Carta Maior 20 anos

Carta Maior 2007: o acirramento da fúria conservadora

 

06/05/2021 11:24

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Créditos da foto: (Getty Images)

 
A esperança, e a pressão, dos progressistas brasileiros, naquele início do segundo mandato do presidente Lula, era de que fossem deixadas de lado as políticas neoliberais do primeiro mandato. E logo de início alguns alentos como o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a indicação de Márcio Pochmann para dirigir o IPEA e a previdência que, pela primeira vez em anos, absorvia parcela maior do que os juros no orçamento, a primeira atendendo mais de 20 milhões de pessoas e os juros indo para nada mais do que 20 mil bolsos.

A América Latina continuava trilhando suas parcerias na luta “anti-imperialista e antineoliberal”: Rafael Correa, Evo Morales eram destaques nas matérias de Carta Maior.

A escolha do Brasil para sede da Copa do Mundo de Futebol de 2014 e a crise do setor aéreo geraram incontáveis críticas da imprensa corporativa, nacional e internacional. Obviamente, a razão fundamental da fúria conservadora foi a reeleição de Lula.

O tom da imprensa foi se elevando, sendo seguido, por exemplo, por um ministro do Supremo Tribunal Militar que chegou a afirmar, em sua saudação a formandos das academias militares:

“O que podemos dizer a esses ilustres jovens militares. Não desistam. Os certos não devem mudar e sim os errados. Podem ter certeza de que milhares de pessoas estão do lado de vocês. Um dia, não se sabe quando, mas com certeza esse dia já esteve mais longe, as pessoas de bem desse País vão se pronunciar, vão se apresentar, como já fizeram em um passado não muito longe, e aí sim, as coisas vão mudar, o sol da democracia e da Justiça brasileira vai voltar a brilhar”.

Marco Aurélio Weissheimer conclui sua matéria com uma profecia: “Há um caldo de cultura perigoso formando-se no ambiente político brasileiro.”

Em “Carta Maior, a transposição e 2007”, Flávio Aguiar relata a publicação de diversas matérias compondo um especial sobre a transposição do rio São Francisco e conta as agruras sofridas por Carta Maior para fazer a travessia de 2007: “estivemos de fato a pique de fechar”. Mesmo tendo recebido prêmios de jornalismo ao longo do ano, os recursos cada vez mais escassos obrigaram Carta Maior a ajustes indesejados, porém indispensáveis.

Essa retrospectiva faz parte da comemoração do aniversário de 20 anos de Carta Maior. Abaixo encontram-se trechos e links para as matérias aqui selecionadas para contar a história do ano de 2007.

Para ver as retrospectivas dos anos anteriores, clique nos links de 2001, 2002, 2003, 2004, 2005 2006.

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1 Previdência ganhará mais verba do que juro
Por André Barrocal - 04/01/2007

BRASÍLIA – O sistema financeiro fica com a fatia mais polpuda dos recursos públicos administrados pelo governo desde o início da política de pagamento sistemático de juros da dívida, conhecida como superávit primário, no fim de 1998. De lá para cá, o orçamento federal permitiu que o “mercado” se apropriasse, em média, de 8% das riquezas nacionais produzidas a cada ano. Em 2007, no entanto, bancos, fundos de pensão, corretoras de valores e especuladores em geral vão perder o troféu de principais favorecidos pela verba pública. Pela primeira vez na era do arrocho fiscal, o orçamento separou mais dinheiro para o governo pagar pessoas beneficiadas pela Previdência Social do que os rentistas do “mercado”, o que sinaliza uma certa distribuição da renda brasileira.

O Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) gastará, em 2007, até R$ 177,6 bilhões com aposentadorias, pensões e benefícios diversos (auxílio-doença ou licença maternidade, por exemplo). A quantia representa 7,8% das riquezas que o orçamento prevê que a economia vai gerar este ano, o chamado produto interno bruto (PIB). Já o pagamento de juros - com dinheiro de tributos ou emprestados ao governo pelo mesmo “mercado” que ganha com juro – consumirá até R$ 165,8 bilhões, o equivalente a 7,3% do PIB.

