Carta Maior 20 anos

Carta Maior 2002: início e final felizes, duras lutas entre os dois

 

25/03/2021 14:26

(Arte/Carta Maior)

Créditos da foto: (Arte/Carta Maior)

 
Quem olha para o início de 2002, os preparativos e as atividades do II Fórum Social Mundial (FSM), ou para o final do ano, eleição de Lula e início do plano de combate à fome, não tem ideia dos embates ocorridos entre um momento e outro.

A busca por uma vida digna e as marchas e os manifestos pela paz, no FSM, logo deram lugar aos fantasmas da Aliança de Livre Comércio das Américas (ALCA), ao golpe na Venezuela e à submissão ao FMI. A criação do Tribunal Penal Internacional e a exposição de inúmeros focos de trabalho escravo no país deram esperança de um mundo com mais justiça.

Junho, entretanto, já marca o início da campanha eleitoral e toda a pressão para atar as mãos do futuro presidente: Lula é emparedado e assina a carta compromisso. Simultaneamente reúne as melhores cabeças dos movimentos progressistas para elaboração de detalhado programa de governo.

A esperança termina por vencer o medo, nas palavras de Lula, que rapidamente hasteia a bandeira do combate à fome. 2002 se encerra com as esperanças em alta de dias mais felizes para o povo brasileiro.

Os trechos dos textos selecionados abaixo, que exemplificam a jornada da Carta Maior em 2002, retratam esses altos e baixos e altos novamente que vivenciamos. Os autores selecionados para essa retrospectiva de 2002 são Adélia Chagas, Bernardo Kucinski, Camila Agustini, Emir Sader, Gilberto Maringoni, José Luís Fiori, Marcel Gomes, Marco Aurélio Weissheimer, Maurício Hashizume, Mauro Santayana, Mylena Fiori e Samuel Pinheiro Guimarães.

Trechos e links de 13 matérias e artigos publicados em 2002 compõem essa retrospectiva do ano 2 da Carta Maior.

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(Reprodução/Gazeta do Povo)1 Para Lula, paz em Porto Alegre causará inveja a Nova York
Por Adélia Chagas - 31/01/2002

O presidente de honra do PT e possível candidato à presidência pelo partido Luis Inácio Lula da Silva comparou hoje (31/01) o II Fórum Social Mundial ao Fórum Econômico Mundial, que começa em Nova York hoje, em vez de Davos, por causa do atentado de 11 de setembro.

(...)

Ao se referir a Porto Alegre, disse que o Fórum, ao contrário do encontro econômico, tem a participação mais plural possível sem a distinção ideológica e de classe. “Nós nos encontramos com objetivo de discutir uma saída para que a sociedade possa viver dignamente.”

Lula disse ainda que o fórum em Porto Alegre, este ano, vai ter uma importância muito grande para paz. “A demonstração que vai dar pela paz vai causar inveja a Davos. Eles sabem que a insegurança é por causa do mundo que eles dirigem.”

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(Ayrton Centeno/Sul21)2 Marcha e panelaço marcam início do II Fórum Social Mundial
Por Camila Agustini, Gilberto Maringoni, Marcel Gomes - 31/01/2002

Porto Alegre - A chuva fina que caía desde o período da manhã começou a parar por volta das 16 horas e o céu foi se abrindo aos poucos. Foi a deixa para uma multidão que chegou a 50 mil pessoas, de acordo com os organizadores, e 25 mil, segundo a polícia gaúcha, desse início à passeata inaugural do II Fórum Social Mundial, ontem, último dia de janeiro. O trajeto de quase cinco quilômetros – do Mercado Público Municipal até o Anfiteatro do Pôr-do-Sol, passando pela rua Borges de Medeiros – foi coberto em pouco mais de três horas.

