Carta Maior 20 anos

Retrospectiva 2020: o novo velho continente e suas contradições

Essa retrospectiva faz parte das comemorações de 20 anos de Carta Maior

21/07/2021 19:06

(Reprodução/Tempo.pt)

Créditos da foto: (Reprodução/Tempo.pt)

 
:: Este texto faz parte do especial que comemora os 20 anos da Carta Maior ::

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Pouco tempo depois da passagem do ano uma nova doença atacou o mundo que, surpreendido, trouxe à memória coletiva o clima das pestes medievais. E começou a correr contra o tempo na busca de uma vacina enquanto a covid-19 amontoava suas vítimas.

No plano político o Reino Unido dava um salto no desconhecido com o Brexit, a Espanha finalmente conseguia empossar um novo governo, os trabalhadores franceses entravam em greve e os refugiados vindos da Síria em guerra civil, do Afeganistão, de Bangladesh e do Paquistão procuravam asilo nos países europeus. Levas de gente em desespero a chegar serviam de argumento aos partidos da direita para assustarem as classes médias com o que denominam uma invasão da Europa. E incentivavam o racismo que, de uma forma ou de outra, nunca deixou de existir neste continente tantas vezes conflagrado pelo ódio.

A imagem do Brasil sob Bolsonaro derretia-se no mundo e o Velho Continente manifestava sua perplexidade com a destruição das florestas da Amazônia e assistia em pânico as mudanças climáticas interferindo no dia-a-dia de todos os países.

O Euroceticismo, a descrença na União Europeia, ameaçava o projeto civilizatório. Eurocéticos de direita diziam que a Europa unida ameaça a independência dos países e os de esquerda a acusam por sua adesão ao neoliberalismo.

Essa retrospectiva faz parte das comemorações de 20 anos de Carta Maior. Seguem trechos e links dos artigos, de 2020, de Celso Japiassu em O novo velho continente e suas contradições.

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Janeiro

 


As inquietações da Europa em 2020

Pouco tempo depois da virada do ano um novo vírus apareceu na Europa vindo da China. Trouxe consigo uma doença desconhecida que iria desestabilizar o mundo.

O ano começou na Europa sob o signo do Brexit, que ocorrerá a 30 de janeiro. A opinião política no continente é no sentido de que o Reino Unido está a dar um salto no escuro. Terá de reorganizar a sua economia e as relações comerciais com o continente. O economista francês Thomas Piketty lembra que, no referendo do Brexit, apenas 30% que representavam os mais favorecidos em termos de rendimentos, educação e patrimonio votaram para ficar na União Europeia. Os outros 70% votaram contra. E adverte que há um divórcio entre as classes trabalhadoras, a classe média, a construção da Europa e a globalização. | bit.ly/3rqkpk4

(Sofia Martins Santos/Shutterstock)

A Europa, a pobreza e a miséria

Um continente rico, composto de países ricos onde impera um sistema de bem estar social e que aprendeu, depois de tantas guerras e crises por que passou, a vencer a pobreza e a miséria das suas populações. Esta é a imagem que a Europa vendeu para o mundo e na qual o mundo passou a acreditar. Mas é uma ilusão porque a Europa, hoje, dominada por sistemas neoliberais na economia e à direita na política, contabiliza mais de 120 milhões de pessoas que vivem na fronteira da miséria numa população de pouco mais de 500 milhões de habitantes nos 28 países que compõem a União Europeia. Ou seja, perto de 25 por cento das populações da Europa vivem no limite da carência total de meios de sobrevivência. | bit.ly/36PoFjR

(Reprodução/Contropiano.org)

O atoleiro espanhol

Com a diferença de apenas dois votos, o PSOE-Partido Socialista Operário Espanhol conseguiu finalmente ser confirmado no governo da Espanha. Foram nove meses de espera desde as eleições de abril do ano passado, vencidas pelo partido, mas sem que pudesse obter maioria no parlamento para garantir sua posse, o que acabou por acontecer no último dia 8 de janeiro deste ano. O incômodo impasse só foi resolvido depois de obtido o apoio do Unidas Podemos, coligação de esquerda formada pelos partidos Podemos, Izquierda Unida e o ecologista Equo. Pedro Sanchez, líder do PSOE, é agora, oficialmente, o Primeiro Ministro espanhol. “Foi rápido, simples e sem dor. A dor virá depois”, permitiu-se à tirada com toque de humor o rei Filipe VI logo após as formalidades da posse. A dor a que se referia o rei são os problemas a serem enfrentados, entre eles a crise territorial representada pelas reivindicações dos vários movimentos de independência das províncias espanholas. | bit.ly/3zpbaDM

 

As ameaças do Oriente

A União Europeia considera que o seu maior esforço diplomático, no momento, é diminuir a tensão no Oriente Médio. O ambiente político na região aumentou o risco de conflitos de grande intensidade depois do assassínio do General Soleimani perpetrado pelos Estados Unidos. O alto representante da UE para os negócios estrangeiros e política de segurança, o catalão Josep Borrel, apelou ao Irã para manter os compromissos assumidos no acordo nuclear de 2015. Manifestou também o receio de que a situação atual promova o ressurgimento do Estado Islâmico e desestabilize toda a região. Outro grande desafio vem do Norte da África, com a necessidade de encontrar uma solução para o conflito na Líbia, país que foi promovido ao caos depois da intervenção internacional liderada pelos Estados Unidos que derrubou e matou seu líder Muammar al-Gaddafi. Assim como fez no Iraque, onde derrubou e enforcou Saddam Hussein. É o que podemos dizer que se trata do homicídio como instrumento de prática geopolítica. | bit.ly/3iA1Ohx

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Fevereiro

 


