Carta Maior 20 anos

Carta Maior 2001: uma odisseia na web

 

18/03/2021 14:23

(Arte/Carta Maior)

Créditos da foto: (Arte/Carta Maior)

 
O ano de 2001 começa com as esperanças em alta: pelas mãos e mentes de mais de 20 mil pessoas, de 117 países, realiza-se, em Porto Alegre, em janeiro, o I Fórum Social Mundial. Na escala mundial, as preocupações, igualmente nas alturas, buscavam freios para a globalização e o conjunto de políticas neoliberais que avançavam e, localmente, para o governo Fernando Henrique Cardoso que entrava em seu sétimo ano. Nesse embate nasce a Carta Maior.

E logo de saída deixa claro a que veio. Entrevista Boaventura Sousa Santos, João Ubaldo Ribeiro, Gilmar Mauro, Luiz Pinguelli Rosa e Tarso Genro. Denuncia ofensivas aos direitos dos que trabalham e dos que habitam, há séculos, a região de Alcântara. Posiciona o “apagão” na conta do austericídio neoliberal. Explicita a relação histórica de Bin Laden com os EUA e as origens do antraz. Saúda e divulga o I Fórum Mundial da Educação e suas conclusões, assim como a preparação para o II Fórum Social Mundial em 2002.

Definitivamente os historiadores terão alternativa ao discurso conservador hegemônico da imprensa corporativa quando se debruçaram sobre o século 21: os registros, na Carta Maior, dos hábeis jornalistas Marco Aurélio Weissheimer, Marcel Gomes, Leonardo Sakamoto, Antonio Martins, Maurício Hashizume, Bernardo Kucinski, entre tantos outros que construíram dia a dia a Carta Maior.

Trechos e links de 12 matérias e artigos publicados em 2001 compõem essa retrospectiva do ano 1 da Carta Maior.

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(Antonio Cruz/Agência Brasil)1 Por um socialismo radicalmente democrático
Por Marco Aurélio Weissheimer

Carta Maior: O sr. vem defendendo uma radicalização no processo do Orçamento Participativo. Como se daria esta radicalização?

Tarso Genro: Depois de 12 anos de governo estamos, na verdade, perante um novo tipo de disputa. Ela é mais complexa e só será resolvida de forma adequada se voltarmos "às raízes da utopia" e conseguirmos dotar nossas ações de governo de um novo tipo de radicalismo. Mais compatível com uma sociedade que é, ao mesmo tempo, mais exigente pelo que já conseguiu com os nossos governos e, de outro, mais inorgânica, desarticulada e fragmentada, pelo que a vitória do neoliberalismo, em escala nacional, conseguiu contra nós.

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Fernando Henrique Cardoso e Pedro Malan (Associated Press)2 Foi Pedro Malan quem puxou o fio da tomada
Por Marcel Gomes

Em 1995, o físico Luiz Pinguelli Rosa entregou um relatório ao vice-presidente da república, Marco Maciel, alertando que o modelo de privatização das estatais elétricas poderia resultar em desabastecimento de energia no futuro, pois não previa investimentos na expansão do setor. Mais do que isso, o vice-diretor da Coordenação de Programas de Pós-Graduação em Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) demonstrava o seu descontentamento com a estratégia neoliberal de transformar energia em mercadoria de consumo. Seis anos depois, deu no que deu. O país vive a pior crise energética de sua história e o governo dá diariamente sinais de que não sabe o que fazer.

Carta Maior - O presidente Fernando Henrique sugeriu que a culpa pela crise cabe ao PFL, porque seria ele o controlador do sistema elétrico dentro da partilha de poder que foi feita. De quem é a culpa afinal?

Pinguelli Rosa - Foi de Pedro Malan. Se há uma responsabilização criminal, tem de cair sobre ele, por que o Malan sabe tudo e controla tudo. Mas é verdade também que ele é um intermediário. O caos veio de fato de fora pra dentro do país. Essa dívida enorme do governo mais essa idéia de atrair investidores tiraram do Brasil a possibilidade de ter um rumo próprio. A falta de investimento está prevista no acordo com o FMI, para obter o ajuste fiscal, o superávit primário. A Aneel, o ministério, Eletrobrás, esses pecaram por obediência, por omissão, por lealdade.

