Carta Maior 20 anos

Carta Maior 2006: América Latina avança na integração soberana

O ano de 2006 foi marcado pela reeleição de dois dos maiores líderes progressistas da América Latina: Lula, em outubro, e Hugo Chávez, em dezembro. Leia outras matérias da Carta Maior do ano de

27/04/2021 13:09

 

 
O ano de 2006 foi marcado pela reeleição de dois dos maiores líderes progressistas da América Latina: Lula, em outubro, e Hugo Chávez, em dezembro. Os processos vitoriosos de nacionalização do gás e convocação de uma Assembleia Constituinte na Bolívia também apontaram para a integração soberana e fortalecimento da chamada "onda rosa" no continente. Além disso, 2006 deu continuidade ao fortalecimento do Sul Global enquanto polo político alternativo, com o encontro entre Brasil, Índia e África do Sul que fundou o IBAS, precursor do BRICS.

No campo dos direitos humanos, a Argentina avançou nas medidas de reparação e justiça com relação à ditadura militar do país, e não poupou esforços para levar a discussão às outras nações do Mercosul que também viveram a violenta repressão política dos regimes ditatoriais apoiados pelos Estados Unidos. No Brasil, o torturador Brilhante Ustra foi condenado pelos crimes que cometeu, mas foi infelizmente o único, até hoje, a receber uma sentença pelas atrocidades deste período em solo nacional.

Os meses que antecederam a reeleição de Lula foram marcados por uma intensa discussão sobre a política econômica do primeiro mandato, com os movimentos sociais e organizações de base exigindo que o governo rompesse com o mercado financeiro, avançasse com a reforma agrária e aprofundasse as políticas sociais voltadas à classe trabalhadora. Luiz Gonzaga Belluzzo e Maria da Conceição Tavares, dois dos principais economistas do campo da esquerda, publicaram em nosso portal um manifesto com doze pontos para um programa comprometido com o desenvolvimento econômico e social. Carta Maior promoveu debates ao longo do ano sobre o tema com alguns dos principais intelectuais e líderes políticos do Brasil.

Atenta aos principais temas da conjuntura geopolítica mundial, Carta Maior enviou Bernardo Kucinski ao Oriente Médio para cobrir com exclusividade o conflito entre Israel e o Hezbollah que se travou naquele ano. Uma vez mais, estivemos presentes no Fórum Social Mundial, que neste ano foi palco do histórico chamado do comandante Hugo Chávez por uma frente anti-imperialista mundial.

Como em outros anos, Carta Maior publicou entrevistas que apresentaram a seus leitores as perspectivas de figuras de relevância política, acadêmica e cultural, entre eles: Pedro Núñez Mosquera, embaixador de Cuba no Brasil, Patrus Ananias, Ministro do Desenvolvimento Social de Lula, Eric Hobsbawm, historiador marxista inglês e Augusto Boal, criador do Teatro do Oprimido e um dos maiores teatrólogos do mundo. O cineasta chileno Miguel Littín foi um dos ilustres colaboradores da nossa seção “Arqueólogos do Futuro”.

Os 19 artigos aqui destacados compõem nossa retrospectiva do sexto ano de intensas atividades de Carta Maior, e remetem a um período de lutas e avanços que podem inspirar este conturbado 2021 repleto de desafios para quem acredita que outro mundo é possível.

Aqui estão os links para os anos de 2001, 2002, 2003, 2004 e 2005.

Boa leitura!

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1 Chávez defende construção imediata de frente mundial anti-imperialista
Por Redação Carta Maior - 27/01/2006

Ato da luta anti-imperialista dos povos, atividade do FSM 2006. O principal convidado do ato é o presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Ao iniciar sua fala, o presidente venezuelano saudou as entidades organizadoras e participantes do Fórum Social Mundial. E fez um apelo: "Não deixemos para amanhã o que podemos fazer hoje", disse Chávez, referindo-se à construção do "outro mundo possível", lema do FSM.

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2 Observadores brasileiros analisam impacto da vitória do Hamas na Palestina
Por Rafael Sampaio - 03/02/2006

As eleições palestinas, encerradas em 25 de janeiro com a vitória surpreendente do Hamas (sigla para “Movimento Islâmico de Resistência”), foram acompanhadas de perto por uma missão de observadores brasileiros. A missão, composta por políticos e diplomatas, avaliou o grau de transparência do processo de votação. Mais de um milhão de palestinos – cerca de 74% da população – foram às urnas. “Considerando-se que a votação não é obrigatória, o número espanta”, afirma o deputado federal Nilson Mourão (PT-AC), que foi um dos observadores.