(…)

A superação do pagamento de juros pelos benefícios previdenciários aponta para uma certa distribuição da renda nacional. O INSS ampara uma parcela mais pobre da população, como aposentados do setor rural. Atualmente, paga 21,5 milhões de benefícios mensais, atendendo quase 75 milhões de pessoas - cada pagamento favorece quem o recebe e mais 2,5 pessoas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Já os rentistas que lucram no “mercado” somam 20 mil famílias – ou 80 mil pessoas, pois a família brasileira tem em média quatro integrantes, de acordo com o IBGE -, nas contas do economista Márcio Pochmann, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A Secretaria do Tesouro Nacional, repartição do ministério da Fazenda responsável pela gestão da dívida – e é a dívida que dá lucro aos rentistas –, não fornece informações sobre o assunto.

“Esse orçamento mostra uma distribuição de renda inédita dos detentores das maiores rendas para a parcela mais pobre da população”, diz o economista Roberto Piscitelli, da Universidade de Brasília (UnB) e ex-presidente do Conselho Regional de Economia do Distrito Federal. “Caminhamos para um estado de bem-estar social, o que certamente vai incomodar os neoliberais, que já pedem uma reforma da Previdência”, completou.

De fato, a consolidação do INSS como principal gasto federal inquieta setores mais identificados com o “mercado”. Em seu tradicional almoço de fim de ano com jornalistas, no dia 19 de dezembro, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostrou preocupação. Para a entidade, sem conter gastos previdenciários, o país não vai crescer, porque o governo terá sempre de cobrar impostos altos. “A Previdência sendo o maior gasto mostra a necessidade de uma reforma”, afirmara, na ocasião, o economista-chefe da CNI, Flávio Castelo Branco.

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2 Após 4 anos, governo tenta mudar o rumo
Por João Sicsú - 16/02/2007

O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) representa uma mudança de concepção do Governo Lula: é uma nova forma de pensar a relação entre duas instituições essenciais para o desenvolvimento de uma sociedade: o Estado e o mercado. Tais instituições devem interagir através de ações de governo para estimular o crescimento econômico e promover justiça e segurança social.

(…)

A última grande iniciativa econômica de governo no País foi o Plano Real. Quem derrotou a alta inflação no Brasil foi o governo. Não foram as forças de mercado que se movimentavam livremente. O governo Lula retomou a iniciativa, através do PAC, depois de quatro anos esperando o “espetáculo do crescimento” que seria oferecido exclusivamente pelo “mercado”, uma entidade considerada por muitos como: vidente, suprema e infalível. Mas, o Deus mercado falhou: o crescimento econômico médio no período 2003-2006 foi de 2,6% (nos anos 1995-1998, correspondentes ao primeiro governo de FHC, foi de 2,6 e nos anos 1999-2002, que corresponderam ao segundo mandato de FHC, foi de 2,1% ao ano). Então, o Governo desistiu de esperar o dia em que o paraíso chegaria como resultado dos sacrifícios quotidianos. Na prática, a iniciativa de lançar um Programa desconstitui a ideia de que a soma de sacrifícios de curto prazo resultaria, de forma espontânea, no paraíso, alcançável somente lá... lá... no longo prazo.

(…)

Enfim, o PAC é um ponto de inflexão na trajetória das políticas econômicas do governo Lula. É necessário, contudo, adequar as demais políticas monetária e cambial ao objetivo do crescimento. O objetivo do crescimento tem que se tornar uma obsessão nacional. Afinal, um país que verdadeiramente quer se desenvolver deve pensar grande e, portanto, deve buscar compatibilizar objetivos múltiplos: estabilidade monetária, crescimento econômico, equilíbrio do balanço de pagamentos, equilíbrio das contas públicas e justiça e segurança social. O crescimento econômico e a consequente solidez orçamentária da União são as condições básicas e necessárias para a viabilização da transformação social de que o Brasil precisa. Sem crescimento econômico não há espaço para a viabilização de programas sociais de profundidade e abrangentes capazes de promover justiça e segurança social para todos.

