Carta Maior 20 anos

Parece que foi ontem

 

25/01/2021 18:30

(Reprodução/bit.ly/3qVfwOF)

Créditos da foto: (Reprodução/bit.ly/3qVfwOF)

 
Eu voltava de férias com a família em um dia qualquer de agosto de 2003, quando o celular tocou. Como estava dirigindo, minha mulher atendeu e disse que Joaquim Palhares, da Agência Carta Maior, queria falar comigo. Eu não o conhecia, mas parei o carro no acostamento para atender.

Ele foi direto ao ponto: a Carta Maior estava para abrir um escritório em Brasília, e meu nome havia sido indicado para montá-lo e coordená-lo. Mas havia uma condição, advertiu Palhares: eles só contratavam jornalistas “de esquerda”.

Respondi que nunca tinha militado em organizações, partidos ou movimentos sociais, mas, se ser “de esquerda” era acreditar que a justiça social só seria possível com a intervenção do Estado, eu me enquadrava no perfil.

Trabalhei na Carta Maior em dois períodos: primeiro, como coordenador da “sucursal”; depois, como repórter especial. Tenho muito orgulho de ter feito parte daquela equipe engajada e comprometida com o projeto.

Cerca de um ano e meio antes do convite do Palhares, eu havia deixado a Agência Estado após cinco anos trabalhando como repórter na Broadcast, o serviço de informação em tempo real do Grupo, pioneiro naquela época. Tinha sido demitido após uma divergência com a chefia, mas já estava insatisfeito há algum tempo. Desde que descobrira minha função na engrenagem do sistema de defesa dos interesses capitalistas.

Cursando uma disciplina do curso de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB) como aluno ouvinte, fui incentivado a fazer uma pesquisa ampla sobre o noticiário da Broadcast. Acabei constatando que a cobertura que eu fazia como setorista na Câmara dos Deputados pautava a mídia, especialmente os veículos de rádio e televisão, com a agenda que interessava ao mercado financeiro.

Foi um choque. Eu acreditava estar servindo à sociedade, dando acesso a um direito fundamental para o exercício da cidadania: o direito de saber o que acontece de importante no centro do poder político nacional. Mas não era bem assim.

O exemplo mais atormentador dessa distorção era o fato de que, em 26 de fevereiro de 2002, quase toda a equipe da Broadcast em Brasília está cobrindo o “lobby” que representantes da Bolsa de Valores faziam no Congresso para derrubar a tributação da CPMF em operações de compra e venda de ações, enquanto o assunto mais relevante para a disputa eleitoral daquele ano estava acontecendo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE): a verticalização das coligações partidárias, que quase inviabilizou a aliança trabalho-capital, simbolizada na chapa Lula-Zé Alencar.

Quando aceitei o convite para trabalhar na Carta Maior, meu sonho era demonstrar que, da mesma forma que uma agência de notícias financiada pelo mercado financeiro conseguia pauta a mídia para cobrir os assuntos de seu interesse, uma agência de notícias financiada pelo “mercado social” poderia fazer o mesmo como contraponto. Observo que estamos falando de 20 anos atrás, um tempo em que as redes sociais engatinhavam no país e o smartphone ainda não havia sido inventado.

Algumas semanas depois do convite, compartilhei esse propósito em uma reunião do “Conselho Editorial” da Carta Maior realizada no Hotel Maksoud Plaza. Enquanto eu falava, percebi um brilho nos olhos atentos de Palhares e um discreto sorriso escapando do rosto dele, como se estivesse me dizendo: “é isso mesmo que nós precisamos”. Tenho para mim que me tornei “de esquerda” para ele naquela reunião.

Acredito que essa possibilidade de influenciar a mídia com a agenda do “mercado social” foi comprovada quando viramos a pauta de entrevistas coletivas perguntando sobre temas que interessavam mais aos movimentos sociais, como a falta de recursos orçamentários para a Reforma Agrária, a criação do Fundo Nacional de Moradia Popular, a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial, só para citar alguns. Vale mencionar também a cobertura das Conferências Nacionais, com reportagens que se tornaram referências para os interessados nas diversas políticas públicas debatidas em âmbito nacional.

Assim, a Carta Maior se consolidou como uma referência de jornalismo para o Mercado Social. Parabéns, Carta Maior! Por essa belíssima história de 20 anos acreditando que Outro Mundo é Possível.

Nelson Breve, jornalista e produtor cultural, foi secretário de Imprensa da Presidência da República e Diretor Presidente da Empresa Brasil de Comunicação

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