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3 Ato contra a guerra cobra retirada das tropas do Iraque e Haiti
Por Bia Barbosa - 20/03/2006

A luta contra a escalada militar é a luta contra o imperialismo e o neoliberalismo. Foi com essa afirmação que cerca de dois mil estudantes, representantes de partidos políticos e militantes de movimentos sociais marcharam pela Avenida Paulista neste sábado (18) para protestar contra os três anos de invasão do Iraque, completados nesta segunda-feira. Todos os anos, na mesma data, atos semelhantes acontecem em dezenas de países do mundo. O final de semana foi marcado por dois dias de Luta Global Contra a Guerra Imperialista, em Defesa do Povo Iraquiano e pela autodeterminação dos Povos. No Brasil, a relação entre a política militarista e imperialista norte-americana e a política capitalista, econômica neoliberal, tão presente no continente e mais próxima da realidade da população, vem sendo utilizada como estratégia de sensibilização pelo movimento antiguerra. A manifestação deste sábado, que saiu mesmo debaixo de chuva, teve paradas em frente ao Bank Boston e à Fiesp e terminou em frente ao Citibank.

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4 Oposição revela caráter golpista, revela Dilma Rousseff
Por Marco Aurélio Weissheimer - 19/04/2006

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou a quarta-feira no Rio Grande do Sul, inaugurando obras de energia em uma reserva indígena, ativando o primeiro gerador de um parque eólico e inaugurando uma nova ala de emergência em um dos maiores hospitais do Estado. Mas, do ponto de vista político, a fala mais forte do dia partiu da chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, que denunciou o caráter golpista do comportamento de setores da oposição. “Tentar impedir o presidente de governar ou de não participar do processo eleitoral, não digo que é um golpe em si, mas tem um caráter golpista”, disse Dilma em entrevista à rádio Gaúcha.

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5 “Prisão de cubanos demonstra moral dupla do governo dos EUA”
Por Marco Aurélio Weissheimer/ Entrevista com o embaixador de Cuba no Brasil, Pedro Nuñez Mosquera - 28/04/2006

O embaixador de Cuba no Brasil, Pedro Nuñez Mosquera visitou a capital gaúcha essa semana para participar da inauguração de mais um comitê de solidariedade aos cinco cubanos presos nos EUA, desde 1998, acusados e espionagem e conspiração. Eles investigavam a organização de atividades terroristas por grupos anticastristas de Miami. Foram condenados, um deles a duas penas de prisão perpétua e mais 15 anos de prisão em um julgamento onde, entre os 11 jurados, 8 eram cubanos anticastristas e um era venezuelano e se assumia como opositor do governo Chávez.

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6 Bolívia nacionaliza gás e petróleo e Lula convoca reunião de emergência
Por Marco Aurélio Weissheimer - 01/05/2006

O presidente da Bolívia, Evo Morales, anunciou nesta segunda-feira (1°) a nacionalização da exploração de petróleo e gás no país, ordenando a ocupação dos campos de produção das empresas estrangeiras no país, entre eles os da Petrobras. Além da empresa brasileira, operam na Bolívia as petrolíferas Repsol YPF (Espanha e Argentina), British Gas e British Petroleum (Reino Unido), Total (França), Dong Wong (Coréia) e Canadian Energy. A partir de agora, elas ficam obrigadas a entregar sua produção para a empresa estatal Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB), que assumirá a comercialização do gás e do petróleo, definindo condições, volumes e preços tanto para o mercado interno quanto para exportação. A YPFB também assumirá o controle dos campos de produção de petróleo e gás. As companhias estrangeiras que exploram os produtos deverão regularizar sua situação no país com novos contratos em um prazo de 180 dias.

O decreto n° 28.701, que determina a nacionalização dos hidrocarbonetos, foi firmado em um ato no campo petrolífero de San Alberto, na província de Caraparí. “Nacionalizam-se os recursos naturais hidrocarboríferos do país, o Estado recupera a posse e o controle total e absoluto destes recursos”, disse o presidente Evo Morales ao anunciar a decisão. “Acabou o saque”, acrescentou. Enquanto isso, um militar subia no alto das instalações petroleiras de Margarita para desfraldar uma bandeira boliviana e uma faixa com a inscrição: “nacionalizado”. “Queremos pedir (às Forças Armadas) desde esse local, a partir desse momento, tomar todos os campos petrolíferos em toda a Bolívia, com os batalhões de engenheiros organizados pelo Ministério de Hidrocarburetos junto ao presidente da YPFB”, disse ainda o presidente Morales. Depois do anúncio, iniciou-se a ocupação militar das instalações petrolíferas em todo o país.