A greve como forma de luta

A França continua sob a agitação das greves de várias categorias. A principal motivação dos trabalhadores franceses é defender o sistema de aposentadorias e contra o aumento da idade para ter direito ao benefício, entre outras medidas que significam prejuízo para quem trabalha. São as reformas neoliberais do presidente Macron que causam tanta repulsa, o que não ocorreu no Brasil em situação muito parecida e onde a reforma da previdência foi aprovada sem protestos dos que sofreram com os prejuízos. Assim também como no Brasil, onde uma importante greve dos petroleiros, que contesta as ações de um governo agressivamente reacionário, é praticamente ignorada pela imprensa, a mídia francesa tem dado pouca cobertura ao movimento que já paralisou o país, afetou até o turismo e configura-se como a mais longa das greves trabalhistas da história da França. | bit.ly/3wVHOLm

 

Steve Bannon e a ofensiva da extrema direita

A ofensiva da extrema direita, herdeira ideológica do nazi-fascismo, tenta ocupar espaços no solo da Europa, onde um dia a sua matriz construiu uma triste e trágica história. Países como a Polônia e a Hungria estão virtualmente ocupados e vários outros abrigam partidos que, dentro da democracia, trabalham para desestabilizá-la e substituí-la por regimes populistas, radicais e reacionários. Um ardiloso agente dessa ação que pretende subverter por dentro os sistemas democráticos europeus chama-se Steve Bannon. | bit.ly/2Tx1hEI

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Março

 


A tragédia dos refugiados e as novas ameaças do Oriente

Volto ao assunto dos refugiados e me refiro ao desespero de milhares de pessoas que se encontram hoje, agora, nas fronteiras da Turquia tentando chegar ao abrigo dos países da União Europeia. A Turquia tem funcionado como uma comporta das levas de retirantes que partem da Síria mas também do Afeganistão, de Bangladesh e do Paquistão. Procuram asilo na Europa e são rejeitados. Os sírios, principalmente, a partir da chegada à Turquia.

A Turquia tem usado os refugiados como massa de manobra e ora abre, ora fecha suas fronteiras para dar ou impedir a passagem dos fugitivos da guerra, famílias com crianças, idosos doentes e toda sorte de desesperados. É uma tragédia humana que a humanidade procura não ver. A mobilização de apoio e suporte de opinião pública na Europa diminui na medida em que a angústia daquelas famílias vai sendo retirada das manchetes ou caindo no esquecimento da mídia. | bit.ly/3iA1P55

 

Refugiados: o mais trágico momento

Fugitivos da fome, da miséria e das guerras violentas em seus países, os 80 milhões de refugiados que se encontram na Europa e nos países do mundo enfrentam um novo inimigo. Uma outra ameaça à vida, mais insidiosa do que aquelas outras que tentaram deixar para trás em fugas desesperadas que incluíram mergulhos no desconhecido e travessias por mares distantes muitas vezes fatais. O Covid-19, tão mortal quanto as perseguições das quais pretenderam escapar, inimigo traiçoeiro porque invisível, ronda os campos e acampamentos espalhados pela Grécia, Turquia e outros países da Europa. E que deixa um rastro de vítimas onde tem atacado, em qualquer lugar do mundo. | bit.ly/3kHCxo9

 

A Europa em solidão

As praças vazias e as ruas abandonadas constroem hoje a paisagem das cidades da Europa. Vem à lembrança um antigo soneto do poeta parnasiano brasileiro Raimundo Correia cujo primeiro verso, “Aqui outrora retumbaram hinos”, evoca tempos de glórias passadas. Enquanto o olhar mira a solidão dos lugares quase mortos. Das fronteiras dos Montes Urais até a curva d’A Corunha, na Espanha, que para os antigos marcava o fim do mundo ou onde a terra se acaba e o mar começa, como dizia Camões referindo-se ao Cabo da Roca. | bit.ly/3eKvjw6

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Abril

 


O uso da pandemia para dar um golpe

Os jornalistas estão amedrontados, pois sentem-se sob ameaça de censura e perseguições. As liberdades foram suspensas. Os partidos de centro esquerda e de esquerda esboçaram alguma reação mas são minoritários e não dispõem de base social que possam mobilizar a ponto de fazer pressão sobre o governo. A presidente da Comissão Europeia, a alemã Ursula von der Leyen, afirmou num pronunciamento oficial que os valores fundamentais da União Europeia têm de ser respeitados mesmo em tempos de emergência. Foram estas as primeiras reações diante do golpe aplicado no que restava da democracia húngara pelo seu Primeiro Ministro protofascista no último dia do mês de março que passou. | bit.ly/3rqLfbL

 

A Europa e o mundo depois da pandemia

A doença começou na China mas o epicentro transferiu-se rapidamente para a Europa, onde chegou em 24 de janeiro. O primeiro país em que se verificaram os primeiros casos foi a Itália, onde o vírus atacou com força avassaladora. E espalhou-se pelo resto do continente. A velha Europa, devastada no passado por violentas guerras e que teve forças para se reconstruir, enfrenta agora uma nova devastação e ninguém sabe quando deve começar a se recuperar. Mas a pergunta está na boca ou na cabeça de todos: o que vai ser a Europa e o mundo depois deste brutal ataque de um vírus até então desconhecido? Uma praga que interrompeu a produção industrial, paralisou as escolas e os trabalhadores e desorganizou a economia dos países. | bit.ly/3zmy8Lv

 

A face horrível

Em situações de crise, quando se extremam os sentimentos profundos, a humanidade revela a sua face verdadeira, normalmente oculta sob o disfarce social ou pelo verniz cultural. E a face revelada é a de uma espécie dominada pelo medo insano, preconceitos e na maioria das vezes pela ignorância ontológica. Na Grécia, os sacerdotes de hoje afirmam com o testemunho de Deus que a comunhão, onde todos os fiéis provam da mesma colher, não transmite o vírus da Covid-19. O Santo Sínodo grego emitiu um comunicado em que afirma que a comunhão é com o corpo de Deus e o corpo de Deus não tem vírus. O Bispo Serafeim, do Pireu, disse que as pessoas sem fé, elas sim, correm mesmo o risco de se infectar. O ex-vice ministro da coligação de esquerda Syriza, Pavlos Polakis, contradiz afirmando que “não se pode deixar que as pessoas bebam da mesma colher e dizer-lhes que não há perigo – isto é talibanismo cristão”. | bit.ly/3Buvm92