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Boaventura de Sousa Santos (Bruno Gonçalves)3 A grande alternativa política
Por Marcel Gomes

Rio de Janeiro - O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos é um intelectual militante. Daqueles que enchem platéias de universidades pelo mundo e são requisitados para entrevistas de página inteira em jornais de grande circulação. Não foi diferente quando esteve no Rio de Janeiro, em meados de maio, para receber um Prêmio Jabuti pelo livro “A crítica da razão indolente”, na categoria Ciências Humanas e Educação. Atendendo ao convite de seu colega Emir Sader, Boaventura proferiu palestra na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e viu mais uma vez um auditório disputado até os corredores por estudantes e docentes dos mais variados cursos.

“A esquerda está em crise. Na Europa, o modelo soviético foi destruído e o socialismo democrático descaracterizou-se, possibilitando o avanço das reformas neoliberais. (Tony) Blair (na Inglaterra) e (Gerald) Schroeder (na Alemanha) utilizam políticas que são próprias da direita, entre eles não há uma estratégia alternativa. Como os partidos de esquerda não apresentam nada diferente e apenas cumprem a agenda de reformas neoliberais, a população acaba preferindo aqueles que possuem diretamente o capital, como o (Silvio) Berlusconi (na Itália). O que há de mais forte hoje, portanto, é a atuação dos movimentos sociais, que muitas vezes nem se designam como esquerdas, mas estão em diversas partes do mundo tentando desenvolver lógicas que não a neoliberal, muitas vezes de resistência. As pessoas ficam com fome, sem trabalho, sem moradia por causa da globalização neoliberal, e resistem a ela. É uma energia que não tem uma formulação política no nível de partido, mas no de manifesto”.

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(Reprodução/bit.ly/36JaAVd)4 Vem aí o I Fórum Mundial de Educação
Por Redação Carta Maior

De 24 a 27 de outubro, Porto Alegre sediará o “I Fórum Mundial de Educação”. Teóricos, pesquisadores, estudantes, representantes de entidades de classe, universidades, escolas, governos e organizações não governamentais de todo o mundo, discutirão em vários pontos da cidade “a educação no mundo globalizado”.

A organização do evento, que envolve até este momento mais de 50 entidades, prevê a presença de 15 mil pessoas de todos os continentes e objetiva reunir experiências político-pedagógicas, priorizando as experiências de inclusão e práticas bem sucedidas, especialmente na América Latina, Ásia e África.

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(AEB)5 Acordo espacial desaloja comunidades centenárias
Por Leonardo Sakamoto

Alcântara, MA – “Sou do mato, fui criado como tatu. Mas fiquei sabendo de um tal grito da independência. Por isso, gostaria de saber se o presidente Fernando Henrique não está vendo que a gente está voltando a ser colônia?”, indaga Manuelão, do alto de seus 70 anos, morador do povoado de Santa Maria.

Ele é um dos que serão expulsos de suas terras para a ampliação do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no litoral do Estado do Maranhão. No total, está programada a remoção de 502 famílias – comunidades centenárias, em sua maioria remanescentes de quilombos e descendentes de índios tapuias. Os moradores prometem que vão resistir à desocupação, pois não concordam e não acreditam nas compensações prometidas pelo governo federal.           

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(Getty Images)6 A historia proibida da aliança entre Bin Laden e Washington
Por Antonio Martins

“Procura-se inimigo para um orçamento de 344 bilhões de dólares”. Há alguns dias, ao comentar as despesas militares inéditas propostas pela Casa Branca ao Congresso dos Estados Unidos – inclusive para o programa de militarização do espaço –, a revista norte-americana Z-Net usou a frase acima para comentar a desproporção entre os gastos e a ausência de ameaças que as justificassem. A julgar pelas notícias das últimas horas, os EUA já encontraram o inimigo. O escolhido é milionário o saudita Osama bin Laden, refugiado há anos no Afeganistão dirigido pelos talebãs.