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7 “Comida não é assistencialismo, é condição primeira para a cidadania”
Por Jonas Valente - 04/05/2006

BRASÍLIA - Nesta segunda parte da entrevista, o ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, aprofunda elementos sobre a concepção e a gestão do Bolsa Família, programa de maior visibilidade de sua pasta. Para Ananias, o Bolsa Família não é um programa assistencialista mas sim uma política pública para efetivar um direito, que é a transferência de renda. Ele comemora o cumprimento da meta este ano de atender R$ 11,1 milhões de famílias com investimentos que chegarão a mais de R$ 7 bilhões.

CM – Não faltam críticas à lógica assistencialista do Bolsa Família, que reduz o programa a mais uma ação limitada do governo. Como o Sr. responde a elas?

Patrus Ananias – Primeiro, o Bolsa Família é política pública instituída em lei. Segundo, o programa trabalha com pontos fundamentais que são direitos: ele visa garantir às famílias através de uma renda básica o direito humano à alimentação, comida não é assistencialismo, é condição primeira para a cidadania; ele trabalha com condicionalidades, que são também emancipatórias, as famílias se comprometem a garantir a presença das crianças na escola e a ter cuidados básicos com a saúde. Também neste sentido, ele é um programa que visa preservar vínculos familiares, portanto garantindo às crianças e aos jovens o direito a um espaço de afeto, de acolhimento, essencial ao seu processo de desenvolvimento emocional.

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8 Nível de endividamento externo é o mais baixo desde 1995
Por André Barrocal - 22/06/2006

Em maio, a dívida externa total do país (pública e privada) atingiu US$ 160 bilhões, segundo dados divulgados pelo BC nesta quarta-feira (21). É o patamar mais baixo desde dezembro de 1995. De lá para cá, o pico da dívida foi de US$ 241 bilhões, registrado em 1999 e 2000. No fim de maio, o Brasil teria condições de liquidar toda a dívida usando os dólares guardados no BC e os obtidos em sete meses de exportação. Em 1999, teria de gastar as reservas e mais 32 meses de dólares de exportação. Apenas a dívida externa do setor público já pode ser paga, hoje, quase integralmente só com as reservas do BC.

Para abater o endividamento externo, o governo livrou-se do Fundo Monetário Internacional (FMI), ao quitar mais de US$ 15 bilhões no fim do ano passado. Em 2006, está resgatando dívida nascida do calote dos anos 80. Já pagou mais de US$ 10 bilhões e, até o fim do ano, a despesa somará US$ 20 bilhões. O resgate das dívidas ajudou a ampliar os prazos de vencimentos. Hoje, o governo não tem mais dívida externa de curto prazo (12 meses). Os atuais compromissos de curto prazo são todos de empresas privadas e bancos (inclusive oficiais), cerca de US$ 18 bilhões este ano, volume ainda tido como elevado.

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9 A Copa do Mundo e suas paixões, no olhar de Eric Hobsbawm
Por Verena Glass - 23/06/2006

Para falar de Copa do Mundo, a Carta Maior buscou a opinião não especializada em esportes ou futebol de um dos mais importantes pensadores da atualidade. Aos 89 anos, Eric Hobsbawm viveu e analisou a essência do século passado em obras como A Era das Revoluções (1789-1848), A Era do Capital (1848-1875), A Era dos Impérios (1875-1914) e A Era dos Extremos (1914-1991). E, em seu último trabalho, O Novo Século, lançado em 2000, o historiador, um dos últimos grandes pensadores marxistas do mundo, olha o futuro com a mesma clareza com que explicou o passado.

CM - Durante um evento como a Copa do Mundo, principalmente no Brasil, o patriotismo aflora com enorme força, o país inteiro veste as cores na nação, as bandeiras brasileiras estão por toda parte, e diferenças sociais e políticas parecem desaparecer por algumas semanas. O que o senhor acha deste tipo de patriotismo?