 

O terror que não terá fim

Não é só a pandemia do novo coronavírus um dos grandes males do mundo a trazer a ameaça de doença e morte. Outras misérias pairam também de forma sombria, além do coronavírus, que em algum momento será vencido e dominado. Mas este não é o caso de outras pandemias que poderão atacar. E também da exploração dos povos e nações que conduz suas populações ao desespero. A face mais visível desses trágicos eventos são as migrações forçadas, com seus milhares de refugiados, e a violenta militância política expressa pelo terrorismo. | bit.ly/3zhFyj2

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Maio

 


O Brasil, a Europa e o fascismo

A imagem do Brasil na Europa e em todo o mundo nunca esteve em patamar tão baixo. Faz poucos anos que o país era visto como uma promessa para o futuro e todos acreditavam que o gigante latino-americano finalmente despertara para a construção de uma grande civilização nos trópicos. Mas agora a decepção ocupa o lugar da esperança de todos. Dos absurdos que têm caracterizado o atual governo à alta incidência da pandemia que aos poucos constrói o país como epicentro global da Covid-19, o noticiário veiculado na mídia europeia desconstrói o Brasil como nação de alguma importância no mundo de hoje. | bit.ly/2V3zjk4

 

O outro nome da infâmia

Antes da pandemia, era comum ver nas ruas das principais capitais da Europa - e vai voltar a ser vista depois dela - a presença de refugiados africanos a procurar fugir da miséria vendendo bugigangas e produtos falsificados das grandes marcas comerciais preferidas da burguesia internacional. A correr da polícia, servindo a máfias organizadas, alvos de preconceitos e desprezo, são a face mais visível do drama dos imigrantes e refugiados legais ou, na maioria, ilegais. Na sua miséria denunciam outra tragédia maior e mais antiga, a do colonialismo europeu no continente africano. Cruel e desumana, marcada pela ganância e pela violência, a ocupação nos tempos modernos de noventa por cento do território africano pelas potências europeias responde hoje pelas migrações das populações que o colonialismo deixou ao abandono em países devastados. | bit.ly/3iCWEkG

 

Após a doença, a crise

Depois da crise do coronavírus virá a crise financeira. Até os economistas, que são mestres em errar previsões, parecem estar certos desta vez. Pois há uma certa unanimidade quanto a essa opinião. Resta saber qual será o tamanho dessa crise, pois a economia dos dias atuais orienta-se pelo que ocorre no mundo das finanças. Os países da Europa ocupam-se agora em proteger seus bancos e procuram saber o quanto será profunda essa outra tragédia que ameaça o planeta. | bit.ly/3zqeoqf

 

O povo que o mundo esqueceu

Eles têm origem misteriosa, pois parecem ter vindo da Índia mas alguns estudiosos dizem que não. Teriam vindo da antiga região da Caldéia, no território onde hoje se encontra o Iraque. É certo, no entanto, que há novecentos anos começaram a chegar à Europa percorrendo o caminho dos Balcãs, passando pela Bulgária. Hoje estão espalhados pelos vários países do Continente europeu e também pelo mundo. São quase invisíveis, perambulam pelas ruas das grandes cidades, as mulheres com seus vestidos longos abordam os turistas e oferecem a leitura e a revelação do futuro. Marginalizados e alvos de fortes preconceitos, procuram a subsistência da forma que lhes for possível, nem sempre por meios absolutamente legais. São os ciganos, também chamados nas diversas regiões do mundo de romi, boêmios, gitanos, romnichals, calons, calés ou calós. O termo cigano é considerado por alguns deles como um insulto. Sua população na Europa é estimada em 11 milhões de pessoas, o que representa um número superior à população de Portugal ou o dobro dos habitantes da Noruega, por exemplo. Representam o maior grupo entre as minorias existentes. | bit.ly/36UstA6

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Junho

 


A pandemia e o colapso da direita

Quando Lula disse em sua conta no Twitter que a pandemia do coronavirus deixou o capitalismo a nu e que o sistema econômico está morto, seus inimigos e adversários políticos distorceram a sua frase. Espalharam na mídia cúmplice que ele havia saudado a doença, como se tivesse alguma alegria com a tragédia. Lula viu-se obrigado a explicar o que disse e esclarecer o que devia estar claro desde o princípio: “A tragédia do coronavírus expôs à luz do sol uma verdade inquestionável: o que sustenta o capitalismo não é o capital, somos nós, os trabalhadores”.

Graças à pandemia (e este graças não significa prazer pela sua ocorrência), assiste-se agora na Europa a uma realidade um pouco diferente de antes: a direita política perde força e influência por suas posições no mínimo ambíguas em relação ao vírus em praticamente todos os países. | bit.ly/3zrWDXT

 

A segunda guerra fria

As potencias hegemônicas não admitem competição nem desafios econômicos ou geopolíticos a sua liderança. Foi por isso que Roma destruiu Cartago. E houve tantos conflitos entre a França e a Prússia e depois entre a França e a Alemanha unificada nessa disputa por domínio político. Uma competição que provocou duas guerras mundiais de altíssimo custo para a Humanidade e que devastou o continente europeu.