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3 Mais de 20 mil marcham por igualdade, autonomia e liberdade
Por Bia Barbosa - 08/03/2007

SÃO PAULO – Sempre no dia 8 de março, as mulheres brasileiras ocupam as ruas do país com suas bandeiras de luta. As manifestações articulam diversos temas, como a mercantilização do corpo e da vida das mulheres; o combate à violência; a luta pela legalização do aborto; pela valorização do salário mínimo. Todos os anos, o objetivo é sensibilizar a população e os demais movimentos organizados que nenhuma sociedade será justa e democrática se não eliminar a opressão de gênero.

Este ano, no entanto, a ocasião para demonstrar a amplitude da luta das mulheres não poderia ser melhor: a coincidência com a visita de George W. Bush ao país levou milhares de feministas a dizer não ao imperialismo estadunidense, à política neoliberal defendida pelo governo americano e à dominação dos povos. Em São Paulo, pelo menos 20 mil pessoas se reuniram na manifestação que tomou conta da Avenida Paulista. Com o lema “Feministas em luta para mudar o mundo: por igualdade, autonomia e liberdade”, e vindas de diversas cidades do interior do estado, as mulheres caminharam sob um calor intenso, com bandeiras e flores em punho.

“O 8 de Março é um dia de luta para as mulheres há mais de uma década. É fortemente anti- neoliberal, anticapitalista, com uma visão bastante crítica da globalização. A vinda de Bush para o Brasil só reforçou este posicionamento de mais de 10 anos, e vários movimentos se somaram nesta luta”, conta Jacira Mello, presidente do Instituto Patrícia Galvão. “Apesar de parte dos movimentos terem proposto uma fusão dos atos, achamos importante manter o 8 de Março como uma mobilização das mulheres. No final, foi um diálogo frutífero, porque permitiu um maior entendimento da amplitude da luta das mulheres”, acredita.

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4 Visita de Rafael Correa reforça aliança entre Brasil e Equador
Por André Barrocal – 05/04/2007

BRASÍLIA – Dois dias depois de lançar um plano econômico que reforça o papel do Estado e os investimentos públicos e reduz o pagamento de juros da dívida, para tentar fazer o país crescer mais, numa espécie de versão local do PAC brasileiro, o presidente do Equador, Rafael Correa, fez sua primeira viagem internacional e, nesta quarta-feira (4), reuniu-se com o presidente Lula.

O encontro mostrou ser sólida a aliança costurada pelos dois países desde a eleição de Correa. Em pronunciamento oficial e nos acordos assinados pelos governos, Lula e o colega mostraram afinidade tanto na política interna, ao enfatizarem a preocupação social de seus governos, quanto na externa, que prioriza a integração latino-americana.

Para Correa, a integração da região vem ocorrendo “não pela lógica mercantilista, mas de cooperação mútua”, e “não para construir consumidores, mas cidadãos”. Os entendimentos feitos pelos dois governos durante a reunião, disse o equatoriano, evidenciam que o espírito de cooperação, e não de exploração, está norteando o processo.

Segundo o presidente Lula, o Brasil vai eliminar tarifas de importação cobradas de produtos equatorianos, para equilibrar a relação comercial entre os países (de 2003 a 2006, o Brasil lucrou US$ 2,1 bilhões). Ajudará o Equador a tentar produzir biocombustíveis, setor em que Correa vê potencial para distribuir renda (há muitas pequenas propriedades rurais no Equador). Investirá na área petrolífera de lá, via Petrobras. E “exportará” o know-how dos programas Bolsa Família e Fome Zero. (O ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, viajará ao Equador para discutir as iniciativas, que aquele país pretende adotar).

“Quero que você saiba, presidente Correa, que o meu governo e o Brasil serão parceiros do seu governo e parceiros do Equador para que a gente possa construir, nos próximos quatro anos, aquilo que não fomos capazes de construir nos últimos 40 ou 50 anos”, disse Lula. “Conheço a sua disposição política, conheço a sua vocação em benefício do povo oprimido e mais pobre do Equador”, completou.

