Carta Maior 20 anos

Retrospectiva 2019: o novo velho continente e suas contradições

Essa retrospectiva faz parte das comemorações de 20 anos de Carta Maior

15/07/2021 14:40

(Arte/Carta Maior)

Créditos da foto: (Arte/Carta Maior)

 
:: Este texto faz parte do especial que comemora os 20 anos da Carta Maior ::

***

A coluna semanal de Carta Maior com o título O novo velho continente e suas contradições, assinada por Celso Japiassu, começou a ser publicada em outubro de 2019. Os assuntos que inquietavam a Europa foram abordados no primeiro texto.

O Brexit dominava o noticiário dos jornais e o divórcio já decidido entre o Reino Unido e a União Europeia estava previsto para o fim do mês. Muitos temiam o enfraquecimento da Europa unida, que passava a ter 27 estados membros ao invés dos 28 que tinham se juntado numa inédita comunidade.

Outros movimentos separatistas também inquietavam. A Catalunha e o País Basco, os mais expressivos, agitavam o ambiente político da Espanha.

Continuava o fluxo de refugiados em direção à Europa, um movimento que os partidos de direita instrumentalizavam para assustar as classes médias e aumentar seus cacifes eleitorais em campanhas de rejeição e ódio aos imigrantes. Novas migrações se anunciavam com as perseguições aos curdos, os conflitos na Síria e a fome nos países africanos subsaarianos.

O turismo, item fundamental na economia de quase todos os países europeus, provocava também uma crise habitacional com os imóveis urbanos a se transformarem em hotéis e alojamentos locais.

Foi antes da pandemia do coronavírus.

*Essa retrospectiva faz parte das comemorações de 20 anos de Carta Maior. Seguem trechos e links dos artigos, de 2019, de Celso Japiassu em O novo velho continente e suas contradições.

***

Outubro

 

O crescimento da extrema direita ou a noite dos vampiros

Os partidos de direita crescem na Europa e ameaçam a democracia duramente conquistada e transformada num dos pilares da União Europeia.

O fascismo tem os mesmos hábitos do Conde Drácula da Transilvânia. Dorme quando há luz e levanta-se para se alimentar de sangue humano quando as trevas começam a aparecer nos horizontes. O continente europeu conhece-o bem, foi devastado duas vezes por sua causa e assiste agora aos sinais do seu reaparecimento. Já se começa a enxergar o que o cineasta sueco Ingmar Bergman definiu em um dos seus filmes como o ovo da serpente: o tênue invólucro de membrana que deixa revelar os contornos da víbora que está para nascer.

Discursos de conteúdo eminentemente nacionalista, controle de fronteiras e protecionismo na economia estão pouco a pouco a desafiar os valores de democracia, solidariedade, não discriminação e cooperação sobre os quais se construiu a União Europeia. Os legítimos fascistas já se revelaram na Hungria, na Polônia e na Grécia e os de extrema direita ou apenas direita nos casos da França, Inglaterra, Alemanha e Holanda.

 

Os senhores da direita e o futuro da Europa

Os senhores da Direita são hoje uma ameaça para o futuro da União Europeia. E da existência do euro, sua moeda. Eles combatem a imigração e o acolhimento de refugiados, cada um deles glorifica um nacionalismo exacerbado, as tradições do seu país e obscuras teorias sobre política, relações internacionais e a própria organização da sociedade. Há pelo menos um deles, Matteo Salvini, , que num exagero retórico bem italiano considera a moeda única um crime contra a humanidade.

Já disse aqui que todos os países da Europa – com exceção da Irlanda, Luxemburgo e Malta – contam com extremistas da Direita em seus parlamentos. A grande e dramática pergunta é se este pêndulo na direção das grandes ameaças vai continuar a apontar nessa direção por muito tempo ou se voltará a pender para os ideais de democracia, solidariedade e justiça social que inspiraram a criação da União Europeia. Os próximos anos é que vão dizer.

***

Novembro

(Arte Carta Maior)

Uma sombra negra

A crise geral do capitalismo de 2008 assinalou o fim da era de crescente progresso nos países da Europa. Aumentaram o desemprego e as dificuldades financeiras, levando ao que os economistas chamam de austeridade fiscal, o controle de gastos dos governos. A diminuição do padrão de vida trouxe insatisfação, ao que se juntou a crise migratória dos países da África e do Oriente Médio. Os que fogem das guerras, da fome e das perseguições passaram a procurar refúgio nos países europeus. E as populações locais veem isto como ameaça aos postos de trabalho e sobrecarga dos serviços públicos. Acirraram-se o racismo e a xenofobia. As redes sociais e a disseminação que elas proporcionam de conteúdos discriminatórios, xenófobos e violentos, junto com falsas notícias, ajudaram a montar um quadro de ressentimentos. Um cenário perfeito para o aparecimento de políticos oportunistas, ideologias radicais e o consequente fortalecimento dos partidos de extrema direita. Eles já estão no governo em dez países da União Europeia e representados em outros doze parlamentos nacionais.

