de Soto, em um dia chuvoso, um jornalista passeia de carro pelas ruas de Santiago. Ele observa a estranha movimentação dos militares enquanto ouve as notícias pelo rádio, que regularmente informa que está chovendo sobre a cidade.

Rodado na Bulgária em 1975, onde o cineasta estava exilado, e falado em francês, o filme vai aos poucos mostrando os anos da (UP) Unidade Popular no governo (1970-1973) e o dia do golpe, com todos os detalhes violentos, incluindo imagens do Estádio Nacional transformado em prisão dos ‘subversivos’ e a tomada do Palácio Presidencial. A trilha sonora tem assinatura de Astor Piazzolla e o elenco conta com Jean-Louis Trintignant, Annie Girardot, John Abgey e Bibi Andersson.

O filme traz ainda o último discurso de Allende, transmitido por uma rádio instalada dentro do La Moneda, cercado por tanques e bombardeado pela aviação chilena. Um dos momentos marcantes da fita é o enterro do poeta Pablo Neruda, morto em 22 de setembro de 1973, que se transformou numa manifestação popular.

No cortejo, acompanhado por militares armados e com câmeras fotográficas, uma senhora grita corajosamente: Companheiro Neruda! E a multidão responde: Presente! Agora e sempre. Em seguida ela grita: Companheiro Salvador Allende! E o coro unânime: Presente! Agora e sempre. Ela continua: Povo chileno! E os manifestantes respondem: Presente! Agora e sempre. Neste instante a imagem é congelada e a música de Piazzolla reforça a determinação de um povo em sempre lutar por liberdade.

Governo socialista – No governo da UP intensificou-se o processo de mobilização popular e implementou-se uma significativa melhoria das condições de vida dos trabalhadores, a reforma agrária e a nacionalização de empresas estrangeiras, como as das minas de cobre, ferindo os interesses econômicos de grandes grupos empresariais.

Salvador Allende acreditava ser possível produzir mudanças econômicas e políticas radicais em seu país dentro da institucionalidade vigente. Mas os militares e os fascistas chilenos, os governos americano e ditatoriais da América do Sul, inclusive o do Brasil, provaram que isso não era possível.

Esses personagens históricos foram responsáveis por sabotagens, boicotes, geradores de falta de gêneros de primeira necessidade – como medicamentos – para a população, com o intuito de amedrontar, principalmente, as camadas médias e desestabilizar o governo. O ato capital desse enredo aconteceu em 11 de setembro de 1973, com um golpe militar, chefiado pelo general Augusto Pinochet.

A gestação do golpe – Logo após a confirmação de Allende presidente em 1970, Edward Korry, embaixador dos Estados Unidos em Santiago, diz a Eduardo Frei, então presidente do Chile pelo partido Democrata Cristão, que os EUA não permitirão que cheguem ao Chile um só parafuso, nem uma só porca. “Enquanto Allende permanecer no poder, faremos tudo ao nosso alcance para condenar o Chile e os chilenos às maiores privações e misérias”, afirma Korry.

Em Chove Sobre Santiago, o embaixador americano sugere a Frei um golpe de Estado para impedir que Allende assuma o cargo. De acordo com o plano, Frei iria para o exterior por um determinado tempo até o exército restituir a ordem e convocar novas eleições. Frei então voltaria ao país e lideraria uma coalizão de moderados cristãos.

A outra alternativa para evitar um governo socialista partia do próprio Exército Chileno que queria impugnar as eleições inventando irregularidades cometidas pelos marxistas, que teriam alterado os resultados na apuração dos votos.

Estava em preparação o golpe, consumado três anos depois, e que causou um dos maiores morticínios entre as ditaduras sul-americanas, só perdendo para a Argentina. Esta é a gloriosa história escrita pelo exército chileno.

Helvio Soto dedicou o filme a seu amigo Augusto Olivares, jornalista, que conheceu na Televisão Nacional de Chile. Tempos depois, Olivares tornou-se assessor pessoal de Allende. Os dois morrem o Palácio de la Moneda no dia do golpe.


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