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Quando outro mundo era um sonho possível

 

25/01/2021 14:35

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Créditos da foto: (Divulgação)

 
Parece fazer muito tempo desde quando começamos a dizer em voz alta que um outro mundo seria possível. Primeiro, havia a fantasia de que seria possível inventar um mundo diferente. Talvez essa ideia tenha dado impulso para sonharmos também com um Brasil diferente – o que talvez seja mais difícil do que sonhar com uma transformação planetária.

No entanto, pouco depois – a partir de 2002 – o Brasil conquistou, através do voto, alguns projetos importantes para que nosso país, até então um dos mais desiguais do Ocidente, conseguisse reduzir um pouco as desigualdades econômicas e de reconhecimento de direitos. Talvez este seja mais difícil do que aquelas. Que uma grande parcela dos muito pobres tenham conseguido se erguer um pouco acima da linha da miséria que caracterizava (e voltou a caracterizar) a sociedade brasileira, não parecia tão ofensivo à burguesia mal educada em cidadania do que o fato de que esses ex-pobres tenham adquirido hábitos de comportamento e consumo parecidos com os das classes médias.

O programa de cotas para jovens afrodescendentes abriu a possibilidade, para uma geração de excluídos, de entrar em universidades públicas. Que ofensa, quando alguns desses novos universitários se saíam melhor – por se empenharem mais – do que alguns filhos das classes que até então os contratavam para varrer o quintal.

Mais ofensivo ainda era o risco de encontrar com a filha da empregada doméstica comprando no mesmo Shopping que a filha da patroa. Pior: na mesma fila de embarque! Mais de uma vez ouvi, em Congonhas ou no Santos Dumont, comentários ressentidos de que “esse aeroporto está parecendo uma rodoviária!”

Sabemos que a luta de classes não se dá apenas no plano material, de quem explora quem, mas sobretudo no plano simbólico: deve ficar bem clara a linha que demarca quem tem o poder de excluir quem. Só faltava “essa gente” (título do último e mais melancólico livro do Chico Buarque) achar que podia se apropriar dos meios de produção...

Mas este não era e nunca foi o objetivo dos governos petistas que, ainda que tivessem poupado a burguesia de tal desapropriação, até hoje são chamados – por ignorância ou má fé – de comunistas. Não, eu não queria que nos transformássemos na Coreia do Norte. Mas algumas prerrogativas conquistadas e mantidas pelo povo cubano bem que seriam bem-vindas por aqui.

Prometo escrever, em outra ocasião, sobre o pouco que pude entender nos seis dias que passei em Havana, quando o Brasil foi homenageado na feira do livro de lá (e, sim, parecia que TODOS os cubanos estavam ali, nos auditórios e nas filas da feira do livro).

Hoje vivemos a ressaca da derrota de todas as pequenas diferenças que os governos petistas começaram a introduzir em um dos países mais desiguais do mundo – o nosso. Hoje, conferimos que depois que a Lava Jato fez seu trabalho de enfraquecer e desmoralizar o primeiro partido operário do Brasil, a fúria moralista dos brasileiros esmoreceu. Ninguém se indignou e nada aconteceu com as investigações sobre Aécio Neves (o aeroporto construído com dinheiro público em terras de sua fazenda, a queda do helicóptero de cocaína destinado ao palácio do governo...). Ninguém voltou a mencionar o casarão da filha de Michel Temer co nstruído com dinheiro público. E muito dos lava-jatistas de ocasião se omitiram sobre as irregularidades cometidas por Flávio Bolsonaro. Fica evidente que a operação Lava-Jato, capitaneada pelo ex-juiz que não aguentou o privilégio de ser Ministro da Justiça do governo Bolsonaro, foi criada com um alvo apenas: acabar com o Partido dos Trabalhadores. Este que, durante uma década, conseguiu tirar o Brasil do mapa da fome.

Por essas razões, e muitas outras mais, precisamos de um novo Fórum Social Mundial. Bom saber que a Carta Maior, veículo de nossa liberdade de expressão (além da Carta Capital, faço questão de lembrar), se empenha em 2021 em resgatar a experiência dos Fóruns Mundiais. Trump caiu. Esperneou até ultrapassar todos os limites do ridículo (e das possibilidades de ameaçar a democracia), mas não se reelegeu. Esperamos o mesmo destino para nosso sub- Trump, em 2022.

O outro mundo possível não é o das nossas melhores fantasias, das nossas idealizações quase adolescentes. Mas que seja possível reconstruir – quem sabe até avançando um pouco – o mundo de que já nos aproximamos na década passada. O mundo em que nasceu a Carta Maior; em que foi inventado um Fórum para reunir pensamentos, projetos e esperanças de vários países. Retomamos agora o Fórum para repensar o mundo que queremos. Um mundo em que seja possível tentar, e as vezes conseguir (mesmo que através de dispositivos reformistas), colocar algum limite nos abusos da especulação financeira. E que r ecrie mecanismos para com que o dinheiro, esse símbolo capaz de intermediar trocas (mas também de criar bolhas artificiais de crescimento) volte a sua função mais digna, a de oxigenar projetos de um modo menos desigual, mais democrático. No planeta inteiro.

Maria Rita Kehl colabora com a Carta Maior desde sua fundação







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