Arte

Thiago Mendonça: "o cinema brasileiro é marcado por um histórico de reconciliação"

Segundo Thiago, isso se deu muito em razão da criação da Embrafilme, empresa estatal a qual visava fomentar as produções do Cinema Novo.

31/03/2014 00:00

"Ao invés de filmes que proponham uma ruptura não só estética como política, como se vê nos outros países da América do Sul, a cultura cinematográfica brasileira é reconciliadora muito em razão da contradição inerente à criação da Embrafilme, empresa estatal a qual visava fomentar as produções do Cinema Novo." É a opinião de Thiago Mendonça, membro do Cordão da Mentira e do Coletivo Zagaia, que participou do debate "Cinema e Transição" na última quinta-feira (27).
 
A mesa deu sequência ao ciclo de debates Legados da ditadura que moldaram o Brasil contemporâneo e também foi composta por Rubens Rewald e Rossana Foglia, autores do filme Corpo, e Rubens Machado, crítico de cinema e professor do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da ECA-USP.
 
Em Corpo (2007), o cotidiano do médico legista Artur é abalado com a chegada ao Instituto Médico Legal (IML) de um conjunto de ossadas, que acredita-se serem de desaparecidos políticos durante a ditadura militar. No entanto, junto desses ossos é encontrado o corpo de uma mulher, supostamente assassinada há poucos dias. Artur, porém, acredita que se trata também de uma vítima da ditadura que teve seu corpo conservado. A partir daí, sai em uma busca desenfreada, que envolve até pesquisa nos arquivos do DOPS, não só para comprovar sua tese, mas também para dar um fim digno a uma vítima do governo repressor.
 
Rubens Rewald, também professor do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da ECA-USP, apontou que o filme trabalha com lembranças difusas a fim de expressar uma sensação de incompletude. O protagonista Artur trabalha com resquícios de informação em busca de seu acerto de contas. Rewald e Rossana são críticos da reconstituição histórica (como vista em filmes como O que é isso, companheiro? e Batismo de Sangue): "No cinema contemporâneo, não há nada mais mentiroso do que essa tentativa de reconstrução fiel do período", afirmou o professor. O casal de diretores acredita que a melhor forma de falar da época da ditadura é a partir do hoje e dessa sensação de incompletude e vazio tão presente, a qual torna necessária a rememoração e abertura dos arquivos.
 
Encerrando o debate, Rubens Machado focou nas diferentes reações que o cinema brasileiro apresentou em relação à ditadura. De forma simplificada, é possível separá-las em três momentos: entre 1964-68, pós AI-5 e pós-redemocratização. Quanto ao cinema contemporâneo, o professor apontou que sua maior dificuldade está em relacionar o que se passa hoje com o que ocorreu na época da ditadura, em problematizar de uma forma mais dialética presente e passado. "O Cinema brasileiro atual tenta encaixar, guardar de uma forma isolada, um determinado período da ditadura, sem propor um diálogo com o atual momento", afirma Rubens.
 
Como contraponto, o professor deu como exemplo dois filmes lançados no calor da hora do golpe. Em O Desafio, lançado em 1965, o diretor Paulo César Saraceni conseguiu transmitir a paralisia causada pelo golpe naquele exato momento. Já em Terra em Transe, Glauber Rocha apresentou um personagem que carregava em si o conflito entre conservadorismo e engajamento. Assim, o cinema dos primeiros anos da ditadura faz da autocrítica seu ponto de partida, com uma visão bastante cética quanto às perspectivas futuras.



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