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial os Estados Unidos sustentam a sua posição hegemônica primeiro na disputa com a União Soviética na denominada Guerra Fria, que manteve o mundo em alerta e suspense durante quase 50 anos. Agora, com o aumento das tensões entre os Estados Unidos e a China, os analistas são unânimes em identificar o advento de uma segunda guerra fria. Em jogo está o predomínio político, econômico e cultural do mundo. Qual será o papel da Europa nesse jogo? | bit.ly/3i1qAs1

 

Protestos contra o racismo mobilizam a Europa

A asfixia até a morte de George Floyd por um policial branco em Minneapolis provocou manifestações não só nos Estados Unidos mas pelo mundo afora, especialmente na Europa, um continente onde o racismo tem crescido nos últimos anos como se fosse uma doença social. É um tema sensível e presente nos diversos países europeus porque a chegada de muitas levas de imigrantes e refugiados vindos da África e do Oriente trazem o assunto para as preocupações da classe média e, em consequência, dos governos. A direita política assumiu o racismo e a xenofobia como plataforma política.

A morte de George Floyd e a sua repercussão faz a Europa encarar mais uma vez os seus fantasmas. O racismo tem representado a má consciência de todo o continente porque está presente em todos os países, em menor ou maior grau. | bit.ly/3rreuLx

 

A chaga do racismo na Europa

As grandes manifestações contra o racismo promovidas nas últimas semanas em diversos países da Europa protestavam contra o assassinato de George Floyd nos Estados Unidos. Mas também se prestaram para uma vez mais a Europa exorcizar os seus próprios demônios. Historicamente considerando-se branca, a Europa é hoje um continente em crescente miscigenação. Os fluxos migratórios vindos da África, do Oriente Médio e dos países asiáticos contribuem para uma diversidade nem sempre bem aceita pelas suas classes médias. E são usados pelos partidos da direita e extrema direita para irrigar o racismo latente que nunca abandonou a Europa e assim se beneficiarem em sua sistemática campanha por influência que tem por objetivo o domínio dos Estados através do poder político. | bit.ly/3hR8PeF

 

Corrupção e fascismo

Em Cabeceiras de Basto, na região do rio Ave, interior de Portugal, o homem que bebia no balcão, ao me identificar como brasileiro, disse “o país mais corrupto do mundo!” Tive espírito para responder de pronto “aprendemos com os portugueses. Somos bons alunos”. Percebi discretos sorrisos dos outros clientes e pouco depois paguei o copo de vinho que havia bebido, despedi-me e segui viagem. Mas havia um certo travo amargo em minha boca que não era do belo e generoso vinho do Douro. Eu entrara mais uma vez em contato com a crua imagem que não só os portugueses mas toda a Europa têm hoje do meu país. A de um país corrupto, fascista e atrasado.

O professor da Universidade do Porto manifestou-me sua preocupação com o fascismo brasileiro representado pela ascensão de Bolsonaro ao governo. Num momento em que os movimentos de extrema direita ameaçam grande parte dos países do mundo, a capitulação da democracia brasileira é um alerta que não pode ser desprezado, ele disse. Os portugueses acompanham com muito interesse o que se passa no Brasil. São bem informados pela mídia local, que mais apropriadamente chamam de comunicação social. | bit.ly/2UrLTtN

 

A era dos crimes cibernéticos

A eleição de Trump nos Estados Unidos, a saída do Reino Unido da União Europeia, sem esquecer a questionada vitória de Bolsonaro no Brasil, sobre todos esses eventos políticos existe a certeza da manipulação do eleitorado através do uso da internet. O mundo vive uma época em que a conexão instantânea, ao mesmo tempo em que reduz as distâncias e conecta as pessoas, revela também o que o ser humano tem de pior ao proporcionar o surgimento de um novo tipo de criminalidade. A fraude eleitoral é apenas um desses novos crimes, entre tantos outros que a sinistra imaginação do ser humano não cansa de planejar. | bit.ly/3rp28np

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Julho

 


Verdes. Os partidos do fim do mundo

A consciência de que o mundo caminha para o desastre e, portanto, os mitos sobre o fim do mundo podem não ser exatamente produtos da imaginação pessimista da humanidade, inspiraram o aparecimento dos partidos verdes. Inicialmente na Europa, ampliaram-se para praticamente todos os países, que hoje possuem um movimento repleto de advertências, reivindicações e agitações promovidas pelos verdes. No continente europeu, eles estão em 29 países, dois a mais do que possui a própria União Europeia.

Não é exatamente uma tarefa fácil classificar os verdes no espectro político. Em alguns países eles estão mais à direita, em outros mais à esquerda e têm feito alianças políticas inclusive com partidos de direita para disputar eleições. No geral são razoavelmente bem sucedidos e apresentam tendência de crescimento. Seria mais adequado talvez defini-los quase todos como de centro esquerda, embora a origem de um dos partidos pioneiros, o partido verde alemão, seja as lutas anticomunistas que anteciparam o fim da Deutsche Demokratische Republik, a Alemanha Oriental, e a unificação do país. | bit.ly/3eKCjZJ

 

Um século curto demais. A resistência

Alguns historiadores costumam afirmar, num aparente paradoxo, que o Século XX foi o mais breve da História porque começou em 1918 e encerrou-se em 1989. São realmente duas datas simbólicas e marcantes. Pois 1918 assinala o término da Primeira Guerra Mundial, que destruiu e reconstruiu a Europa existente até então. Em 1989 deram-se a derrubada do muro de Berlim e o fim da União Soviética, refazendo mais uma vez a configuração do mundo.