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(Reprodução/bit.ly/3std5nK)3 Prêmios Nobel da Paz fazem manifesto contra guerra no II FSM
Por Maurício Hashizume - 04/02/2002

Um organismo internacional com poderes para mediar conflitos, a eliminação da indústria de armamentos, a anulação das dívidas externas ilegítimas e a extinção dos paraísos fiscais foram as propostas do manifesto final do Seminário “Um mundo sem guerras é possível”, apresentado na noite deste domingo (03/02), durante o II Fórum Social Mundial. Além do governador Olívio Dutra, o painel de encerramento contou com a presença de ganhadores do Prêmio Nobel da Paz: o argentino Adolfo Pérez Esquivel (1980), a guatemalteca Rigoberta Menchú Tum (1992) e Morten Rostrup, presidente do Comitê Internacional Médicos Sem Fronteiras, entidade premiada em 1990.

O manifesto será entregue á ONU e aos líderes de regiões que vivem em conflito e foram temas de debates no seminário: País Basco, Chiapas, Palestina e Colômbia.

Cada um dos debatedores expôs o que considera essencial para o fim dos conflitos armados pelo mundo. Pérez Esquivel disse ser essencial mais “paz no coração” das pessoas, Rigoberta exigiu a criação de uma agenda de mobilizações e Rostrup incentivou a população a esclarecer cada vez mais a realidade e pressionar os líderes mundiais –chamados por ele de “decision-makers”.

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A campanha contra a Área de Livre Comércio das Américas mobilizou movimentos sociais e partidos de esquerda em todo o continente, que se concentraram em Mar del Plata (Clacso)4 Alca será igual ao Nafta, exceto se mudança favorecer EUA
Por Samuel Pinheiro Guimarães - 11/03/2002

Um dos argumentos oblíquos agora utilizados enfatiza que não se pode ser contra a Alca porque não se pode saber hoje como será a sua forma final e, portanto, os compromissos que o Brasil terá de assumir. Enfim, segundo esse argumento, o debate sobre a Alca seria prematuro e aqueles que tentam alertar a sociedade brasileira para suas extraordinárias consequências seriam açodados e preconceituosos.

A resposta a esse argumento é que a Alca (2005?) terá de ser muito semelhante ao Nafta (1994), acordo de livre comércio que engloba os Estados Unidos, o Canadá e o México, da mesma forma que o Nafta foi muito semelhante ao Afta (1988), acordo de livre comércio entre o Canadá e os Estados Unidos. Por outro lado, a Alca terá de ser compatível com o disposto no Artigo XXIV do GATT-94, acordo que faz parte da OMC e que estabelece as condições para o reconhecimento da Alca pela OMC e por seus membros, em especial a União Europeia e o Japão, cujo comércio e investimentos seriam fortemente atingidos nos mercados da América Latina pelas preferências concedidas pela Alca às megaempresas norte-americanas na região.

Uma área de livre comércio simples é um acordo internacional em que os Estados-parte eliminam, em um determinado prazo e de acordo com o cronograma negociado entre si, todos os obstáculos tarifários e não-tarifários ao comércio recíproco de todos os bens, enquanto mantém em relação aos demais Estados, que não fazem parte do acordo, as suas respectivas tarifas aduaneiras nacionais.

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(Reprodução/Mediapart.fr)5 Lula tem várias lições a aprender com a crise da Venezuela
Por Emir Sader - 22/04/2002

(…)

Chávez governou mais em base à alta do preço do petróleo e do seu desempenho pessoal, sustentado também na simpatia popular que despertou e que foi se consolidando com programas sociais. Porém, não alterou em nada as estruturas de poder na sociedade. Continuavam a reinar o monopólio privado nos meios de comunicação, nas grandes corporações industriais, comerciais e financeiras, assim como continuou a empresa estatal de petróleo – chave para um país que vive do petróleo – sob o controle da burocracia sindical da Ação Democrática.

O golpe militar foi produto da combinação entre uma greve na empresa petrolífera, a mobilização das classes médias e a direção política e ideológica da grande mídia privada. Sem mudar profundamente essas relações de poder, não haverá políticas para a grande maioria dos pobres da sociedade, bloqueados por esses mecanismos viciados de poder privado.