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5 Presidentes do Equador e da Bolívia marcham com os trabalhadores
Por Do La Jornada, México – 02/05/2007

O presidente do Equador, Rafael Correa, liderou hoje pela primeira vez na história de seu país uma marcha com milhares de trabalhadores na celebração do Dia Internacional do Trabalho. As centrais de trabalhadores do país o convidaram para este gesto sem precedentes na história do país. O tema em destaque na comemoração foi o repúdio às políticas econômicas neoliberais.

Este primeiro de maio juntou pela primeira vez na mesma marcha e na mesma pregação um presidente e líderes sindicais. Correa marchou ombro a ombro com os líderes dos trabalhadores pelo centro de Quito. Os ministros de seu gabinete vinham atrás e dezenas de policiais e militares escoltavam a marcha, que avançava entre os gritos de “viva!” da multidão.

(…)

Enquanto isso, em La Paz, Evo Morales também se tornou o primeiro presidente da Bolívia a marchar junto com os sindicatos nesta data, num ato em que se comprometeu a continuar sua luta “anti-imperialista e antineoliberal”, para tirar seu país da extrema pobreza em que vive.

O governante, que aproveitou para dar um reajuste ao salário mínimo mensal que vai de 62,57 a 65,70 dólares, o que ainda é insuficiente para uma cesta básica, marchou por três quilômetros através do centro de La Paz. Ia nas fileiras da Central Obrera Boliviana, a COB, e com os camponeses que celebravam o primeiro aniversário da nacionalização do

petróleo e seus derivados.

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6 MST tem sido alento a Cuba, diz Fidel Castro
Por Verena Glass – 13/06/2007

BRASÍLIA – Histórico apoiador do regime cubano, o MST recebeu nesta terça (12) uma saudação do presidente Fidel Castro ao seu 5º Congresso, lida por um dos representantes de Cuba, integrante da delegação de convidados internacionais.

(…)

Esta parceria foi um dos aspectos principais ressaltados por Fidel em sua carta ao movimento. A seguir, leia a íntegra do documento:

“Companheiros e companheiras do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra:

Com sinceros sentimentos de solidariedade, lhes envio uma fraternal saudação, na ocasião em que ocorre o V Congresso do Movimento Sem Terra.

É uma satisfação enviar esta mensagem a vocês, que são a genuína expressão da justa luta por um mundo melhor, sem exclusão nem exploração.

O Movimento Sem Terra é um dos mais destacados e combativos movimentos sociais que lutam por este mundo melhor. É também um dos mais organizados em suas ações

e profundos em suas concepções, como partes integrantes de um estilo de trabalho, no qual se aprecia a discussão coletiva e a austeridade como características relevantes.

Do Movimento Sem Terra, temos recebido a solidariedade e o alento na nossa longa e dura luta contra frente ao império mais poderoso que jamais existiu e para construir uma sociedade de justiça e eqüidade social.

Observo com interesse o projeto de estabelecer, em conjunto com a Via Campesina, uma escola latino-americana de agroecologia para formar 250 jovens camponeses, a cada semestre, como agrônomos ecologistas. É um excelente projeto, do qual se beneficiará a agricultura latino-americana e caribenha.

Para mim, também é motivo de alegria saber que vocês já contam com 20 jovens médicos brasileiros surgidos das filas do Movimento Sem Terra e egressos da Escola Latino-Americana, que outros 80 estão estudando ali e mais 40 iniciarão seus estudos este ano, enquanto avança entre vocês o programa de alfabetização de adultos no campo, mediante o método desenvolvido em Cuba e prazeirosamente cedido ao Movimento Sem Terra,

"Yo sí puedo", em português "Sim, eu posso". A solidariedade de Cuba com os projetos sociais de alto conteúdo humano como esses não faltará.

Desejo-lhes êxitos em seu V Congresso.