 

A cultura de violência que é a marca da direita

Desde os camisas negras de Mussolini na Itália e da ação das SA (Sturmabteilung-Tropas de Assalto) do Partido Nazista alemão, os movimentos e partidos da direita na Europa fazem uso da violência como linguagem política. É uma forma de supremacia e intimidação dos adversários. Destes, os mais visados são “os comunistas”, designação genérica de que fazem uso para os movimentos que os enfrentam no âmbito dos sistemas democráticos que os fascistas pretendem destruir. Conhecemos isto na realidade política do Brasil atual.

***

O naufrágio da humanidade

A foto de um pequeno menino morto, batido pelas ondas, numa triste praia turca, chamou a atenção do mundo para a crise dos refugiados em um dos seus momentos mais dramáticos, no ano de 2015. O menino morto era Aylan Kurdi, curdo, de três anos. Estava vestido como se fosse para uma festa de aniversário de um coleguinha do jardim de infância mas na verdade empreendera a travessia do Mar Mediterrâneo, junto com a família, cuja entrada havia sido negada no Canadá. Tentava a Europa. Apenas o pai salvou-se do naufrágio em que morreram Aylan e toda a família. “Um naufrágio da humanidade”, bradaram alguns jornais e as redes sociais. Naquele ano, 2.600 pessoas morreram no Mar Mediterrâneo seguindo o mesmo roteiro de Aylan, tentando chegar à Europa em busca de salvação e reconstrução de suas vidas devastadas pela guerra.

 

O ataque dos inimigos da paz

Berço de civilizações e palco de tantas guerras, a Europa pretendeu atingir um novo patamar de paz e bem estar social baseado na solidariedade e ajuda mútua entre os Estados. Mas é hoje um projeto ameaçado pelos mesmos sentimentos nacionais e também de forte competição, causas dos desencontros que no passado desembocaram nas históricas e sangrentas guerras entre as nações.

Sem mencionar todos os conflitos anteriores, desde o Século 18, quando se deu a chegada do Iluminismo e, portanto, o chamado império da razão, pelo menos vinte grandes guerras assolaram o território europeu. A maior delas foi a de 1914 a 1918, que veio a se desdobrar na outra que durou de 1939 a 1945.

***

Dezembro

 

A resistência das esquerdas

Ao fim da Segunda Guerra Mundial os partidos comunistas tiveram um importante papel na política de quase todo os países europeus. Eles vinham do combate ao nazismo liderando as ações clandestinas de resistência, perseguidos como terroristas pelos governos colaboracionistas ou ocupados pelos gauleiter nazistas. Os movimentos de esquerda hoje existentes na Europa tiveram sua matriz naqueles partidos e numa tradição que vem desde a Revolução Russa e suas dissidências.

 

A sobrevivência das esquerdas em campo minado

As esquerdas se organizam para enfrentar os vários movimentos de direita que nos últimos anos têm se fortalecido e hoje representam uma ameaça à própria sobrevivência da União Europeia. Em 2004 foi fundado em Roma, com sede em Bruxelas, o Partido da Esquerda Europeia (European Left/Gauche Europeéne), formado pela maioria dos partidos comunistas e seus sucessores além de diversos outros movimentos da esquerda anticapitalista. São ao todo 24 diferentes partidos, entre eles o Syriza da Grécia, o Bloco de Esquerda de Portugal, Unidade de Esquerda do Reino Unido, Partido dos Trabalhadores da Hungria. Além de diversos outros que se classificam como observadores, entre eles o PT brasileiro.

 

As agitações que tiram o sono da Europa

Eleições no Reino Unido sob o signo do Brexit e grande vitória da direita; agitações com grandes protestos na França; posse confusa de um governo à esquerda na Espanha e o fortalecimento cada vez maior dos extremistas de direita na Polônia e na Hungria, além de tantas outras manifestações de irracionalismo, tiram o sono da Europa. O velho continente que sonha com a paz conduzida pela união entre os países que o compõem estremece e regurgita diante do que parece uma certa indigestão política.

 

Notícias do planeta enfermo

A Cimeira do Clima, realizada em Madrid de 2 a 13 deste mês de dezembro, foi um acontecimento midiático na Europa. Cinquenta chefes de estado estiveram presentes, a ativista sueca Greta Thunberg também compareceu, o que chamou ainda mais a atenção da mídia. Delegações de 196 países, as mais altas autoridades da União Europeia e inúmeras instituições sugerem que praticamente todo o mundo se reuniu na capital da Espanha para discutir as ameaças à vida neste velho planeta. Era para ser um sucesso. Mas no entanto foi um fracasso, dizem todos os comentaristas que estiveram ou não presentes em Madrid.

A participação brasileira, na pessoa do Ministro Ricardo Salles, limitou-se a pedir dinheiro aos países ricos sob alegação de que seria usado para a preservação das florestas no Brasil. De volta a seu país, o Ministro declarou que a conferência “não deu em nada”.



Conteúdo Relacionado