Pode-se tirar a conclusão que um governo pós-neoliberal deve ser ainda mais moderado do que Chávez. Seria um grande erro. Ele foi radical no estilo de discurso, pelo qual se conquistou desnecessariamente muito inimigos ao mesmo tempo. Mas foi moderado demais na transformação das estruturas de poder na sociedade e na transformação da consciência das pessoas.

A terceira conclusão, a mais importante, da experiência venezuelana para o Brasil – e para Lula em particular – é que sem organização popular, que os transforme em sujeitos ativos de ação, um governo antineoliberal vai ficar vulnerável à contraofensiva das elites. Que estas camadas são o seu grande apoio. Foram elas que fizeram uma semi-insurreição naquele sábado 13 de abril em Caracas, invadiram o Palácio, desalojaram os golpistas e reconduziram à Presidência um Chávez aparentemente conformado com a perda do governo.

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(Reprodução/Youtube)6 Teórico de Blair expõe como Brasil se rendeu ao imperialismo voluntário
Por José Luís Fiori - 21/05/2002

“O que se precisa hoje é de um novo tipo de imperialismo, que seja aceitável ao mundo dos direitos humanos e dos valores cosmopolitas, o imperialismo pós-moderno voluntário da economia global. No passado, os impérios impuseram suas leis e seus sistemas de governo. Hoje, trata-se de um movimento voluntário de auto-ajuda.” Robert Cooper , “O novo Império não ataca?", Carta Capital, 1º de maio de 2002

Uma incógnita ficou no ar, há muitos anos, quando Tony Blair comunicou em Washington, ao lado de Bill Clinton, no dia 5 de fevereiro de 1998, a criação da sua Terceira Via. O anúncio foi feito na mesma entrevista coletiva em que os dois tornaram publica a decisão de começar uma segunda guerra contra o Iraque (que acabou sendo transferida) e de aprovar um Acordo Multilateral de Investimento (o que ainda não ocorreu), para regular a soberania do capital financeiro internacional frente ao poder dos estados nacionais e dos seus sistemas jurídicos locais.

Na época, muitos consideraram este anúncio conjunto uma mera coincidência ou fruto da rapidez e teatralidade própria destes encontros presidenciais bilaterais. Quatro anos depois, o senhor Robert Cooper – conselheiro político internacional do primeiro-ministro Tony Blair – se encarregou de explicar em poucas palavras, num trabalho recém publicado em The Observer – e também no Brasil – a relação congênita entre a Terceira Via, a globalização financeira e o projeto de construção de “um novo tipo de imperialismo aceitável ao mundo dos direitos humanos e dos valores cosmopolitas”.

Sua publicação provocou enorme polêmica entre os trabalhistas ingleses, por causa de sua natureza normativa. Mas a verdade é que o artigo de Cooper não inventa nem propõe nada de novo, apenas racionaliza e justifica, do ponto de vista moral e estratégico, uma ordenação hierárquica e uma ação disciplinar do poder mundial que já existem e vêm sendo praticada há muito tempo, de forma explícita, e às vezes truculenta, por parte dos Estados Unidos e de seus principais aliados.

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Luiz Inácio Lula da Silva e José Alencar (Wikipedia)7 PT promove debate sobre programa de governo; Lula divulga carta de compromissos
Por Maurício Hashizume e Marcel Gomes – 24/06/2002

O PT (Partido dos Trabalhadores) conseguiu reunir intelectuais, sindicalistas, artistas, empresários, técnicos, estudantes, profissionais liberais, feministas, homossexuais, portadores de deficiência física, militantes do movimento negro e representantes da sociedade civil para debater temas do seu programa de governo com os políticos do partido. Cerca de mil pessoas estiveram presentes na conferência nacional sobre o programa, realizada no último sábado (22), em São Paulo.

