Cartas do Editor

A pauta que precisamos encarar

 

08/05/2020 15:39

 

 

Queridos leitores,

Começo esta conversa agradecendo aos 332 novos parceiros-doadores de Carta Maior que, a partir de 4 de março, quando iniciamos esta campanha de doação, passaram a contribuir com nossa luta. Antes, nós contávamos com 1.177 doadores e 300 mil leitores/mês. Agora somos 1.509 doadores e, nos últimos trinta dias, alcançamos 558.329 leitores na página, ou seja, as doações recebidas nos permitiram avançar na linha editorial e publicar mais textos neste momento de total incertezas.

Para alcançarmos o nosso ponto de equilíbrio, de 3 mil parceiros-doadores, ainda faltam 1.491 novos doadores, no universo de mais de 550 mil leitores mensais que hoje alcançamos. Precisamos atingir esse número o mais rápido possível, ou pelo menos, até dezembro deste ano.

Quero pedir um grande favor, com muito carinho e humildade, por favor nos ajudem. Com apenas R$ 1 real por dia vocês podem sim fazer a diferença. Se puder, doem mais (saiba aqui como).

Vale lembrar que muitos companheiros nossos perderam emprego ou tiveram salários rebaixados, estão doentes ou com familiares doentes. Quem tem mais condições pode e deve ajudar quem tem menos. E a sobrevivência de Carta Maior, lida por muitos desses companheiros, depende da contribuição de vocês.

Neste momento de crise, precisamos uns dos outros. E como tudo na vida, a crise nos proporciona momentos de grande fertilidade criativa. Há muito o que fazer e sabemos o que fazer, vocês se surpreenderiam com as propostas que temos ainda para este ano.

A esquerda brasileira e os partidos políticos estão praticamente paralisados, atônitos, com tudo o que está acontecendo. Eles também precisam de nós.

Por quê?

Teremos um sério aprofundamento das dificuldades que estamos sofrendo em decorrência das três crises principais que se apresentam:

A crise econômica, resultante da obsessão neoliberal do sr. Paulo Guedes que, incapaz de compreender o que é o Brasil, em plena pandemia mundial, ainda vem falar em redução de gastos, austeridade e congelamento de salário; exceto o dos militares que, para aprovarem a Reforma da Previdência, receberam polpudo aumento de seus vencimentos. Lembrando que, em dezembro de 2019, o PIB já era um pibinho de 1,1 com previsão de redução para 0,02 em janeiro de 2020. E o FMI já fala em queda de mais de 7 pontos percentuais para este ano. Nos Estados Unidos, poderá cair até 12 pontos percentuais. Imaginem aqui...

A crise sanitária, provocada pela pandemia do coronavírus, muito mais mortal e, certamente, mais duradoura no Brasil, por causa da figura grotesca de Bolsonaro que convoca a população a sair às ruas, na contramão de qualquer determinação sanitária do mundo; e desdenha do SUS, da OMS e da Ciência. Tanto os Estados Unidos quanto o Brasil não prepararam seus sistemas de saúde para enfrentar tamanha crise. Ambos chefes de Estado não fizeram o isolamento social que deveriam, e minimizaram a pandemia. Trump já desistiu, Bolsonaro continua em sua política assassina, inclusive, invadindo a Suprema Corte, com objetivo claro de constranger e convencer o ministro Toffoli a abrir a economia, o que poderá significar a contaminação e morte de milhares de pessoas.

A crise política, gravíssima, provocada pelo atual desgoverno. Como prevíamos, a aliança construída para eleger Bolsonaro está completamente destruída. Resta o núcleo duro de seu eleitorado – 25 a 30% dos que nele votaram, o que não é pouco –, extremamente organizado pela internet, e sob firme comando de seus filhos. Um governo que concebe o “público” como “gado”, dirigindo o Estado e suas instituições como bens privados da família Bolsonaro. Não há articulação política, os poderes da República não se falam. Ele é, inclusive, o primeiro presidente sem partido deste país. Gaba-se de não fazer a “velha política”, mas segue abraçando o condenado Roberto Jefferson e Valdemar da Costa Neto.

Meus caros, nós já vimos esse filme.

O Golpe de 64 iniciou com o avanço de uma coluna militar blindada, comandada pelo general Olímpio Mourão Filho, da 4ª. Região Militar que, partindo de Juiz de Fora se deslocou por uma estrada federal até o Rio de Janeiro, sem sofrer nenhuma resistência. De nada adiantaram os avisos do ex-deputado federal Leonel Brizola que, inúmeras vezes, alertou o presidente Jango de que os militares iriam dar o golpe.