Eric Hobsbawm – A capacidade de o futebol de ser um símbolo de identidade nacional há muito é conhecida. No meu livro sobre nacionalismo eu escrevi que “a comunidade imaginária de milhões parece ser mais realista do que um time de onze pessoas”. Atualmente, indubitavelmente, isto é mais importante do que nunca na história, já que grandes jogadores são recrutados de quase todos os cantos do mundo. Acho que só participar de uma Copa do Mundo é que faz as pessoas que vivem no Togo ou em Camarões darem-se conta de que são cidadãos de seus países. Posso entender o apelo deste tipo de patriotismo, mas eu não tenho entusiasmo nenhum pelo nacionalismo.

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10 O Novo Cinema Latino americano: a busca da identidade perdida
Por Miguel Littín - 03/07/2006

Se foi achado este testemunho que te encaminho, talvez também tenham sido encontrados filmes, ou fragmentos deles, retratando nossos tempos. Pois saiba, Arqueólogo do Futuro, ao assisti-los, que em nossos dias havia mais de um cinema. Havia o cinema dominante, industrial e de consumo americano, mesmo que feito em todas as partes, e havia um cinema de ruptura, que aconteceu também em toda parte e que, na América Latina, ficou conhecido como Cinema Novo. É dele que trata este meu relato.

Já no começo dos anos 70, nosso mais belo cometa, Glauber Rocha, havia escrito: “nosso cinema é novo porque o homem latino-americano é novo, a problemática é nova e nossa luz é nova, por isso nossos filmes são diferentes. O cineasta do futuro deverá ser um artista comprometido com os grandes problemas de seu tempo. Queremos filmes de combate na hora do combate”. Isso resumia um estado de ânimo e um momento da História que pode até não ser compartilhada, mas que não pode ser negada, pois, como dizia Shakespeare, podemos discutir os fatos, porém não podemos negá-los.

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11 Desenvolvimento: uma agenda para além da estabilidade

Luiz Gonzaga Belluzzo e Maria da Conceição Tavares - 26/07/2007

1. A eleição presidencial de 2006 oferece aos brasileiros a oportunidade de definir uma nova agenda de desenvolvimento.

2. Na vida democrática contemporânea, o sufrágio universal não se limita a conferir legitimidade aos que recebem mandato para o exercício do poder, mas deve exprimir a soberania do povo sobre temas e metas de interesse dos cidadãos-eleitores. Deliberada, ou involuntariamente, nas últimas décadas essas questões foram usurpadas pelos mercados e seus porta-vozes. Vivemos o questionamento e a luta pela reversão e superação desse processo.

(...)

12. Cabe, portanto, às lideranças progressistas retomar a construção interrompida – assinalada por Celso Furtado – rumo a um Brasil em que a democracia não seja apenas coadjuvante do desenvolvimento, mas possa modificar sua substância para torná-lo, de fato, duradouro, justo e humanista.

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12 Tensão no lançamento da campanha pela anulação da privatização
Por Maurício Thuswohl - 15/08/2006

A evidência de que a venda da Vale havia sido fraudada era tanta que, desde sua concretização, mais de 60 ações contrárias foram iniciadas na Justiça. As denúncias variavam: irregularidades no processo, ocultação de jazidas minerais exploradas pela empresa nos relatórios de bens, erros grosseiros de avaliação cometidos pelas firmas que fizeram auditoria na Vale antes da venda, etc. Uma dessas ações foi reaberta pelo TRF e culminou na decisão do Tribunal pela anulação da privatização da empresa. Agora, cabe ao governo federal acatar a decisão, coisa que ele ainda não deu o mínimo sinal de que pretende fazer.

“Basta um pronunciamento do governo para que o leilão da Vale realizado em 1997 seja anulado”, constata Sandra Quintela, lembrando que o Executivo Federal é réu no processo. A economista, no entanto, não parece otimista: “Bastaria a boa vontade do presidente Lula, mas a gente sabe que ele não vai abraçar essa causa de livre e espontânea vontade, afinal as pressões são muitas e o poder econômico envolvido é grande. Se o Lula tomar alguma atitude, vai ser por conta de uma outra pressão, a das ruas, que precisará ser muito forte”, imagina.