Os participantes puderam expor suas ideias para contribuir com o programa de governo do partido em cinco mesas especiais de debate - nação, economia, inclusão social, infraestrutura e cultura.

“Temos que fazer cooperativas de pequenos produtores com linhas de créditos do Banco do Brasil mesmo. Se não asseguramos o interesse do povo, não há país nenhum”, bradava a economista Maria da Conceição Tavares no painel sobre nação. “Essas histórias de que fortalecimento do mercado interno não pode ser feito junto com incentivo à exportação, de que é preciso primeiro crescer a renda para depois distribuir e de que é preciso fazer uma escolha entre crescimento econômico e estabilidade são todas estapafúrdias”.

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 8 Mídia impõe pauta dos banqueiros à agenda nacional de debates
Por Bernardo Kucinski – 02/07/2002

A mídia não escuta a voz do povo

A edição desta semana da Veja é uma notável demonstração de como a pauta da mídia nacional, inclusive a da própria Veja, está descolada do interesse popular. Nas amarelinhas da revista, Marcos Coimbra diz e repete que a preocupação central do eleitor brasileiro, desde antes da reeleição de FHC, não é a estabilidade e sim o emprego, a educação, a saúde e a habitação.

“Uma agenda neoliberal não está na cabeça do eleitor... o que a população deseja é uma agenda que não se limite á obsessão em torno da estabilidade. Ao longo desses anos fizemos várias pesquisas de opinião em que se perguntou o que era mais desejável: baixíssima inflação com pouco emprego ou um pouco mais de inflação com uma queda na taxa de desemprego. Sempre foi esmagadora a maioria de pessoas favoráveis a alguma concessão no terreno da estabilidade para ter mais emprego e alcançar melhores salários”.

(...) e quer impor a agenda neoliberal

Na mesmíssima edição de Veja o que encontramos, logo depois das amarelinhas? Uma grande reportagem querendo impingir ao leitor e, pasmem, aos próprios candidatos à presidência, a agenda neoliberal. A mesma agenda que Marcos Coimbra diz que não interessa ao povo. Veja determina o que deve ser feito e diz textualmente, sem pudor: “(...) prosseguir na política de metas de inflação (...) pagar sem discutir as dívidas interna e externa; e sustentar a superávit nas contas públicas...”

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(UN Photo/Rick Bajornas)9 Corte penal universal nasce para julgar os ditadores do século XXI
Por Mylena Fiori – 17/07/2002

Stálin, Mussolini, Hitler, Mao Tsé-Tung, Jean Claude Duvalier, Idi Amin Dada, Fujimori, Stroessner, Somoza, Noriega, Pinochet, Ceausescu, Suharto, Milosevic, ditadores que tiranizaram seus povos, pairando acima da lei. Hoje, o destino destes monstros e dos carrascos militares do Brasil dos anos 70 seria o Tribunal Penal Internacional [TPI]. Idealizada em Roma, em 1998, a primeira corte universal permanente de caráter penal foi oficialmente inaugurada pela ONU no início deste mês, em um pequeno escritório nos arredores de Haia, na Holanda. Na mira do tribunal estão os responsáveis por crimes contra a humanidade, genocídio e crimes de guerra.

O TPI é resultado de um esforço conjunto de organizações internacionais, ONGs de defesa de Direitos Humanos e Estados. Formalmente, foi criado por meio de uma convenção multilateral, chamada Estatuto de Roma, celebrada na Conferência Diplomática de Plenipotenciários das Nações Unidas sobre o Estabelecimento de um Tribunal Penal Internacional. Como dependia da ratificação de pelo menos 60 nações para entrar em funcionamento, a corte demorou quatro anos para sair do papel. Em 1º de julho, finalmente virou realidade. Agora, apesar da forte oposição dos Estados Unidos, o tribunal prepara-se para a realização da primeira assembleia de seus 76 países-parte, de 2 a 10 de setembro, também em Nova Iorque. O bloco de adesões inclui a União Europeia em peso, o Canadá, a Austrália e grande parte da América Latina.