Fidel Castro Ruz”

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7 Mídia eleva tom contra Lula. Ministro do STM sugere golpe
Por Marco Aurélio Weissheimer – 24/07/2007

PORTO ALEGRE – O tom das críticas ao governo Lula, em função da crise no setor aéreo, vem subindo crescentemente na mídia. O editorial do jornal O Estado de S. Paulo, nesta terça-feira (24), fala em “governo desacreditado” e “colapso do lulismo em matéria de permitir, em última análise, que o país funcione”. O Estadão refere-se ao Presidente da República como “o inexperiente Lula, o qual na irrefutável constatação de Orestes Quércia, em 1994, nunca dirigiu nem um carrinho de pipoca, antes de ambicionar o Planalto”. Na mesma direção, o colunista Clóvis Rossi, pergunta hoje, na Folha de S. Paulo: “se o país é incapaz de segurar um avião na pista, vai segurar o quê?”.

O jornal O Globo, também em editorial, diz que “a crise é mais profunda do que se quer fazer crer”. Também no Globo, Dora Kramer diz que “à corriola governamental tudo é permitido: agredir o público com grosseria, com leviandade, com futilidades, com fugas patéticas ao cumprimento dos deveres, com indiferença, vale qualquer coisa se a anarquia tem origem nas hostes governistas”. “Corriola”, em seu uso informal, significa “grupo de pessoas que agem desonestamente ou de forma inescrupulosa; quadrilha”.

Ministro do STM sugere golpe

O tom das palavras sobe também em alguns setores da sociedade. Além da desqualificação do governo federal, com o uso de adjetivos cada vez mais pesados, começam a aparecer também discursos de caráter golpista. Um exemplo:

“O que podemos dizer a esses ilustres jovens militares. Não desistam. Os certos não devem mudar e sim os errados. Podem ter certeza de que milhares de pessoas estão do lado de vocês. Um dia, não se sabe quando, mas com certeza esse dia já esteve mais longe, as pessoas de bem desse País vão se pronunciar, vão se apresentar, como já fizeram em um passado não muito longe, e aí sim, as coisas vão mudar, o sol da democracia e da Justiça brasileira vai voltar a brilhar”.

A declaração foi feita pelo ministro do Superior Tribunal Militar, Olympio Pereira da Silva Junior, durante a entrega de espadins a alunos que ingressaram nas academias militares do Exercito, Marinha e Aeronáutica, em julho deste ano. Ao saudar os novos alunos, Olympio Junior critica a situação política do país, faz uma apologia da honra, da moral e do patriotismo, lamentando que os jovens cadetes não poderão manusear os instrumentos militar que conhecerão no treinamento. Ele diz:

“Aqueles jovens, ainda puros, não sabem que vão estudar (e como vão estudar, durante toda a carreira) tudo sobre a arte da guerra e do combate e vão conhecer e aprender tudo sobre equipamentos e instrumentos militares, os mais modernos do mundo, mas que na realidade nunca irão manusear porque, no nosso País, não se acredita ser necessário a compra de armamento/equipamento militar para ficarmos em igualdade bélica a outras nações”. E critica a condição dos militares em relação aos demais funcionários públicos:

“Preparam-se, por toda a carreira, para dedicarem-se e ser fiel à Pátria, cuja honra, integridade e instituições deverão ser defendidas mesmo com o sacrifício da própria vida e têm, mesmo assim, seus vencimentos tão diferenciados de outros funcionários públicos que nunca deram nem vão dar nada ao País, pois dele só querem benesses, vantagens e lucros e o que é pior, porque ninguém faz nada a respeito e calam-se diante dessa imoralidade”.

O texto do ministro foi publicado em sites nacionalistas de direita como “A verdade sufocada” e “Terrorismo nunca mais”. Bacharel em Direito, Olympio Junior ingressou na carreira do Ministério Público Militar em 1976, tendo sido designado pelo então presidente, general Ernesto Geisel, para assumir a Procuradoria junto à Auditoria da Justiça Militar, em Juiz de Fora (MG). Desde 18 de novembro de 1994, é ministro do STM.

O ministro do STM, que já presidiu o órgão, é um velho conhecido do presidente da República. Há 23 anos, Olympio Junior, então na condição de promotor militar, pediu a prisão preventiva de Lula, então líder metalúrgico, por crime contra a segurança nacional em razão de um discurso feito no Acre em companhia de Chico Mendes.