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13 A linguagem especial da guerra
Por Bernardo Kucinski - 16/08/2006

´O general tem que sair´, dizem os oficiais do Estado-Maior

Essa é a manchete de página inteira do principal jornal israelense, o Haaretz, nesta quarta-feira (16), exigindo a demissão do chefe do Estado-Maior, Dan Halutz, num dia em que o país continua a enterrar seus soldados mortos. Não bastassem todos os erros de Dan Halutz, descobriu-se que, mal havia começado a guerra, ele estava ao telefone mandando o Banco Leumi vender todas as ações que ele possuía. Não era muito, coisa de 60 mil reais, mas o episódio, pintado com tintas sensacionalistas pela mídia, tornou-se emblemático da forma como os generais conduziram essa guerra.

Mas Halutz é sem dúvida o símbolo maior do desastre desta guerra. Oriundo da aeronáutica, em contraste com os comandantes anteriores originários das forças de terra, ele achava que com um ou dois bombardeios de profundidade acabaria com os foguetes do Hezbollah. Não acabou. Os foguetes continuaram a cair em grande número em Israel.

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14 Constituinte busca dar concretude a Estado plurinacional
Por Priscila D. de Carvalho - 01/09/2006

SUCRE (BOLÍVIA) - A mais profunda mudança que os movimentos indígenas – que representam na 62% da população boliviana - pretendem introduzir na Assembleia Constituinte em curso no país é a definição da Bolívia como um Estado plurinacional. Não se trata apenas de levar em conta as demandas da maioria indígena no planejamento das políticas governamentais, mas também de garantir a participação direta dos povos indígenas em toda a estrutura dos poderes públicos.

A mudança, se consolidada, levará à reformulação da própria ideia de Estado, para que nela caibam as formas de representação política dos 37 povos originários que vivem no território boliviano. “Nosso objetivo não é incidir em um ministério específico, mas que as propostas dos povos indígenas sejam transversalizadas nas ações dos governos, e isso significa o reconhecimento verdadeiro de nossas identidades como povos”, afirma Pedro Nuni, vice-presidente da Confederação de Povos Indígenas da Bolívia (Cidob).

“É uma situação muito diferente do Brasil. Se lá 0,4% da população indígena, aqui temos 62%. A temática indígena será algo que tem que estar presente em toda a Constituição. Esta é a novidade. Não poderá ser um regime especial e não será um capítulo para indígenas. Terá que haver referências às especificidades indígenas no poder judiciário, no ordenamento territorial, agrário, nos recursos naturais. A Bolívia talvez seja o primeiro país com este tipo de características”, avalia o padre jesuíta Xavier Albó, antropólogo que acompanha de perto os movimentos indígenas há quatro décadas e é uma das maiores autoridades do país no tema.

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15 Índia, Brasil e África do Sul estreitam laços para recuperar “tempo perdido”
Por Maurício Hashizume - 14/09/2006

BRASÍLIA – “É urgente que recuperemos o tempo perdido”. A palavra de ordem pronunciada pelo presidente Lula condensou a atmosfera em que foi realizada, nesta quarta-feira (13), a I Reunião de Cúpula do Fórum de Diálogo Índia-Brasil-África do Sul (Ibas). “A potencialidade das relações entre África do Sul, Índia e Brasil é de uma grandeza incomensurável e nós ainda não a descobrimos porque durante décadas e décadas estivemos voltados para uma relação muito forte com os países do Norte e deixamos num segundo plano, eu diria, até quase no esquecimento, as relações Sul-Sul”, declarou Lula, sob olhares atentos do primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, e do presidente da África do Sul, Thabo Mbeki.

A ideia original de criar o Ibas, aliás, foi, segundo relato apresentado pelo próprio Lula, de Mbeki. Em 1º de janeiro de 2003, no dia da posse do presidente brasileiro, o sul-africano sugeriu que grandes países em desenvolvimento deveriam se unir. “Chegou a hora do Ibas”, adicionou o presidente da África do Sul, durante o encontro. Para ele, um dos principais desafios colocados pelo novo grupo será disseminar o entendimento existente no nível dos governos – reforçados por “esperanças, aspirações e desafios em comum” - para a base das sociedades de cada país. Nesse sentido, Mbeki sugeriu uma aliança com setor empresarial para que seja feita uma análise minuciosa de possibilidades e demandas. Um dos pontos centrais colocados pelo representante maior da África do Sul foi o incremento da conectividade entre os países – tanto por meio físico e logístico (infraestrutura, transportes, circulação de pessoas, turismo, etc.) como cultural, com a utilização de tecnologias de informação e comunicação (TICs), a troca de capital intelectual e o intercâmbio acadêmico, por exemplo.