Mas é indiscutível que a Revolução Comunista, que ocorrera em 1917, foi o mais importante marco do século que se iniciava, pois exerceu forte influência sobre todos os países, especialmente os da Europa. Foi quando começou realmente o Século XX e as suas transformações políticas sob as quais até hoje estamos vivendo. Foi um século à sombra de duas guerras mundiais e de uma angustiante e ameaçadora Guerra Fria. E foi a presença soviética – e reconhecido sacrifício - que garantiram a vitória dos Aliados na Segunda Guerra. | bit.ly/2V3MNfE

 

Um germe que ameaça a Europa

Há uma ameaça rondando a Europa e o seu projeto de união. Trata-se do que se convencionou chamar de Euroceticismo, ou a descrença na União Europeia. Um preocupante sinal de alarme foi a vitoriosa campanha do Brexit promovida pela extrema direita do Reino Unido. Pode ter sido apenas o início de um processo que pode conduzir à destruição. Alimentado pelos partidos da direita, o movimento que pretende desfazer a união de 27 países do continente tem também os seus defensores à esquerda, embora em menor número e que, por razões diferentes, não acreditam numa Europa Unida.

Os partidos conservadores de direita fazem oposição por acreditarem que a União Europeia compromete a soberania e a identidade nacionais; os de esquerda a acusam de ser uma organização neoliberal, de não ter legitimidade democrática e transparência e de servir aos donos do capital em prejuízo dos trabalhadores. Creio que no caso das esquerdas há uma certa confusão entre os cânones do capitalismo e os da Europa em si. | bit.ly/3eHbBRV

Família Real britânica

As monarquias. Glamour e decadência

A evolução da humanidade não se dá de maneira igual na face do planeta. Tanto que testemunhamos, em qualquer momento da História, a existência de sociedades de civilização contemporânea com outras que ainda vivem na pré-história. Convivem hoje no mundo as experiências interespaciais e da mais avançada ciência com grupamentos que se abrigam nas selvas distantes, bem longe do que se convencionou definir como sociedades civilizadas, que eles desconhecem. Algumas sociedades ainda se encontram na Idade Média. Não surpreende, portanto, a existência em modernos países da Europa de governos que ainda trazem o formato das monarquias geridas por uma classe aristocrática fora do seu tempo. Com hábitos e comportamentos distintos das suas populações e também com a dose periódica de surpreendentes escândalos que pouco se diferenciam dos seus congêneres medievais. Não preciso falar das monarquias absolutas do Médio Oriente com seu rosário de crimes bárbaros pois nosso tema é a Europa.

Depois de vários escândalos financeiros, Juan Carlos I, de nome completo Juan Carlos Alfonso Víctor María de Borbón y Borbón-Dos Sicilias, rei de Espanha, viu-se forçado a abdicar em favor do filho, que assumiu com o nome de Felipe VI. A monarquia espanhola, destituída pela república, foi preservada por Franco desde a guerra civil. O velho ditador, que governou ele mesmo como um monarca absoluto, devolveu o trono à família real pouco antes de morrer e passou a chefia de Estado a Juan Carlos. | bit.ly/3hVlWf1

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Agosto

 


Os sociais democratas e a miragem do centro

Eles surgiram como alternativa aos partidos de esquerda, principalmente para fazer frente ao movimento comunista que liderava a causa operária. A ponto de Stalin ter declarado que a social-democracia é a pata esquerda do fascismo. Desde que se organizaram em fins do século XIX nos países da Europa, os sociais-democratas têm sofrido altos e baixos e, nos últimos anos, experimentado derrotas expressivas enquanto fornecem eleitores para o populismo conservador.

Apresentam-se como uma força de centro ou de centro esquerda e procuram ser o fiel da balança do espectro político. Às vezes torna-se difícil identifica-los à primeira vista quando eles se denominam socialistas, principalmente. Têm sido sempre uma alternativa de poder por contar com o eleitor que busca o equilíbrio no panorama político de cada país. Mas na maioria das vezes sua prática é a de somar forças à direita e, dessa forma, contribuir para reforçar a ação reacionária da extrema direita. | bit.ly/3wQtCmU

(Reprodução)

A devastação

Há seis meses a humanidade está aprisionada em um clima de como se vivesse uma história de literatura de antecipação, nome pelo qual se denominam também os contos de ficção científica. As alterações foram profundas e surpreendentes na vida das populações de todos os países.

O mês de agosto, temporada das férias de verão na Europa, é a época de viagem das famílias a sustentar a vigorosa indústria do turismo do continente. Mas este ano agosto está paralisado na perplexidade e no medo de uma doença desconhecida, à espera de uma vacina ou remédios que possam trazer de novo a possibilidade da vida sem sobressaltos. A juventude se rebela e sai para festejar em grandes grupos o encontro nos pontos de acasalamento da movida da noite. E passa a ser acusada de espalhar a doença, transportar o vírus para as próprias casas e colocar os mais velhos em perigo de morte. | bit.ly/3hXtZbg

 

O fascismo ameaça a democracia na Europa

O conflito ideológico que sempre existiu e contrapõe os movimentos de esquerda aos da direita aprofunda-se, nos dias atuais. Uma extrema-direita agressiva e muitas vezes violenta emula na Europa o Klu-Klux-Kan americano ao lançar mão da prática da intimidação. O linchamento de negros, o fogo dos incêndios e a cruz em chamas tem sido a marca histórica do KKK, sigla pela qual se tornou lôbregamente conhecida aquela organização de supremacistas brancos, desde que surgiu no Tennessee, após a Guerra Civil, para reprimir os direitos dos ex-escravos recém libertados e a sua ascensão social. Foi a semente deletéria e tóxica do histórico racismo estadunidense que até hoje se faz presente. | bit.ly/3rrkDYi

 

Como a esquerda se organiza para resistir

Diante da ofensiva da direita e da extrema-direita na Europa, as forças de esquerda também se organizam com vistas às disputas eleitorais que prometem ser cada vez mais intensas com tendência a radicalizarem-se. No Parlamento Europeu, os ecossocialistas do Norte da Europa agruparam-se na Esquerda Nórdica Verde e também no Partido da Esquerda Europeia, que reúne partidos comunistas europeus e seus sucessores, junto com outros grupos de esquerda atuantes nos diversos países.

