Arte

Terra Firme: os indesejáveis

O tema de Terra Firme, do descendente de sicilianos Emanuele Crialese, não vem de hoje. Há anos o êxodo e os naufrágios vêm ocorrendo.

23/10/2013 00:00

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Créditos da foto: Divulgação


“Nosso mar que antes trazia peixe hoje traz corpos e cadáveres,” diz um velho pescador, personagem do filme Terra Firme (2011) durante uma reunião dos moradores da colônia. A sequência é uma chave mestra da história filmada na ilha de Lampedusa - embora não seja especificado o local onde, por sinal, Berlusconi possuiu uma esplêndida villa -, argumento de autoria do próprio diretor, o descendente de sicilianos Emanuele Crialese, herdeiro da grande geração de maestros italianos. Lattuada, Rossellini, Visconti, Pasolini, Fellini, Antonioni, de Sica, um pouco adiante Bertolucci, e tantos outros gigantes do cinema da península que trabalharam desde o pós-guerra até o começo dos anos 80.


Grande Prêmio Especial do Juri do Festival Internacional de Cinema de Veneza, dois anos atrás, Terra Firme só agora vem para as telas daqui. É exibido pegando carona nos tenebrosos naufrágios recentes, quando mais de 400 africanos desesperados se afogaram e morreram, no Mediterrâneo, em plena estação turística de verão. Tentavam atingir as portas europeias de Malta e de Lampedusa.


O tema de Terra Firme não vem de hoje. O belo filme Le Havre, do finlandês Aki Kaurismaki, mostra o lado norte da história das migrações. Há anos o êxodo e os naufrágios vêm ocorrendo.


Hoje não são mais lei os amigáveis acordos de rígida vigilância de fronteiras assinados por governos europeus e ditaduras africanas. No entanto, os movimentos que ensaiam alcançar a liberdade de escolha, no norte da África, e a recessão da economia europeia tornam os novos grandes deslocamentos das populações martirizadas pela miséria, pelo desemprego e pela falta de perspectivas cada vez mais dramáticos e crescentes.


Terraferma narra uma dessas histórias. Com este filme Crialese fecha a sua trilogia sobre o tema das migrações (os outros são os aplaudidos Respiro e Nuovo Mondo, produzidos de 2006 para cá) e discute a lei italiana vigente que proíbe resgatar do mar esses náufragos, passageiros de precários barcos superlotados carregando adultos, idosos, crianças – e mulheres grávidas. Mostra também o lento desaparecimento das pequenas colônias de pescadores - fenômeno planetário, que ocorre inclusive na extensa costa do Brasil - e a decadência dos vilarejos de beira  mar tomados de assalto pela indústria do turismo vulgar, de massa, predatório - e também pela poluição. “É possível um morador daqui não ter o que comer, com este mar tão grande?” diz outro pescador, na reunião do filme de Crialese. Para o diretor, duas imagens se equivalem; são metáforas perfeitas: barcos repletos de turistas que, ao som do ritmo da salsa tocada nos alto falantes, se jogam ao mar para brincar e nadar e, o reverso - barcos improvisados por traficantes de pessoas, que naufragam superlotados de imigrantes, com os desafortunados passageiros se jogando nas águas para acabarem afogados.


Crialese criou três gerações para fundamentar a estrutura da sua trama: o avô pescador que se recusa a render-se ao turismo,  símbolo de um mundo que acabou; o filho adulto, pragmático, que deixou a pesca para ganhar dinheiro com os visitantes de ocasião; e o neto, o jovem perplexo entre viver os valores de um ou adotar os do outro.


Pode-se ver o filme com outra estrutura ainda: o núcleo da família de pescadores e nele o personagem feminino (Timnit Stats, do Chifre da África) como o mais inquietante; o segundo grupo, o dos turistas que chegam à ilha e não devem ser incomodados com o drama da dramática imigração; e o terceiro, os que chegam da África.


Filippo Pucielo é o ator amador que faz o jovem. Ele e vários outros amadores trabalham no filme e se misturam aos profissionais, como ocorria com frequencia no cinema do neorrealismo. 


Alguns críticos não se entusiasmam com Terra Firme. Segundo eles, seria esquemático e sem a qualidade cinematográfica dos anteriores de Crialese, com tema idêntico. Porém, imagens de extrema violência e impacto mostram o pescador jovem atacando, com os remos, mãos e braços de africanos tentando sobreviver na água e se agarrando nas bordas do seu barco. Todos morrem afogados. E depois, a culpa do rapaz.


E há as belas imagens do começo e, especialmente, do final aberto da história, uma interrogação sobre o destino dos imigrantes em busca da salvação na Europa – que se nega a eles.


São críticas de superfície. Não atentam porque não querem atentar ou não devem sublinhar o fundo e o conteúdo político do argumento do filme de Crialese, diríamos um neomarxista que homenageia um compatriota, marxista histórico, Lucchino Visconti, autor do clássico La Terra Trema (filmado exclusivamente com pescadores sicilianos) com o título do seu filme de agora. 


“Vão dizer que faço retórica”, comentou Emanuele ao lançar Terraferma. “Na verdade, hoje, na União Europeia, há um medo generalizado do outro”. Confirma o que vemos, a cada dia, nos noticiários vindos do velho continente: a extrema direita avança e no seu bojo a xenofobia e o racismo. 


Grandes deslocamentos de populações é um dos temas mais sombrios do século. E não é que não diga respeito ao Brasil. Começamos já a receber levas de imigrantes sul-americanos (vez ou outra são descobertos, clandestinos, em trabalho escravo, em São Paulo) e, há dois meses, a ONG Conectas Direitos Humanos localizou mais de 800 haitianos em “condições desumanas” abrigados em campo de refugiados na cidade de Brasileia, fronteira da Bolívia com o Acre. Pessoas que aguardam um “visto humanitário” que não chega. Comentário do porta-voz do exército, contrariando o Itamaraty e o Ministério do Trabalho: “Não acho que seja um visto assim tão humanitário”.


O coronel precisa assistir a Terra Firme para entender o significado da palavra “humanitário”. Aproveitar para refletir na observação de outro pescador siciliano idoso, no filme: ”meu pai me ensinou que não se pode deixar um homem ao mar sem ajudar. Hoje, ensina-se o contrário.”


Aguardemos. Ainda vem aí o anunciado Mare Nostrum. Uma operação ainda mais radical de não ajuda aos imigrantes africanos no Mediterrâneo. Com drones, helicópteros e maior número de barcos policiais.

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