Qual é mesmo o papel da Justiça Militar no Brasil? Segundo o site do STM, é julgar “apenas e tão somente os crimes militares definidos em lei”. O texto de apresentação do órgão faz um elogio da “independência, altivez e serenidade do órgão”: “no período de regime militar de 1964 a 1984, levou juristas famosos na luta em defesa dos direitos humanos, como Heleno Fragoso, Sobral Pinto e Evaristo de Morais, a tecerem candentes elogios à independência, altivez e serenidade com que atuou o Superior Tribunal Militar na interpretação da Lei de Segurança Nacional e na aplicação dos vários Atos Institucionais”.

Há um caldo de cultura perigoso formando-se no ambiente político brasileiro.

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8 "O Estado brasileiro é raquítico"
Por Flávio Aguiar – 15/08/2007

SÃO PAULO - Toma posse hoje (15/08), às 16 horas, em cerimônia transmitida pela rede NBR e pela internet na página do IPEA, o novo presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o professor Márcio Pochmann, da UNICAMP, e colaborador assíduo da Carta Maior.

Em entrevista à Carta Maior, o novo presidente do IPEA, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, Márcio Pochmann, afirma que sua prioridade “é o Brasil, sua complexidade e sua diversidade”. Também afirma que o Estado brasileiro, ao contrário do que prega o conservadorismo da mídia e dos partidos à direita, “é raquítico” e não tem condição de gerir o país do jeito que está. Para ele, o único momento em que o Brasil, ao longo de sua história, revelou alguma pujança econômica e administrativa foi no ciclo que começou com a Revolução de 1930 e terminou em 1980. Nestes 50 anos o Brasil tornou-se um país moderno, com instituições modernas.

O IPEA é um órgão do governo federal, responsável pela coleta de dados em séries históricas, abrangendo dados macroeconômicos e regionais, balanço de pagamentos, câmbio, comércio exterior e interno, contas nacionais, emprego, estoque de capital, finanças, indicadores sociais, moeda e crédito, população, preços, salário e renda, transportes, entre outros. Algumas dessas séries recuam até 1940. As mais procuradas são as da série inflacionária, da balança comercial, da dívida interna e do setor público, e os índices gerais de preços. Segundo a página do órgão, hoje sediado na Secretaria de Planejamento de Longo Prazo (cujo ministro é o professor Mangabeira Unger), o objetivo do IPEA é descrever “o estado de uma nação”, isto é, o Brasil. A seguir, a entrevista do professor e nosso colaborador Márcio Pochmann.

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9 FHC não sabia de nada, afirmam líderes do PSDB
Por Marco Aurélio Weissheimer – 27/09/2007

As declarações do senador Eduardo Azeredo (PSDB/MG), envolvendo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso no esquema de caixa-dois de sua campanha para o governo de Minas Gerais em 1998, causaram um terremoto dentro do partido, desencadeando uma operação para isolar e silenciar Azeredo o mais rápido possível. Lideranças tucanas fizeram fila, quarta-feira, para rebater as declarações do senador mineiro.

“O senador não poderia ter dito isso. Está me obrigando a responder algo surrealista. Envolver o presidente (FHC) nesse episódio é o mesmo que envolver o presidente Bush”, disse Arthur Virgílio (AM), líder do PSDB no Senado. Virgílio não explicou por que seu colega de partido “não poderia” ter dito o que disse. O presidente nacional do PSDB, Tasso Jereissati (CE), recorreu à psicologia para explicar as declarações de Azeredo.

Segundo ele, as declarações de Azeredo ao jornal Folha de São Paulo são uma demonstração de indignação e transtorno mental. Azeredo, garantiu Jereissati, é um homem honesto, correto, que ficou transtornado e saiu falando o que veio à cabeça. Já o senador tucano de Goiás, Marconi Perillo, foi mais direto: “FHC e o PSDB nacional não têm nada a ver com isso”, assegurou.