A Esquerda Nórdica Verde fortaleceu-se ao unir-se com o Grupo Confederal da Esquerda Unitária Europeia dando origem ao Grupo Confederal da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Nórdica Verde. Possui 39 deputados entre os 705 que compõem o Parlamento Europeu. | bit.ly/3xWqhnv

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Setembro

 


A pulsão do abismo

Uma história de intervenções muitas vezes desastradas, como foi a criminosa intervenção na Líbia, mas apontada como a mais bem sucedida aliança militar jamais realizada, a Organização do Tratado do Atlântico Norte-OTAN completa em 2020 71 anos. Tem a comemorar fracassos mas também o retumbante sucesso de ter derrotado a União Soviética e feito desaparecer o Pacto de Varsóvia, sua contrapartida organizada pelo bloco socialista para enfrentá-la. Criada durante a Guerra Fria, reunindo além dos Estados Unidos, que a lidera até hoje, o Canadá e os países da Europa, ganhou novo fôlego com o ressurgimento atual da Rússia como potência e ator global de importância no jogo da geopolítica mundial. O Ocidente sentiu-se ameaçado na medida em que os Estados Unidos sentiram-se ameaçados. A competição pela hegemonia entre as nações pode vir a afetar a qualquer momento o precário equilíbrio de uma paz que está sendo permanentemente ameaçada e negociada. | bit.ly/3BvxMnF

(Reprodução)

A negação da vida

Quando o general fascista espanhol José Millán-Astray interrompeu a palestra do poeta e filósofo Miguel de Unamuno, reitor da Universidade de Salamanca, aos gritos de “abajo la inteligencia, viva la muerte”, não bradava apenas um impropério ou fazia mera provocação política. Era o princípio da sangrenta guerra civil e a frase do general enunciava uma cláusula pétrea da ideologia nazifascista e da extrema direita em geral: o culto da violência e a negação da própria humanidade pela adoração da morte.

Essa arraigada crença da extrema direita perdura até hoje no seu negacionismo, expresso atualmente nos movimentos anti-vacina, na recusa a adotar comportamentos de segurança diante da crise do coronavírus e mesmo na ação de governantes como são as constantes declarações e atitudes do presidente brasileiro do momento. | bit.ly/3eIQZZs

(Ilustração de Julia Quenzler)

Assange e a história universal da infâmia

Qualquer que seja o resultado do seu julgamento, que se realiza em Londres, o caso Julien Assange merece um capítulo adicional da História Universal da Infâmia, pois nele estão presentes a vilania, a falta de escrúpulos e a traição de governos, homens e algumas mulheres. E é difícil não olhar para Assange como uma vítima disso tudo. Naquele livro, que muitos consideram sua obra-prima, Jorge Luiz Borges recria, através de personagens intrigantes e também infames, o que tem sido o pior tipo de comportamento humano pelo mundo afora.

Responsável pelo que os jornalistas classificam como o furo do século, qual seja a revelação dos crimes estadunidenses nas guerras do oriente, Assange hoje, depois de uma prisão onde teria sido torturado e quase morto, e um asilo de sete anos na embaixada do Equador em Londres, enfrenta um julgamento suspeito que pode condená-lo a 175 anos de prisão. O que equivale a uma condenação perpétua. E arrisca-se também à pena de morte. | bit.ly/3hrWiek

(Reprodução)

Imigrantes, um mergulho no desconhecido

A Alemanha tem em seu território 12 milhões de imigrantes legais vindos dos mais diversos países. Está em segundo lugar no mundo, depois dos Estados Unidos, entre os que têm acolhido populações estrangeiras. A França tem quase oito milhões e a Espanha quase sete milhões de imigrantes. Estes são apenas três dos vinte e oito países que compõem a União Europeia, de um total de 50 que formam o continente. Esta chegada de povos estrangeiros tem provocado desequilíbrios internos, xenofobia e o crescimento dos partidos de direita oportunistas que procuram fazer capital político disseminando ódio aos imigrantes. | bit.ly/2UxzWCA

Aurora Dourada (REX/Losmi Chobi)

A internacional reacionária ou a onda castanha

Há em gestação uma Internacional Progressista, formada principalmente por partidos de centro esquerda e alguns respeitáveis intelectuais, entre eles Noam Chomsky, Naomi Klein, Yanis Varoufakis e Fernando Haddad, dentre outros, que se declaram defensores da democracia, da solidariedade, da igualdade e da sustentabilidade. Seu principal inspirador é o senador estadunidense pelo Partido Democrata Bernie Sanders. Outros signatários conhecidos são o ex-chanceler brasileiro Celso Amorim, o ex-vice-presidente boliviano Álvaro García Linera, o ator mexicano Gael García Bernal, a escritora Arundhati Roy, o filósofo Srecko Horvat e a alemã Carola Rackete, capitã de embarcação e símbolo do resgate de migrantes no Mediterrâneo. Procuram contrapor-se a uma informal mas nem por isso menos coesa internacional reacionária, liderada por Donald Trump e cujos expoentes internacionais são Jair Bolsonaro, do Brasil; os ditadores do Golfo Mohammed bin Salman, da Arábia Saudita, Hamad bin Isa Al Khalifa, rei do Barhein, Khalifa Bin Zayed Al Nahyan, dos Emirados Árabes Unidos; Abdel Fatah al Sisie do Egito e Benjamin Netanyahu de Israel, no Oriente Médio; Narendra Modi na India e Viktor Orbán na Europa. Na América do Sul, a direita governa além do Brasil na Colômbia, Bolívia, Paraguai, Peru e Uruguai. | bit.ly/3xYsPl9

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Outubro

(Olivier Hoslet/EPA)


