Arte

Verdade 12.528: Para ser virada, uma página deve ser lida

Dirigido por Paula Sacchetta e Peu Robles, filme registra a importância da Comissão da Verdade e nota resquícios ditatoriais na corrente atuação do Estado

23/10/2013 00:00

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Créditos da foto: Divulgação


O documentário Verdade 12.528, cujo nome se relaciona à lei que criou a Comissão Nacional da Verdade em 2011 e a instituiu em maio de 2012, quer dar a sua contribuição no sentido de aprofundar o debate sobre os crimes praticados pelo Estado brasileiro no período do regime militar, que vai de abril de 1964 até março de 1985. Dirigido por Paula Sacchetta e Peu Robles, o filme integra a 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
 
“Se a comissão jogar luz sobre a cadeia de comando instituída pela ditadura militar para afastar o povo da política, terá cumprido o seu papel”, diz Franklin Martins, jornalista, ex-ministro do Governo Lula e membro do grupo que sequestrou o embaixador Charles Elbrick, obrigando os militares a libertarem 15 presos políticos, em entrevista para o documentário.
 
Martins afirma ainda que mais de 30 anos se passaram e nós temos os filhos e os órfãos do talvez e do quem sabe, as viúvas do talvez e do quem sabe. Ou seja, para ele, nós somos o país do talvez e do quem sabe diante dos mais graves crimes cometidos na história do Brasil.
 
“Muito se fala que nós temos que virar essa página, eu acho que tem que virar a página, mas para virar a página é preciso se ler a página. Nós precisamos ler a página dos crimes cometidos pela ditadura para virar essa página  e sermos uma democracia mais fecunda, mais profunda, mais intensa”, diz o jornalista.
 
Os diretores entrevistam ex-guerrilheiros, militantes políticos, filhos e esposas de desaparecidos, camponeses que presenciaram a ação dos militares na guerrilha do Araguaia – região entre os estados do Pará, Maranhão e Tocantins –, juristas e membros da Comissão da Verdade. Torturados e familiares de desaparecidos descrevem com emoção como foram presos e violados física e psicologicamente.
 
“A pior tortura foi ver meus dois filhos menores entrando na sala quando eu estava na cadeira do dragão - assento onde se conectavam fios elétricos aos órgão genitais, seios, língua, orelhas e dedos -  nua”, diz Maria Amélia de Almeida Teles, a Amelinha, ex-militante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), que era professora de Educação Artística quando foi presa em 28 de dezembro de 1972, em São Paulo.
 
Segundo Robles, a idéia do documentário nasceu após ele e Paula perceberem que há um grande desconhecimento em relação ao período da ditadura militar no Brasil.  “Inicialmente queríamos fazer um filme de 5 minutos para a internet, para informar os jovens sobre os fatos que marcaram aquele momento histórico, mas nos deparamos com um material riquíssimo e optamos por um filme maior”, diz.
 
Entrevistado pelo diretores do filme, o escritor e jornalista Bernardo Kucinski, que teve sua irmã, Ana Rosa Kucinski, sequestrada e desaparecida em 1974, diz que uma das maiores contribuições para se resgatar a memória dessa época seria a transmissão ao vivo e em rede nacional de televisão de todos os depoimentos dados à Comissão da Verdade, principalmente dos torturadores e de seus comandados. “Por que manter isso em sigilo?”, pergunta Kucinski  
 
A Comissão Nacional da Verdade tem por finalidade apurar as violações de direitos humanos praticados por agentes públicos, ocorridas entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988. Em maio de 2014 o comitê deve entregar um relatório oficial.
 
Verdade 12.528 também tem o mérito de estabelecer uma ponte com o presente e mostrar a ação truculenta da policia nos dias de hoje. Como resquícios daquele período, a polícia bate, tortura, mata e some com corpos, o que leva a crer que a violência é parte da cultura generalizada dos órgãos de segurança do Brasil.



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