O site nacional do PSDB silencia sobre o assunto. Os recados a Azeredo estão sendo dados pela imprensa e diretamente através de alguns interlocutores. O governador de São Paulo, José Serra, negou que esteja em curso no PSDB uma operação para silenciar e isolar Azeredo. Segundo Serra, o senador mineiro é um homem íntegro e honesto e jamais existiu algo como um “mensalão mineiro”. Azeredo não está abandonado pelo partido. É só uma sensação, não a realidade, filosofou Serra.

Já o governador mineiro, Aécio Neves (PSDB), tirou o corpo fora e jogou a batata quente no colo de seu companheiro de partido, dizendo que Azeredo deve prestar contas à sociedade pelas acusações de caixa-dois na campanha de 1998.

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10 ‘A América Latina é uma esperança’, diz Evo nos 40 anos da morte de Che
Por Daniel Cassol – 08/10/2007

VALLEGRANDE, Bolívia - Sob o sol, o vento e a poeira fortes, o presidente da Bolívia, Evo Morales, falou nesta segunda-feira (8) para uma platéia de pouco mais de mil pessoas, ao lado do local onde foram encontrados os restos mortais de Che Guevara, em Vallegrande, sudeste da Bolívia. Um discurso marcadamente ambientalista deu o tom da fala do presidente boliviano, precedido por saudações de ex-guerrilheiros, intelectuais e representantes de Cuba e Venezuela que exaltaram o socialismo do século XXI.

"A América Latina deve viver com dignidade e liberdade. Não podemos mais ser o pátio dos fundos do imperialismo norte-americano", disse Evo, que teve nos Estados Unidos um dos focos principais de sua fala. "A luta heróica de Che e de outros revolucionários continuará até acabarmos com o capitalismo. Esta é a luta dos povos", afirmou.

O presidente boliviano defendeu a nacionalização dos recursos naturais, que tem garantido um aumento considerável no orçamento do país e nas reservas internacionais. "Antes, para onde ia este dinheiro?", indagou. Morales também defendeu a continuidade dos trabalhos da Assembléia Constituinte, como forma de avançar com as transformações no país. Uma das propostas é proibir a instalação de bases militares dos Estados Unidos na Bolívia.

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11 A bronca do Financial Times
Por Flávio Aguiar - 31/10/2007

O anúncio na terça-feira, dia 30 de outubro, de que o Brasil sediará a Copa do Mundo de 2014 não surpreendeu ninguém do ramo, de torcedores a comentaristas e políticos. Também não houve surpresas quanto a reações de dúvidas na imprensa européia quanto à capacidade brasileira de sediar o evento, com base no argumento de que o Brasil enfrenta ;problemas de infra-estrutura (transporte e estádios), de segurança, e de corrupção (como se tudo isso fosse monopólio nosso). Também não surpreende o ceticismo que se manifesta em alguma imprensa brasileira, sempre baseado na idéia de que somos mais ufanistas do que nosso pobre país permite. Como também não surpreendem as reações eufóricas de políticos, por exemplo. Vai ver que alguns de nós somos mesmo mais eufóricos do que devíamos, assim como alguns somos mais auto-depreciativos (não depressivos) do que deviam.

É claro que apesar da CBF e seus problemas, e dos inegáveis problemas do Brasil, a decisão da FIFA é uma vitória para o país, e uma oportunidade de ouro para se apressarem mudanças (para melhor) que estão em curso nele, em todas as áreas. Com exceção, é certo, do transporte aéreo cuja crise brasileira segue tendência mundial (repito, mundial) de insolvência no setor, pelos motivos os mais variados.

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12 Carta Maior, a transposição e 2007
Por Flávio Aguiar – 24/12/2007

O “especial” publicado agora em nossa página, com uma seleção de textos sobre a transposição do São Francisco e temas conexos, ilustra nossa tradição de pluralidade em questões complexas como essa, e ao mesmo tempo de rigor na informação e no debate.