A crise da Europa

O grande projeto da União Europeia está em crise e mesmo a sua sobrevivência encontra-se ameaçada. Sua existência é fruto de um processo histórico e do idealismo de alguns políticos dos principais países, a se destacar a França e a Alemanha. Foi uma ideia que se destinava antes de tudo a assegurar a paz num continente cansado de tantas guerras. Sua criação é fruto da experiência vivida com os constantes conflitos que levaram a duas guerras mundiais. E também das contradições geopolíticas que conduziram a uma infinidade de choques entre as nações da Europa. Os princípios que lhe foram definidos são os de cooperação, não discriminação, solidariedade e democracia. Esses valores são questionados hoje pelos partidos da direita e da extrema direita que exploram as insatisfações populares para retomar os discursos nacionalistas, de controle das fronteiras e de protecionismo econômico. | bit.ly/3eKlgal

(Reprodução)

O vírus e o comércio da saúde humana

O ataque do coronavírus, provocando uma doença nova e mortal que atacou todas as regiões do planeta, trouxe também consequências no pensamento e em todas as atividades humanas. Como não poderia deixar de ser. Durante muitos anos, no futuro, serão lembrados estes tempos difíceis, sombrios e incertos. É um ataque que veio coincidir com um momento em que o mundo parecia tentar reorganizar-se ao reconhecer uma crise, também ela pandêmica, na política, na cultura, no meio ambiente, nos costumes, na economia. Um tempo dos monstros, como lembrou Gramsci. Quando o velho está em vias de morrer e o novo ainda não nasceu. | bit.ly/3hTEvzX

O relógio 'Metronome', na Union Square, em Nova York, mostra o tempo que resta para lutar contra o aquecimento global (The Climate Clock/Twitter)

As profecias do fim do mundo

Em todos os encontros oficiais para tratar do clima, nos editoriais da imprensa, em todas as discussões sobre o assunto e mesmo diante da opinião pública inernacional o Brasil já foi condenado como o grande vilão, um dos maiores responsáveis pela ameaça à vida no planeta. A Europa vai rejeitar o acordo comercial com o Mercosul, que levou vinte anos de negociações, por causa da posição do Brasil diante dos problemas do meio ambiente. Prejuizo para os países sul-americanos. A condenação tem como causa não apenas a destruição das florestas, dos rios e dos pântanos criadores mas também pela indecente posição do governo brasileiro diante de um problema que o mundo inteiro considera muito grave porque se refere à própria sobrevivência das espécies, entre elas a humana. | bit.ly/3roMNmG

(EPA)

A força da segunda onda na Europa. Notícias do front

Aproxima-se o gelado inverno europeu, a esta altura já anunciado por um outono frio e chuvoso. Ao mesmo tempo em que o vírus da pandemia, aparentemente sem controle, ataca numa segunda onda que parece mais rigorosa do que foi nos primeiros dias. Já são mais de 6 milhões o número de infecções na Europa contabilizando mais de 200 mil mortes.

Foram oito mil mortos em apenas sete dias. É o pior balanço da tragédia na Europa em uma única semana.

Irlanda e País de Gales foram os primeiros a decretar um novo confinamento total da população. As pessoas só podem sair de casa para trabalhar ou estudar. Os pubs irlandeses permanecem fechados, o que traz uma atmosfera depressiva a cidades como Dublin, Bray e Cork, acostumadas a brindar nos bares a alegria da vida, hoje apenas uma lembrança. As proibições vão permanecer até o princípio de dezembro, dizem as autoridades. 2020 tem sido um ano difícil e ainda não chegou ao fim. | bit.ly/31MSi2O

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Novembro

 


Islã, o fantasma que assusta a Europa

Entre os fantasmas que rondam a Europa, um deles é o Islã. A forte religião de Maomé reúne a fé dos povos de Alah em torno da divindade e promete a seus fiéis a libertação das amarras do mundo. É também a força que dá suporte à guerra permanente que tem a missão de converter todos os infiéis. Nas modernas guerras santas – a Jihad – simboliza também energia e motivação espiritual para o enfrentamento dos inimigos responsáveis pelo massacre histórico dos povos do Islã desde o tempo das Cruzadas.

A invasão dos países do Oriente pelos interesses da geopolítica dos países ocidentais tem sido levada a efeito com o sacrifício dos povos, notadamente árabes, habitantes de uma região rica em petróleo. As guerras promovidas pela estratégia de dominação das fontes de petróleo têm sido a principal causa do êxodo de refugiados em direção à Europa. E a Europa teme o que considera uma invasão do Oriente. Os medos das classes médias europeias têm por sua vez alimentado o crescimento da extrema direita política, cujos partidos cada vez mais se aproximam do poder em nome da defesa dos valores tradicionais do Ocidente. Promovem a rejeição dos imigrantes, o medo do terrorismo e um conservadorismo reacionário que ameaça o futuro dos valores humanistas que têm sido um dos patrimônios civilizacionais e também políticos da Europa. E dão assim continuidade a um confronto que por sua vez anuncia conflitos sem fim e a escalada da violência. | bit.ly/3rrMebL

(S. Babbar/DPA)

A onda de crimes na Europa

Os autores de formação marxista são unânimes em afirmar que há uma relação inversamente proporcional entre Estado Social e Estado Penal. Onde for menor o desenvolvimento social, maior a ocorrência de crimes. Se a criminalidade está associada à exclusão, apresentando os maiores índices onde é maior a pobreza e a miséria, a rica Europa desmentiria essa afirmação. A miséria não é definitivamente a marca desse continente que tem enriquecido ao longo da história, muitas vezes à custa da pobreza dos outros, a exemplo dos casos da África e parte do Oriente e da Ásia, onde se encontram as regiões mais pobres do planeta. É possível afirmar, no entanto que a riqueza sempre foi canalizada para as mãos de poucos. Esta é também uma afirmação que é quase um truísmo de tão verdadeira. | bit.ly/3hXs1Y4

(Reprodução)

