Carta Maior 20 anos

A salvação de J. E. Palhares

 

25/01/2021 11:04

(Reprodução/Blog da Boitempo)

Créditos da foto: (Reprodução/Blog da Boitempo)

 
O anjo da morte perdera a conta de quantas cabeças decepara naquele dia. Sentia-se exausto. Let´s call it a day, decidiu. Foi quando lhe chegou o chamamento. Insistente. Perturbador. Pensou: mais um que prefere a morte à tortura do entubamento. E atendeu. Deparou com um homem de meia idade que jazia no leito da UTI envolto por tantos panos e tubos que mal podia ser reconhecido. Não obstante, o anjo da morte o reconheceu. Você não é o Joaquim Ernesto Palhares, que vinte anos atrás, durante o Primeiro Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, lançou a Carta Maior, sob uma canícula tão infernal que nem eu agüentei? Sem contar com uma resposta, o anjo da morte descansou sua foice e checou a lista. Sorry, disse, você é imortal, assim como a Carta Maior que vocês fundaram está eternizada nas nuvens da internet; você eu estou proibido de levar. Num estalo, o anjo da morte desapareceu e seu lugar foi tomado por dois querubins que imediatamente puseram-se a libertar Joaquim dos tubos e panos que o prendiam ao leito. Em seguida o despiram e deram-lhe um prolongado banho de água de rosas. Depois o vestiram com roupas alvíssimas de linho branco e lhe deram alta.

20 de janeiro de 2021.

Bernardo Kucinski é co-fundador da Carta Maior





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