Jamais será possível combatê-lo, ou evitar novas carnificinas como a de terça-feira, com o novo programa “Guerra nas Estrelas”, mas isso não importa. Humilhada pelos ataques, Washington precisa mostrar ao mundo – e em especial aos mercados financeiros – que não perdeu capacidade de iniciativa nem disposição para levar adiante seus projetos. A mídia oficial evitará que transpareça o desencontro entre os riscos reais representados pelo terror e o que será feito a pretexto de combatê-lo.

Sintomaticamente, os jornais comerciais já começaram a esquecer uma história cuja importância para a própria segurança norte-americana é crucial, a ser verdadeira a hipótese de culpa de Bin Laden. Trata-se da aliança que Washington manteve ao longo de anos com seu atual “inimigo número 1”, e que foi indispensável para dar-lhe tanto a capacidade de articulação de que desfruta hoje quanto a aura de suposto “vingador” de mundo árabe.

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7 Carta de Porto Alegre defende educação pública para todos
Por Marcel Gomes

Depois de quatro dias de intensos e numerosos debates, terminou no sábado (27) o I Fórum Mundial de Educação, evento que mobilizou Porto Alegre neste mês de outubro. Representantes de diversos países estiveram presentes no ginásio Gigantinho, onde acompanharam pela manhã a última discussão do encontro, com o tema “Educação, Transformação e Utopias”. Em seguida, foi aprovada por aclamação uma versão provisória da “Carta de Porto Alegre pela Educação Pública para Todos”.

(…)

“A escola pública, nesse processo, transforma-se e se revivifica como espaço/tempo de possibilidades de encontros de homens e mulheres de todas as idades, com trajetórias até aqui apenas entrevistas. Assim, ao contrário da afirmação das forças do capital ao insistirem que a escola pública já está superada, reafirmamos sua potência e permanente movimento na reinvenção do cotidiano de nossas sociedades e na sua própria transformação como resultado do protagonismo dos excluídos.” (trecho da Carta)

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(Reprodução/bit.ly/3lAzaxR)8 João Ubaldo Ribeiro compara contexto mundial com luta de Mike Tyson
Por Maurício Hashizume

Espontâneo, bem-humorado, cativante e pessimista. É o baiano João Ubaldo Ribeiro, membro da Academia Brasileira de Letras, marcando a sua presença na 47a Feira do Livro de Porto Alegre. “Tenho dó dos meus filhos. Minha filha de 18 anos abre o jornal todos os dias e fica estarrecida com as notícias. E a culpa é nossa, da minha geração. Esse foi o nosso legado, foi esse o futuro, sem expectativas, que nós demos a eles.”

“Estamos vivendo um momento histórico tão significativo e importante quanto a queda de Constantinopla. Os EUA são o Mike Tyson, em plena forma, lutando contra um mosquito da dengue (os terroristas). Poderosíssimo, os EUA ficam tentando matar o mosquito e acabam dando socos em si mesmos. Os mosquitos picam a bunda deles e transmitem a doença. A situação é essa”, disse Ubaldo, com toda sua maneira particular de enxergar as coisas.

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Em outubro de 2001, cinco pessoas morreram nos EUA, vítimas do uso criminoso de antraz (Reprodução/bit.ly/3bVdV6K)9 Antraz pode ter vazado de pesquisas militares dos próprios EUA, diz cientista
Por Bernardo Kucinski

Todos os jornais têm reservado manchetes para o bioterrorismo, mas nenhum se lembra de investigar porque os Estados Unidos rejeitaram o protocolo de verificação de armas biológicas, que estava para ser assinado em Genebra em agosto passado, e a eventual relação dessa recusa com o bioterrorismo.

Uma reportagem do Wall Street Journal, reproduzida no Estadão nesta segunda-feira, historia os programas de armas biológicas do Iraque e de países comunistas, mas omite os programas americanos.

JB, Folha e Estadão reproduzem o relato da jornalista do New York Times, Judith Miller, sobre o momento em que ela abriu o primeiro envelope com o antraz, mas omitem o livro que a própria Judith Miller acaba de publicar revelando programas secretos norte-americano com armas biológicas, chamado: “Germs, biological weapons and America’s Secret War”.