A Europa e a derrota de Trump

A derrota de Donald Trump vai repercutir internacionalmente, como se sabe, e terá profunda influência na União Europeia, que acompanhou em suspense as informações que chegavam das eleições americanas. E agora aguarda pelos seus desdobramentos. Os mais ansiosos países à espera do que vai acontecer são os hoje governados pelos partidos de direita e extrema direita, a exemplo da Hungria, Polônia, Áustria, República Checa, entre outros, ou aqueles que contam com partidos radicais de direita em seus parlamentos, casos da França, Alemanha, Itália, Holanda e quase todos os outros. Apenas três países europeus não possuem hoje representação da extrema direita em seus parlamentos, são eles Malta, Irlanda e Luxemburgo. | bit.ly/3zhFyzy

Vista da rua principal de Oradour-sur-Glane em 30 de agosto de 2013 (AFP)

As cidades que vão morrer

Nas montanhas de Portugal existem quase setecentas povoações que se tornaram aldeias fantasmas porque nelas já não há mais habitantes. Nos estados alemães de Brandemburgo e Saxonia-Anhalt, prédios em ruína, vitrines tapadas e ruas vazias compõem a paisagem das cidades. E na Itália a pequena e bela Sambuca, na Sicília, pôs à venda casas antigas e abandonadas pelo preço de seis euros para atrair moradores. Em Civita de Bagnoregio, a duas horas de Roma, vivem apenas doze habitantes. As pessoas que abandonaram todas essas cidades partiram para centros maiores ou para o exterior em busca de emprego. Deixaram para trás suas histórias e as casas onde viveram por séculos suas famílias e seus antepassados. | bit.ly/3xVJOVq

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Dezembro

Manifestação do partido de extrema direita sueco SD (Democratas Suecos) (Reprodução/BBC)


A reconstrução da Europa e a reação neofascista

Os governos de extrema direita da Hungria e da Polônia, seguidos pela Eslovênia, bloquearam o Plano de Recuperação e Resiliência da Europa. Junto aos recursos do orçamento plurianual, a União Europeia pretende resgatar o continente dos efeitos econômicos da epidemia do coronavírus. O plano exige que, para participar do fundo de 2,8 bilhões de euros, os países que a ele se candidatarem devem respeitar o estado de direito. Os três países estão contra esta exigência. Opõem-se, portanto, ao estado de direito pelo menos dentro de suas fronteiras. O Plano de Recuperação, para ter validade, precisa da aprovação unanime dos 27 países membros da UE. | bit.ly/3y9fuq8

(Getty Images)

A força das drogas e a rendição da Europa

Desde milênios o homem tem procurado escapar da realidade ingerindo substâncias de química tóxica que lhe alteram a percepção. Fazem-no sonhar e pensar que é feliz, criam ilusão de onipotência, melhoram a sua forma de divertir-se e, por fim, matam-no. Ao mesmo tempo as drogas financiam grupos criminosos cuja violência aterroriza e intimida, tornando insuportáveis as várias cidades do mundo em que se abrigam. O narcotráfico, um negócio multinacional que fatura anualmente, em cálculos imprecisos, em torno de 320 bilhões de dólares, é o principal negócio do crime organizado. Ao lado da falsificação de mercadorias e do tráfico humano, do tráfico de petróleo ilegal e do tráfico de vida selvagem, que perfazem os cinco maiores negócios do crime e movimentam 2 trilhões de dólares, pelos cálculos do Escritório da ONU contra Drogas e Crimes. O equivalente a quatro vezes o PIB da Argentina e quase dez vezes o da Colômbia. Não estão incluídos o tráfico de órgãos humanos e o roubo de obras de arte, outros grandes negócios do crime. | bit.ly/3oqXAds

(Sukree Sukplang/Reuters)

O ano horrível

Dentro de poucos dias termina este mês de dezembro e fecha-se o ano de 2020. Os antigos romanos o chamariam de Annus Horribilis. Ele ficará para sempre na memória da humanidade, atacada por um vírus até então desconhecido. Ao fim deste ano terão sido infectadas 60 milhões e morrido dois milhões de pessoas, revelam os números até agora levantados e que simbolizam uma das maiores tragédias humanas já vividas. Enormes prejuízos econômicos, o fechamento de empreendimentos produtivos e o fim de empregos sem conta estarão também inscritos na contagem desta epidemia e das catástrofes que ela está provocando.

Nos países mais ricos do mundo, as bolsas de valores desvalorizaram-se em média 30 por cento e a quantidade de americanos que pediram subsídio de desemprego pela primeira vez subiu para quase sete milhões, configurando um recorde por duas semanas consecutivas. | bit.ly/3x6pYWl

 

A volta por cima e o pessimismo francês

Cansada de um ano terrível em que viveu tantas mortes, tanta dor e desesperança, tanto desespero e grandes frustrações, a velha Europa quer dar a volta por cima. Começa a sacudir a poeira e ensaia, através da vacinação em massa, tentar levantar-se durante o ano que começa. Um novo ano sempre traz consigo símbolos emocionais de renovação e de redenção que a humanidade cultiva há milênios para assim preservar a possibilidade do futuro. Um futuro que precisa ser melhor, pois o passado encontra-se morto junto aos corpos dos quais um vírus desconhecido tirou a possibilidade da esperança numa agonia lenta ao longo de todo este ano que agora termina. | bit.ly/3Bl50Gi

 

Europa, anos 20

O ano que assistimos findar teve início com a Europa sob a sombra do Brexit, executado pelo governo de direita que defendera nas ruas o que foi considerado um salto na escuridão. O economista francês Thomas Piketty lembrou que, no referendo que aprovara a saída do Reino Unido da União Europeia, apenas 30% que representavam os mais favorecidos em termos de rendimentos, educação e patrimônio votaram para permanecer unidos ao continente. Os outros 70% votaram contra. E adverte que há um divórcio entre as classes trabalhadoras, a classe média, a construção da Europa e a globalização. | bit.ly/3eDvol9



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