Carta Maior 20 anos

Duas décadas e mais um tanto de um portal heróico

 

25/01/2021 11:48

(Reprodução/Facebook)

Créditos da foto: (Reprodução/Facebook)

 
Se você ler em algum canto desta página que Carta Maior está comemorando vinte anos de existência, pode confiar: é mentira. O portal aqui tem o mau hábito de esconder a idade, embora as duas décadas mereçam uma festa. Expliquemos.

Carta Maior surgiu com esse nome em 1997, por obra e graça de um advogado turrão e visionário, que sempre viu o país para muito além das lentes jurídicas. Trata-se, claro, de Joaquim Ernesto Palhares, um gaúcho que parece ter saído da pena de Luís Fernando Veríssimo. É personagem que nunca passa desapercebido onde quer que vá. Joaquim Ernesto é dono de voz tonitruante – até segredos ele conta em potentes decibéis -, inteligência múltipla, senso de humor inabalável e furor para organizar e infundir ânimo em equipes tão distintas quanto as de advogados, jornalistas e acadêmicos de variadas espécies. Categorias, como se sabe, dotadas, em geral, de egos também exaltados.

ADVOCACIA FINANCEIRA
Para quem se especializou em direito financeiro a partir do início dos anos 1990, quando a taxa de juros passou a ser uma das âncoras da nova moeda, o real, o desafio de lidar com times tão distintos deve ter sido semelhante. Palhares advogava contestando juridicamente dívidas de empresas e entes públicos estrangulados por altíssimas taxas bancárias. Descobrindo contradições legais na Constituição e no Código de Defesa do Consumidor, Palhares conseguiu tirar do sufoco corporações, prefeituras e governos estaduais que viam suas capacidades de investimento e mesmo suas sobrevivências bloqueadas pela usura especulativa. Na segunda metade daquela década, o advogado já abrira escritórios em São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro e Porto Alegre.

Embora fosse um militante de esquerda desde a juventude e muito próximo ao PT, foi junto aos tribunais que Joaquim Ernesto percebeu que sua ação só seria efetiva se transitasse da advocacia para a política, através de uma de suas paixões, a comunicação. O delírio financeiro do neoliberalismo é antes de tudo um problema político e não legal ou econômico.

Assim, em 1997 nasce Carta Maior, boletim quinzenal impresso de oito páginas, tamanho ofício, com notícias, artigos, entrevistas e indicadores variados. Uma newsletter, como se diz em português, destinada aos clientes dos escritórios.

O SALTO PARA A INTERNET
O apelo e a desenvoltura que adquiriu o boletim levou Palhares a chamar alguns dos melhores jornalistas e intelectuais brasileiros para um salto ousado: levar o informativo para a então engatinhante internet e abrir seu raio de ação para política, economia, cultura e comportamento, tendo sempre a ampliação de direitos de cidadania como Norte editorial.

Estávamos no final de 2000, às vésperas de um acontecimento decisivo para a esquerda e as correntes progressistas no plano global: a realização do I Fórum Social Mundial, em Porto Alegre. Tanto a cidade quanto o estado do Rio Grande do Sul eram governados por dois destacados quadros do PT, respectivamente Tarso Genro e Olívio Dutra. Havia ventos de mudança na América do Sul, impulsionados pela eleição de Hugo Chávez, na Venezuela, e ativados por mobilizações populares contra o neoliberalismo em vários países da região.

O SEGUNDO BATISMO
O plano traçado por Palhares e aqueles que dele se aproximavam era ousado. Nada indicava que a grande mídia brasileira iria destacar o Fórum Social Mundial de 2001 com o peso merecido. A ideia era cobrir a lacuna anunciada. Aqui Carta Maior tem seu segundo batismo, que merece todas as comemorações.

Foi montada uma redação num dos locais-sede do gigantesco evento, a PUC-RS, que atraiu ativistas, trabalhadores, estudantes, lideranças e intelectuais de vários países. Havia quase vinte profissionais envolvidos na cobertura jornalística.

A partir daí, Carta Maior se difundiu e se sofisticou. A internet daqueles tempos ainda não suportava vídeos em profusão, mas o portal ampliou seu leque de colaboradores e inovou a comunicação por meios virtuais. Entre 2004-10, um forte investimento em reportagem levou o site a dar furos significativos de reportagem, como o de desmontar a farsa dos aloprados nas eleições presidenciais de 2006. A mídia e a direita tentaram colar na candidatura de Lula a pecha de se valer de meios ilícitos para vencer a disputa.

EVITANDO O CHAPABRANQUISMO
Carta Maior apresentou outra característica, nos tempos em que começavam a aparecer outros veículos virtuais de esquerda nas redes. O portal nunca foi chapa-branca em relação às administrações petistas. A pluralidade de opiniões existente entre os articulistas e a própria visão crítica de Palhares evitaram que a Carta Maior entrasse num certo governismo que acometeu parte dos portais de esquerda. Isso lhe granjeou credibilidade e condições reais de estabelecer contrapontos com as grandes corporações do setor, apesar da evidente assimetria da comparação.

O veículo sempre foi crítico das hesitações e de determinadas escolhas das gestões petistas, como a manutenção da política econômica neoliberal – em especial no primeiro mandato de Lula – e do não encaminhamento das políticas de democratização das comunicações. Ao mesmo tempo, ações anticíclicas importantes no terreno da economia, a ampliação do ativismo estatal nos terrenos da Educação, da redução da miséria e da valorização da Petrobrás e do BNDES, entre outras iniciativas progressistas, mereceram cobertura honesta, fora das armações dos grandes meios.

FURACÃO EM AÇÃO
O furacão Palhares abandonou a advocacia nesse meio tempo – “Não há Justiça real no Brasil”, costuma repetir – e passou a se dedicar em tempo integral à Carta Maior. Não foi e não é um caminho fácil, ainda mais agora, em período de pandemia e trevas. Palhares venceu dificuldades econômicas e mais recentemente venceu a praga de nossos tempos. Contaminado pelo novo coronavírus, foi hospitalizado e escapou da sina que vitimou quase 220 mil brasileiros por obra do instinto genocida do atual governo.

Carta sobreviveu e sobreviverá, assim como seu criador, esse formador de equipes briguento e irredutível. Longa vida a todos/as nós, camarada Joaquim Ernesto!

(O autor destas maltraçadas teve a felicidade de participar de vários desses momentos emocionantes)

Gilberto Maringoni é Professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC



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