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10 No Senegal, mulçumanos e americanos discutem juntos Fórum Social de 2002
Por Antonio Martins

DAKAR, Senegal – Mais de 50 movimentos sociais e organizações ligadas à luta pela transformação social em todo o mundo abriram na segunda-feira (29), em Dakar, a segunda reunião do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial (FSM). É o penúltimo encontro do grupo antes do próximo FSM, que ocorrerá novamente em Porto Alegre, entre 31 de janeiro e 5 de fevereiro de 2002. Como se previa, o evento esta sendo marcado pelo debate sobre os atentados de 11 de setembro e a guerra de revide desencadeada pelos Estados Unidos na sequência. No primeiro dia, esboçou-se uma unidade notável entre os pressentes. A ampla maioria das intervenções concentrou-se no esforço de rearticular a resistência global ao neoliberalismo e lutar por alternativas, na conjuntura difícil que surgiu após o início da guerra. A partir de hoje, a reunião deverá discutir em detalhes a "arquitetura" do FSM 2002. Estão previstas mudanças importantes em relação ao encontro do próximo ano.

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(Reprodução/bit.ly/3qZFoIK)11 FHC lança nova ofensiva contra direitos trabalhistas
Por Marco Aurélio Weissheimer

Ao apagar das luzes de sua segunda gestão na presidência da República, Fernando Henrique Cardoso lança uma nova ofensiva para flexibilizar ainda mais os direitos trabalhistas. Seu braço-direito nessa campanha é o ministro do Trabalho, Francisco Dornelles, sempre preocupado em “modernizar” as relações entre capital e trabalho. “Modernizar”, para FHC e Dornelles, significa, como todos sabem, deixar os trabalhadores aos cuidados das “forças do mercado”.

A proposta do governo federal que está na pauta da Comissão de Trabalho da Câmara dos Deputados (Projeto de Lei n° 5.483/01) permite que, nas negociações entre patrões e empregados, o acordo prevaleça sobre a lei. Isso pode acabar com direitos trabalhistas históricos como férias, 13°, Fundo de Garantia, adicional de periculosidade, hora-extra, adicional de insalubridade, não redução dos salários e outras conquistas. Essa é a “modernidade” que aguarda os trabalhadores brasileiros, caso o projeto em questão seja aprovado no Congresso Nacional.

A Central Única dos Trabalhadores (CUT) está desencadeando uma campanha nacional para tentar barrar essa nova investida flexibilizadora. Em artigo publicado na Folha de São Paulo (13.11.2001), o presidente da CUT, João Felício, observa que as únicas propostas do ministro Francisco Dornelles, em sua gestão no Ministério do Trabalho, se resumem a flexibilizar as relações trabalhistas e a deixar os trabalhadores por conta das forças do mercado.

(…)

As 3.000 cartas de demissão enviadas aos trabalhadores da Volkswagen em São Bernardo do Campo constituem um bom exemplo de que como as “forças do mercado” tratam os trabalhadores quando os interesses do capital estão em jogo. A modernização pretendida por FHC e Dornelles é aquela que permite a adoção destas medidas de ajuste sem maiores complicações trabalhistas.

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12 "Vamos construir o MST nos centros urbanos", anuncia o líder Gilmar Mauro
Por Redação Carta Maior

Um dos principais líderes do MST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra), em entrevista exclusiva para a Carta Maior, revela: “Vamos construir o MST nos centros urbanos”.

A ideia do Movimento é organizar núcleos urbanos, novos tipos de assentamento e novas formas de luta. “Economicamente, os assentamentos próximos aos grandes centros, com a utilização de mais tecnologia e investimento em plantações orgânicas, são mais viáveis. Do ponto de vista social, eles ajudariam a resolver o problema do desemprego, da pobreza e da miséria”, esclarece Mauro, que entrou contrariado por seus pais para o MST com apenas 18 anos, em 1985.

Um dos 24 membros da direção nacional do MST, ele tem apenas o 1º grau completo. “O MST foi a minha grande escola”. Para ele, “o movimento já entrou para a história do país, mas nós queremos mais: uma transformação social que faça a massa popular ser sujeito na história”.



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