Por outro lado, em 2007, Carta Maior enfrentou a maior crise de sua história, e estivemos de fato a pique de fechar. Não fechamos, continuando na luta pela democracia no jornalismo, pela justiça social, pela liberdade e pluralidade na informação. E não fechamos, sobretudo, pelo verdadeiro clamor de solidariedade e demanda de continuarmos que se levantou a partir de nossos “companheiros de caminho”, os leitores e leitoras* de Carta Maior.

Estes e estas continuaram frequentando nossa página, até com maior assiduidade. Nosso cadastro dos que recebem o Boletim de Carta Maior aumentou, e hoje supera os 45 mil registrados. Para o fim do ano, o número dos comentários às matérias publicadas cresceu vertiginosamente, com críticas, elogios, e debates com os articulistas e entre os comentaristas.

Sem dúvida, isto reflete o caráter polêmico de temas levantados, como o do São Francisco ou o da greve de fome correlata do bispo de Barra. Mas também se deve a fenômeno crescente no jornalismo brasileiro e mundial, que é o da perda de confiança na mídia convencional e conservadora, de espírito oligárquico no caso brasileiro, ao lado da crescente busca de fontes alternativas e democráticas na informação, no comentário e no debate.

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13 Carta Maior: a luta continua
Por Editorial Carta Maior - 03/09/2007

Carta Maior vem a público agradecer aos nossos "companheiros e companheiras de caminho", os e as internautas que prosseguem conosco a luta pela democratização da comunicação no Brasil e em geral. A partir de 1o. de agosto próximo passado tivemos de passar por uma redefinição de nosso trabalho, pois quase todo nosso corpo de redação teve de se desligar devido aos crônicos problemas financeiros que caracterizam quase todas as iniciativas do nosso tipo. Entretanto, reafirmamos nosso compromisso de manter a nossa luta pela democratização da comunicação e através dela da sociedade brasileira, prosseguindo a presença da página na internet através do debate de ideias.

Um mês depois desse duro e indispensável ajuste em nossa atuação, podemos dizer com orgulho que a frequência à nossa página não caiu.

(…)

Temos consciência de nossas limitações, mas temos consciência também de que nossa luta é necessária como parte da construção de uma sociedade justa, baseada nos princípios da igualdade e da liberdade. Não recuaremos de nossa frente de batalha. Continuaremos informando os e as internautas sobre nossas novas iniciativas. Continuem conosco.

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Mídia independente e democratização da mídia

Segue uma relação de matérias de 2007 sobre a mídia brasileira. Elas contam as agruras financeiras e os prêmios recebidos por Carta Maior. São abordados ainda aspectos da discussão em torno da democratização dos meios de comunicação que insiste em não avançar no Brasil.

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Algumas reflexões sobre a crise de Carta Maior
Bernardo Kucinski 03/04/2007

A crise, Carta Maior e a afetividade

Verena Glass - 05/04/2007

Paixão e ressurreição de Carta Maior
Por Lula Miranda – 10/04/2007

Aos 10 anos, Caros Amigos continua ícone do jornalismo progressista
Por Verena Glass – 23/04/2007

Entidades cobram caráter público das emissoras de TV
Por Bia Barbosa – 24/04/2007

Carta Maior: dez passos para o século XXI
Por Carta Maior – 30/04/2007

Reportagem sobre Octavio Frias causa demissão de editor do Meio&Mensagem
Por Marcel Gomes e Maurício Reimberg – 08/05/2007

O que diz a reportagem sobre Octavio Frias de Oliveira
Marcel Gomes e Maurício Reimberg - 08/05/2007

Vitória da imprensa alternativa
Por Redação Carta Maior – 24/06/2007

Os protestantes do século XXI
Por Flávio Aguiar – 31/08/2007

Mídia sufoca pluralidade e suprime pensamento crítico"
Verena Glass – 13/11/2007

Carta Maior vence Prêmio CNT de Jornalismo na categoria internet
Por Redação Carta Maior – 09/11/2007

Documento defende a democratização da mídia no país
Por Redação Carta Maior – 22/11/2007

Observatórios de mídia refletem descrédito da imprensa
Por Verena Glass – 14/11/2007

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