Carta Maior 20 anos

20 anos que foram mais do que duas décadas

 

25/01/2021 14:26

(Reprodução/alice.ces.uc.pt/)

Créditos da foto: (Reprodução/alice.ces.uc.pt/)

 
Em janeiro de 2001, “brotou” em Porto Alegre o Fórum Social Mundial (FSM) e, junto com ele, a Carta Maior. Também eu “brotava” no instigante mundo do jornalismo, nesta mesma época, concluindo a graduação na ECA/USP. Trabalho final: uma revista impressa dirigida a jovens sobre “ativismo social”, com a onda antiglobalização a partir de Seattle (1999), nos EUA - e toda “mídia independente” surgida em seu entorno - como referências.

Daí que a sintonia com a Carta Maior (vinda do impulso da surpreendente adesão, afluência e repercussão da edição inicial do Fórum), tenha sido imediata desde a primeira aproximação, ainda no ano de 2001. Posso dizer que dificilmente encontraria um espaço que traduzisse melhor o sentimento de transformação que o próprio FSM, com o seu cativante “outro mundo possível”, reuniu, cultivou e espraiou países adentro e mundo afora.

Na Carta Maior, além das marcantes coberturas de edições seguintes dos Fóruns Sociais Mundiais (estive em muitas delas: Índia, Venezuela, Quênia, Tunísia...), pude acompanhar de tudo um pouco: desde a própria eleição de 2002 que alçou o ex-presidente Lula pela primeira vez ao poder, já lotado na capital federal, até as incontáveis pautas que vieram a seguir relacionadas a aspectos políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais daquele momento histórico. Revendo hoje tudo o que fizemos à época, fica a impressão de que muitos dos pontos fortes e também das fragilidades do processo em curso já estavam presentes. Como agentes participantes do turbilhão, conseguimos deixar a nossa marca: lembro-me de ter sempre de “apresentar” a Carta Maior a quase todo entrevistado quando cheguei em Brasília, em 2002, e sair de lá, em 2007, com o canal já relativamente conhecido.

Havia um evidente desafio mais específico no campo da comunicação política naqueles anos. E, apesar de passos importantes, devemos admitir, contudo, que a típica “sensação de esperança” dos 2000 acabou sendo esmagada por uma série de fatores. Cito um: tenho a impressão de que houve preparo para suportar e rebater um certo tipo de ofensiva (representada principalmente pelas hostes do PSDB), mas deixou-se um flanco aberto para setores prontos a conspirar contra qualquer centelha progressista. Essa sorrateira e intrincada junção jurídico-midiática-imperial/colonial-empresarial/financeira-fisiológica-militar esteve na base do golpe de 2016, momento-chave do “atropelamento” do medo pela esperança. E a internet, que era o meio pelo qual um amplo ecossistema “alternativo” à imprensa corporativa vinha se firmando (tendo na Carta Maior um desses relevantes organismos vivos), acabou por ser inundada pelos mais desprezíveis ranços, fundados nos mais ignóbeis preconceitos, intoxicando, distorcendo e corrompendo o debate público. Trump e Bolsonaro são resultados e impulsionadores desta hecatombe informacional e cognitiva que segue fazendo vítimas em série, como se vê na pandemia da covid-19.

Por tudo isso, ainda que o referencial do calendário gregoriano marque exatos 20 anos desde janeiro de 2001, tudo o que foi vivido e experimentado nesse período foi bem mais do que a somatória sucessiva de estações. Entre o magnetismo do “espírito de Porto Alegre” e o contexto atual em que perecemos, passamos de uma “primavera” para um “inverno” cavernoso e inóspito. Da busca por mais justiça social num quadro meio anestesiado pelo triunfo do capitalismo neoliberal pós-1989 para a pregação indiscriminada da “lei do mais forte”, com apelação à violência explícita, como Norte a ser seguido; do niilismo típico do “fim da história” e das tentativas em superá-lo transitamos para uma reedição tosca da “lei de talião”.

Quem teve o privilégio de acompanhar, por exemplo, de dentro do Congresso Nacional com crachá da Carta Maior, a imensa festa popular na Esplanada dos Ministérios na posse do presidente Lula tem a impressão de que o dia 1º de janeiro de 2003 se tornou muitíssimo distante. Assim como foi crucial buscar traduzir os múltiplos sentimentos de mudança na produção de conteúdos jornalísticos, continua sendo uma tarefa estratégica (talvez ainda maior) interpretar e compreender como uma montanha-russa de acontecimentos varreu as utopias sociais do terreno e reforçou/reinstalou o mais nefasto dos autoritarismos. Como mal incubado, este “vírus” antidemocrático não foi enfrentado em suas tortuosas facetas e com todo o ímpeto necessário. Apenas “doses” maiores de organização e mobilização social, com amplo papel desempenhado por uma comunicação comprometida e aguerrida, parecem ser capazes de fazer com que esses profundos retrocessos, os quais extrapolam duas décadas, possam ser revertidos.

Maurício Hashizume foi colaborou com a Carta Maior entre os anos de 2001 a 2007, nas seguintes funções: Repórter em São Paulo (2001), Correspondente em Brasília (2002 a 2005), Editor da Sucursal em Brasília (2005 a 2007)











Conteúdo Relacionado