Carta Maior 20 anos

Eu vou sentir o calor das ruas

 

25/01/2021 14:22

(Reprodução/Instagram)

Créditos da foto: (Reprodução/Instagram)

 
Os processos mais potentes de transformação social brotam da política que se faz nas ruas. Esse talvez tenha sido o maior aprendizado dos meus anos de Carta Maior, entre 2003 e 2007, quando estive à frente da editoria de Movimentos Sociais.

Eram os primeiros anos PT no poder, e, passada a euforia da eleição de um governo progressista, os movimentos populares rapidamente se deram conta de que, sem luta, muitas das suas pautas e dos avanços nas áreas sociais seguiriam, em boa medida, restritos a documentos programáticos. Como costumava dizer João Pedro Stedile, do MST, o governo estava em disputa.

A Carta Maior talvez tenha sido um dos primeiros veículos a criar uma editoria sólida de movimentos sociais, cujo foco e objetivo, além das coberturas sistemáticas dos eventos ligados ao Fórum Social – os encontros mundiais, regionais e temáticos -, era dar voz e visibilidade às demandas da sociedade civil organizada. Estava no nosso DNA a expectativa e o apoio àquela esquerda que, pela primeira, vez assumiu o governo do país, mas fazia parte deste apoio apontar, discutir e criticar construtivamente suas idiossincrasias.

Em 2005, por exemplo, o presidente da Câmara dos Deputados era Severino Cavalcanti, e do Senado, Renan Calheiros. O assentamento de trabalhadoras e trabalhadores sem-terra estava muito aquém do que havia sido prometido na campanha de Lula, e naquele ano mais de 12 mil militantes do MST caminharam cerca de 230 quilômetros de Goiânia a Brasília, na Marcha Nacional da Reforma Agrária. A manifestação pelo acesso à terra que tomou a capital federal no dia 17 de maio foi duramente reprimida pela polícia, com um saldo de cerca de 50 feridos, mas valeu ao movimento uma audiência com o presidente intermediada pelo então ministro do desenvolvimento agrário, Miguel Rossetto. “Veja esse mar de gente do MST, Lula. Temos que dar alguma resposta”, teria cobrado Rossetto à época. Ao movimento, o recado teria sido: pressionem, precisamos da mobilização para que algo ande por aqui.

Contar em detalhes esta e outras tantas histórias da luta dos movimentos sociais foi uma prerrogativa da Carta Maior. Em 2005, estivemos em Mar del Plata, na Argentina, e cobrimos, ao lado do Movimento Continental contra a ALCA, o histórico enterro, pelos presidentes Chávez, Lula, Kirchner e Evo Morales (e com apoio do saudoso Maradona), de uma das mais perversas propostas de livre comércio daquela década.

Em 2006, acompanhamos os debates das organizações do campo na Conferência sobre Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural da FAO e na Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica. Cobrimos seus protestos contra as monoculturas de eucalipto no Rio Grande do Sul e contra a OMC em Curitiba. Também fomos um dos primeiros veículos a discutir crítica e sistematicamente a construção de grandes hidrelétricas na Amazônia, como Jirau, Santo Antonio e Belo Monte. Estivemos nos territórios impactados e ameaçados, e ouvimos indígenas, ribeirinhos, pescadores, acadêmicos, pesquisadores e procuradores do Ministério Público Federal numa cobertura que, em certa medida, foi premonitória.

Cobrimos o Terra Livre, maior encontro nacional dos povos indígenas do país; acompanhamos a luta da CPT contra o Trabalho Escravo; a Marcha Mundial de Mulheres em suas ações feministas; os movimentos palestinos contra a ocupação israelense de seus territórios; os movimentos e ONGs ambientalistas na crítica aos transgênicos, ao desmatamento e à aliança do governo com os ruralistas.

Talvez a Carta Maior tenha sido o Exu dos nossos tempos: com o dom da comunicação, abriu caminhos. Circulava e era bem recebida com o mesmo respeito e desenvoltura nos gabinetes da política institucional e nos espaços acadêmicos - nos quais buscou cooperar na construção de rumos para a esquerda do século XXI -, e nos territórios, marchas, acampamentos e sedes sem ar condicionado do movimento popular.

Nos meus anos de Carta Maior, penso que seu maior mérito foi desvelar a força, a criatividade, a beleza e a incrível resiliência dessa gente que faz política em noites mal dormidas, em alojamentos precários, nas filas da marmita, nos botequins de beira de estrada, em acampamentos e marchas, e no cotidiano de quem vive a realidade bruta de um dos países mais desiguais do mundo.

Muita coisa mudou no país ao longo destes 20 anos. Hoje, com uma esquerda mortificada diante do fascismo de um governo genocida e paralisados pela Pandemia do Covid 19, as resistências e lutas travadas nos territórios passaram a ter relevância e atrair a atenção de muitos outros veículos de comunicação. Mas podemos colocara Carta Maior entre as precursoras do jornalismo que conta a História a partir da política feita no calor das ruas.

Verena Glass é jornalista e foi editora de Movimentos Sociais na Carta Maior entre 2003 e 2007. Atualmente é coordenadora de projetos da Fundação Rosa Luxemburgo



Conteúdo Relacionado