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16 Lula vence e faz apelo por unidade em primeiro pronunciamento
Por Verena Glass - 29/10/2006

SÃO PAULO - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito neste domingo (29) com cerca de 58,3 milhões de votos, alcançando 60,7% dos sufrágios válidos. Em 2002, o percentual chegou a 61,27%. Alckmin, que totalizou a 41,64% no primeiro turno, caiu agora para 39,21%.

(...)

Após agradecer a confiança de seus eleitores, de reforçar que a vitória foi mérito do povo incluído num patamar superior de cidadania e de afirmar que “o Brasil está vivendo um momento mágico de consolidação da democracia”, Lula voltou a tocar no tema da estabilização da economia. A vida do povo melhorou, há mais emprego e mais comida na mesa, mas o alvo agora será o crescimento rumo a um “padrão de desenvolvimento que coloca o Brasil no patamar dos países desenvolvidos. Cansamos de ser emergentes”, afirmou.

(...)

Logo em seguida, Lula disparou outro recado, ao mesmo tempo para o setor produtivo e para a sua base histórica: “Aos meus companheiros sindicalistas, quero dizer: reivindiquem tudo o que vocês precisarem reivindicar. Nós daremos apenas aquilo que a responsabilidade permita que a gente dê”. Mas em seguida, no estilo bater e soprar, afirmou que a relação do presidente com todos os segmentos da sociedade civil é um fator essencial, “consolidando a democracia, o papel do estado e sobretudo o papel de participação da sociedade. Isso nós fizemos com muita competência e vamos continuar fazendo, afinal de contas o Brasil não é meu, Brasil é de todos. Por isso estou com esta frase na minha camiseta para vocês lerem”, afirmou, abrindo a jaqueta e mostrando os dizeres " A vitória é do Brasil".

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17 Começa o julgamento de Ustra, primeiro acusado de tortura da ditadura militar
Por Bia Barbosa - 09/11/2006

SÃO PAULO – “Ele foi o primeiro a me dar um tapa na cara, quando ainda estava no Pátio da Operação Bandeirantes [Oban]. Me jogou no chão com aquele tapa. Me torturou pessoalmente. Também foi ele quem mandou invadir a minha casa, buscar todo mundo que estava lá. Meus filhos e minha irmã. Durante cerca de 10 dias, minhas crianças ficaram na Oban. Me viram sendo torturada na cadeira de dragão, me viram cheia de hematomas, com o rosto desfigurado, dentro da cela. Nessa semana, em que meus filhos estavam por ali, eles falavam que os dois estavam sendo torturados. Disseram: “Nessas alturas, sua Janaína já está dentro de um caixãozinho”. Disseram também que eu ia ser morta. Isso foi o tempo todo. O tempo todo, o terror. Ali era um inferno”.

Assim descreveu Maria Amélia Teles os onze meses que passou presa em São Paulo no DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna), um dos principais centros de repressão aos presos políticos do período da ditadura militar. Maria Amélia foi presa na Vila Mariana, na capital paulista, no dia 28 de dezembro de 1972. Seu marido, César Teles, já estava detido. Os dois coordenavam a gráfica do Partido Comunista do Brasil, ao qual pertenciam. Também davam suporte aos guerrilheiros do Araguaia, e por isso foram presos. No dia seguinte, a polícia invadiu a casa de César e Maria Amélia e deteve sua irmã, Criméia Almeida, e seus filhos, Janaína e Edson, na época com 5 e 4 anos de idade. Das dependências do DOI-Codi, todos foram torturados física e psicologicamente.

Na tarde desta quarta-feira (8), eles reviveram mais uma vez esse passado durante a primeira sessão da audiência de instrução e julgamento de Carlos Alberto Brilhante Ustra, coronel reformado do Exército que, de setembro de 1970 a janeiro de 1974, comandou as operações no DOI-Codi. Neste período, houve 502 denúncias de torturas praticadas por homens sob o seu comando e por ele diretamente. Ustra é o primeiro acusado de tortura ocorrida durante a ditadura a ser julgado no país. Desde o final do ano passado, a família Teles move contra ele uma ação cível declaratória, ou seja, pede somente que a Justiça o declare torturador deste período e reconheça que ele causou danos morais e à integridade física dessas cinco pessoas. Neste caso, não há, portanto, responsabilização criminal de Ustra pela prática da tortura ou pelos cerca de 40 assassinatos decorrentes da violência dos interrogatórios ocorridos no DOI-Codi.