Brizola sempre dizia:

Você sabe como acontecem os golpes? Você dorme dentro da normalidade e acorda com os tanques nas ruas.

A crise que vivemos ultrapassa qualquer possibilidade de previsão. E quem disser que sabe o que irá acontecer está blefando. Mas que tem cheiro de golpe no ar, tem.

Mantidas as diferenças e circunstâncias entre 1964 e 2020, nós estamos assistindo de braços cruzados ao avanço das forças da extrema direita, num passo acelerado rumo ao rompimento definitivo do Estado democrático de Direito. É isso ou a renúncia.

Bolsonaro não é e nunca foi maioria. Dos 147,3 milhões de eleitores aptos a votar em 2018: 57,7 milhões de pessoas escolheram Bolsonaro; 47 milhões Haddad; e 42.1 milhões votaram nulo, branco ou se abstiveram da escolha.

Sua vitória é a vitória da polarização social e da criminalização da política fomentada, ao longo dos governos petistas e de modo contundente, pelos veículos de comunicação que se lançaram e lançaram o país em um tremendo vale-tudo contra a esquerda.

Esse homem aliou-se e tem Donald Trump como seu líder e juntos serão responsáveis por milhões de seres humanos que perderam a vida nessa terrível pandemia.

O mundo amou, odiou e invejou os Estados Unidos. Agora, pela primeira vez, temos pena.

Antes de todos, quem tem que fazer autocrítica é essa imprensa que pensa jornalismo como mercadoria e nunca como direito. Todos os veículos que embarcaram no golpe contra Dilma, sem exceção, estão constrangidamente envolvidos com a vitória de Bolsonaro em 2018. Todos, sem exceção, são responsáveis pelo que irá acontecer neste país nos próximos meses.

Pela polarização que alimentaram, pela criminalização da política que praticaram e, sobretudo, pela asfixia do debate que continuam fomentando, porque como papagaios só sabem reproduzir um único discurso: aquele que agrada aos bancos e aos norte-americanos.

Não há debate na imprensa dita “profissional”. Não há nenhuma reflexão que efetivamente queira transformar os rumos do país. O que há é desmonte do Estado, venda do patrimônio público, precarização de direitos, roubo da previdência dos mais pobres, crimes ambientais...

Nestes tempos tristes de pandemia, a imprensa tem uma mínima chance de resgatar algum tipo de credibilidade, enfrentando a discussão trazida pelo coronavírus à sociedade brasileira, economicamente tão desigual, e que diz respeito a duas perguntas:

Qual modelo de saúde precisamos e queremos daqui para frente?

Qual modelo de Estado precisamos e queremos para garantir a vida e não a morte das pessoas?

Essa é a pauta que o jornalismo precisa encarar.

Nós, da Carta Maior, somos de esquerda e queremos ir mais além.

Discutir com profundidade a mudança do modelo econômico para um modelo SOCIALISTA de produção. Construir juntos uma proposta concreta para o socialismo que este país tanto precisa.

Com muita luta e muita militância, é o que tentamos fazer em Carta Maior. Formação política, debate sobre a conjuntura, difusão do conhecimento científico, tradução do que dizem lá fora e cobertura do que dizem aqui dentro. E sempre com muita garra, porque amamos este país, amamos a América Latina e amamos o que fazemos.

Por isso, insistimos: nos ajude.

Talvez tenha passado despercebido o que relatamos numa das últimas cartas do Editor: o Twitter de Carta Maior atingiu a marca de 5 milhões e 700 mil visitantes nos últimos 28 dias.

Venham para o Twitter da Carta Maior (clique aqui) e nos acompanhem por essa mídia dinâmica. É uma arma poderosa.

Por fim, meus amigos, fiquem bem.

Mantenham-se VIRTUALMENTE próximos uns dos outros. Aproveitem a família, ajudem as crianças nos estudos virtuais, elas crescem mais rápido do que pensamos. E não se isolem, acompanhem nosso site, nossos textos, nossos podcasts, nossas dicas de cinema que, garantimos, são imperdíveis.

E, por favor, fiquem em casa.

Sigamos juntos,

Joaquim Ernesto Palhares
Diretor de Carta Maior

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