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(Reprodução)10 Empréstimo do FMI adia crise e ata mãos do futuro presidente
Por Mauro Santayana - 09/08/2002

O governo está festejando, como sempre festejou em ocasiões anteriores, o empréstimo que provavelmente será concedido pelo FMI (provavelmente porque depende ainda da aprovação de seus termos pela Diretoria Executiva da instituição), a fim de conter a crise cambial. Ocorre que a crise cambial, tal como a ocorrida em setembro de 1998, foi criada e estimulada pela aliança dos especuladores internos e externos com o próprio governo.

Diante da possibilidade, cada vez mais concreta, de perder as eleições para uma candidatura de esquerda, criaram-se os espantalhos, e os espantalhos ganharam vida. O governo não pode festejar o empréstimo como uma vitória – ele deve ser visto como a comprovação de sua derrota. Derrota técnica, com a elevação desmesurada da moeda norte-americana no mercado brasileiro, quando se encontra em queda nos mercados europeus e asiáticos. E derrota política, porque não conseguirá “faturar” o acordo para o seu candidato oficial (José Serra) nem para o seu candidato “in pectore” (Ciro Gomes) o acordo com o Fundo.

É preciso ver com cautela a operação. Em primeiro lugar, se trata de um simples emplastro, uma vez que a fragilidade da economia brasileira não se encontra nos gastos públicos, e, sim, no custo da administração da dívida, com os juros que estamos sendo obrigados a pagar. É elementar em ciência econômica, desde David Ricardo, que os juros não podem ser mais elevados do que os lucros: um país que vem mantendo, durante o governo Fernando Henrique, os vergonhosos índices de crescimento, não tem como pagar os juros que vem pagando. Em suma: estamos pagando mais do que crescemos.

Em segundo lugar, a ajuda do Fundo nos ajudará a ir mais para o fundo: qualquer que venha a ser o candidato eleito daqui a dois meses, ele estará submetido ao leito de Procusto: não poderá fazer mais nem menos do que determinam as cláusulas do contrato. Ou lhe espicham os braços, ou lhe cortam as pernas. Isso exige do eleitor a escolha de alguém que esteja disposto realmente a retomar o desenvolvimento econômico, com a ampliação do mercado interno. Será a única forma de sair do círculo infernal da dívida e da corrupção que a alimenta.

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(Ueslei Marcelino/Reuters)11 No final da campanha, Serra adota discurso de extrema-direita
Por Marco Aurélio Weissheimer – 21/10/2002

Na reta final da campanha presidencial, o candidato José Serra (PSDB) adotou em seu programa eleitoral um discurso ultra-conservador para tentar conquistar os votos dos evangélicos, católicos, e da população do interior e das pequenas cidades brasileiras. Em seu programa de sábado (dia 19), Serra mostrou o depoimento de padres e pastores que falaram sobre a importância da família e dos valores morais para combater o problema das drogas e de falta de perspectiva para os adolescentes. "É preciso dar um verdadeiro choque de valores morais na nossa sociedade", disse o candidato governista. Serra defendeu também que o governo deve dar o apoio para que valores como família e casamento voltem a ser respeitados, "como acontece hoje nas cidades do interior". E acrescentou: "cada pessoa tem que ser apoiada pela sua família e cada família tem que ser apoiada pelo seu governo".

Além de defender a necessidade de uma “cruzada moral”, Serra vem tentando associar a candidatura do Lula ao “eixo do mal” na América Latina, argumento formulado pela extrema-direita norte-americana e expresso em recente artigo publicado no Washington Times, jornal pertencente à seita do Reverendo Moon. O “eixo do mal” no continente seria formado por Fidel, em Cuba, Chavez, na Venezuela, as Farc, na Colômbia, e Lula, no Brasil. Nos últimos dias, o programa eleitoral de Serra vem batendo nesta tecla insistentemente. Acusou o governo do PT no Rio Grande do Sul de ter ligações com o grupo guerrilheiro colombiano e com o narcotráfico e afirmou que um eventual governo Lula jogaria o país no caos, assim como Hugo Chávez estaria fazendo na Venezuela.