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18 A mundialização do Teatro do Oprimido e 'Gilberto Gil fez o Ministério da Cultura existir'
Por Eduardo Carvalho – 10/11/2006 e 13/11/2006

Entrevista com Augusto Boal, criador do Teatro do Oprimido, dividida em duas partes. Ele trata de sua recente ida à Índia para a criação da Federação Indiana do Teatro do Oprimido e da repercussão desta técnica pelo mundo, além de avaliar a gestão de Gilberto Gil à frente do Ministério da Cultura e de fazer previsões para o segundo mandato de Lula.

(…)

CM – Como acontece a transposição das técnicas do Teatro do Oprimido para um país com uma cultura tão díspar como a Índia?
AB – As técnicas do Teatro do Oprimido são aplicados aos problemas deles. Realmente há diferenças culturais; eles são, por exemplo, muito mais melódicos nos movimentos do que os africanos que são mais rítmicos ou os franceses que fazem a coisa mais falada. O método é o mesmo, mas cada cultura o traduz com suas peculiaridades. Não se pode esperar que os hindus ginguem como mulatas! A base é o Teatro Fórum, a entrada do espectador em cena, a forma de desenvolver as entradas até chegar a conclusões de propostas... tudo feito segundo a regra do Teatro do Oprimido.

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19 Chávez é reeleito com 61% dos votos; oposição se reunifica
Por Redação Carta Maior - 04/12/2006

CARACAS - O primeiro boletim parcial com a apuração dos votos na Venezuela, divulgado nesta segunda-feira (4), já garante a reeleição do presidente Hugo Chávez para mais seis anos de mandato. Com 85% das urnas apuradas até o meio dia desta segunda-feira (4), o atual presidente venezuelano obteve 61,62% dos votos, contra 38,12% do opositor Manuel Rosales. De acordo com a Comissão Nacional de Totalização, Chávez somava 6.191.652 e Rosales, 3.830.370 votos.

Com a vitória, Chávez fortalece o eixo progressista na América do Sul, que acabara de ganhar o reforço de Rafael Correa, vencedor das eleições no Equador. Os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e da Argentina, Nestor Kirchner, haviam sinalizado apoio à reeleição de Chávez.

"O reino do socialismo é o reino do futuro venezuelano", exclamou Chávez, ao falar da janela do palácio presidencial Miraflores diante de milhares de simpatizantes que se reuniram sob uma chuva intensa. Ele prestou homenagens a Jesus Cristo e a Simon Bolívar. "O socialismo é solidariedade, que ninguém tenha medo, é um socialismo indígena, cristão e bolivariano", completou.

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Outras matérias e seus links que complementam a história do ano de 2006 vista por Carta Maior.

Argentina quer unir países do Mercosul para apurar crimes de ditaduras
Por Vera Rotta - 17/01/2006

O desafio de incorporar o setor informal no sindicalismo
Por Jonas Valente - 27/01/2006

A beleza clássica do ballet cubano
Por Eduardo Carvalho - 06/05/2006

MST acompanha a “Outra Campanha” zapatista; em debate, o futuro de duas nações
Por Verena Glass - 18/05/2006

Correntes majoritárias querem mudanças na política econômica
Por Marcel Gomes - 06/06/2006

A nacionalização do gás e a Constituinte são processos complementares na Bolívia”
Por Gilberto Maringoni - 20/06/2006

Um sucesso: o Mercosul cresce e muda
Por Gilberto Maringoni - 25/07/2006

As 3 pedras no caminho da política externa brasileira
Por Marcel Gomes - 04/07/2006

O legado de Guarnieri
Por Flávio Aguiar - 25/07/2006

Lula diz estar convencido de que fará Belo Monte e Rio Madeira
Por Verena Glass – 16/08/2006

Itália: os 100 dias da centro esquerda
Por Gilberto Maringoni - 23/08/2006

Nível de pobreza apresenta maior queda dos últimos 10 anos, diz pesquisa da FGV
Por Redação Carta Maior -

Uma viagem de 25 mil quilômetros em busca da resistência na América Latina
Por Eduardo Carvalho e Latinautas - 23/09/2006

Movimentos sociais apostam em articulação num 2º mandato de Lula
Por Verena Glass - 24/10/2006

Indígenas precisam disputar eleições no Brasil, diz líder xavante
Por Natália Suzuki - 30/11/2006





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