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(Reprodução/Memorial da Democracia)12 A esperança venceu o medo, comemora Lula depois da vitória
Por Maurício Hashizume - 27/10/2002

Brasília - Passados pouco mais de dez minutos das 21h deste domingo (27), o Brasil conheceu o presidente da República que guiará o País nos próximos quatro anos, a partir de 2003. Quando o “placar eletrônico” do Centro de Divulgação do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) mostrou o petista Luiz Inácio Lula da Silva com cerca de 45,4 milhões de votos (61,5% dos votos válidos) - 84,32% das urnas apuradas em todo o Brasil - as chances do seu adversário José Serra (PSDB) se dissiparam. Naquele momento, cálculos matemáticos já carimbavam a credencial do ex-torneiro mecânico da oposição ao posto mais alto do poder público nacional.

À irrefutável decisão, seguiu-se o telefonema de Serra a Lula, reconhecendo a derrota e desejando boa sorte. E ao telefonema, a declaração ao público do derrotado tucano. “A voz soberana dos eleitores decidiu que o Brasil será governado pelo meu adversário”, declarou Serra, sem esquecer de alertar o vencedor petista sobre a necessidade de que as promessas de campanhas se cumpram.

Em São Paulo, Serra agradeceu aos mais de 30 milhões de brasileiros e elogiou o presidente Fernando Henrique Cardoso pelo seu comportamento durante toda campanha eleitoral. Ulisses Guimarães, Tancredo Neves, Franco Montoro e Mário Covas, além do governador eleito por São Paulo, Geraldo Alckmin, Rita Camata e José Aníbal mereceram citações de gratidão do tucano.

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Lula durante a campanha presidencial, em 2002 (Rodolfo Buhrer)13 Lula dá início ao pacto social e explica plano de combate à fome
Por Marcel Gomes – 07/11/2002

Em seu primeiro passo como presidente eleito para construir um “pacto social” no País, Luiz Inácio Lula da Silva reuniu-se nesta quinta-feira (7) em São Paulo com líderes empresariais e trabalhadores e justificou a opção pelo combate a fome como primeira grande iniciativa de seu governo. Na semana passada, Lula anunciou amplo apoio ao projeto Fome Zero, organizado por seu assessor Francisco Graziano, e disse que terminaria seu mandato satisfeito se todos os brasileiros pudessem comer três refeições por dia.

O encontro, que ocorreu no hotel Intercontinental, reuniu a cúpula petista com lideranças empresariais, sindicais e de ONGs. Estiveram presentes desde o presidente da CUT (Central Única dos Trabalhadores), João Felício, ao presidente da Fiesp (Federação das Indústrias de São Paulo), Horácio Lafer Piva, do presidente da Febraban (Federação Brasileira dos Bancos), Gabriel Jorge Ferreira, ao presidente da Contag (Confederação dos Trabalhadores na Agricultura), Manuel José dos Santos. Mais de cem convidados participaram da reunião. Todos se comprometeram a formar, logo que se inicie o futuro governo, o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.

A ideia de Lula, exposta durante a encontro, é que o Conselho seja um órgão consultivo e aproxime o presidente da sociedade. “Esse encontro é um exemplo importante para a América Latina porque mostra como a convivência democrática é possível na divergência. Todos foram convidados pelos que representam e não pelo partido que apoiam ou ao qual são filiados. No Brasil existe aquela história das leis que pegam e das que não pegam. Mas se uma lei passar antes por um debate representativo como este, a chance de ela ser aprovada e colocada em prática é muito maior”, disse o presidente eleito.



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