Cartas do Editor

Nós precisamos ousar

 

22/07/2020 14:10

Florestan Fernandes (Reprodução)

Créditos da foto: Florestan Fernandes (Reprodução)

 
Caros amigos,

Como de praxe, vamos começar nossa conversa atualizando vocês sobre a atual situação financeira de Carta Maior. Graças à adesão de 478 leitores à nossa campanha de doação, contamos hoje com 1.655 parceiros-doadores. Como vocês sabem, quando iniciamos esta fase da campanha de doação, em 4 de março, éramos 1.177 financiadores do nosso projeto. Para que possamos atingir o nosso ponto de equilíbrio, de 3 mil parceiros-doadores/mês, é necessária a adesão de mais 1.345 novos doadores/mês.

Meus caros, considerando a média mensal de 700 mil leitores de Carta Maior, o número de doadores atual de 1.655 equivale a 0,23%. São eles que doam possibilitando o livre acesso dos 99,8% restantes.

Não é justo, não é solidário.

Com apenas R$1 real por dia, vocês podem fazer a diferença. Se puder, doem mais (confiram aqui as formas de doação).

A conjuntura

Sabemos que a conjuntura é de pandemia, avanço do fascismo, retirada de direitos, falência das instituições e atentados contra a democracia. Soma-se a isso as incertezas quanto ao futuro, em particular, a própria sobrevivência do planeta para nossos filhos e netos.

Por outro lado, e em consequência dessa confluência de crises, a conjuntura é, também, de efervescência de ideias, busca por soluções, denúncias das atrocidades cometidas, bandeiras civilizatórias e, tudo isso, em meio a novas tecnologias que exigem uma profunda transformação do modo como comunicamos as nossas ideias.

Segundo a empresa de marketing norte-americana SEMrush, entre abril e maio deste ano, a busca na internet pelo termo “fascismo” cresceu 233%, passando de 165 mil para 550 mil; a pergunta “o que é o fascismo?” passou de 27,1 mil para 90,5 mil buscas. Já o termo “Antifa”, antes pouco conhecido e pesquisado, na média mensal dos últimos doze meses não ultrapassou 7,3 mil buscas, passou para 165 mil, um crescimento impressionante de 2.160%. Outras palavras-chave como “racismo”, “xenofobia”, “machismo” e “violência contra a mulher” também tiveram significativos acréscimos.

Essa pesquisa revela que há uma necessidade concreta de informações sobre esses e outros termos que se tornaram parte da nossa vida cotidiana, tanto no Brasil quanto no mundo. No nosso caso, na atual política de Estado.

Há tempos não vivíamos sob tamanha avalanche de ideias. Estamos atolados de conferências e debates virtuais, podcasts, posts e imagens nas redes sociais; e análises em textos, como os que vocês encontram em Carta Maior, de altíssima qualidade.

No entanto, todo esse conhecimento, essencialmente diagnóstico sobre a realidade que vivemos, encontra-se nas mais diversas bolhas desse novo mundo virtual. Ou seja: de forma dispersa e caótica, como um conhecimento que se restringe ao momento em que é proferido, mais como um aceno de boa intenção do que de uma possibilidade concreta de luta.

Em suma: sem a amarração necessária que somente uma plataforma comum poderia realizar. Carta Maior está convocando professores de inúmeras universidades públicas e privadas brasileiras para, num esforço comum, e tendo nosso site como plataforma de divulgação de ideias.

Há quase vinte anos, Carta Maior vem fomentando e divulgando a inteligência nacional, e testemunhando a qualidade do pensamento dos nossos intelectuais, em particular, nas ciências humanas e na cultura, onde atuamos de modo mais incisivo. A angústia, porém, nos contagia.

Daí o apelo, e o título desta carta: nós precisamos ousar.

Carta Maior tem vasta experiência no campo da ousadia, inclusive, estarmos vivos até hoje é a maior das nossas ousadias. E sustentando um projeto deste tamanho, com 1.655 doadores. Estivemos, desde o início envolvidos na implantação e respaldo de comunicação para o Fórum Social Mundial de Porto Alegre (2001), também do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento (2004), além das parcerias com a Fundação Darcy Ribeiro e outras instituições de igual peso.

Os tempos são duros? São. Mas o exemplo da história ensina. Lembremos da semente deixada por Florestan Fernandes, que completaria 100 anos de idade, nesta quarta-feira (22 de julho), e que muito mais que um professor ou um intelectual, foi um guia e inspiração para gerações de docentes e discentes deste país.

Foram seus ex-alunos e colegas de USP, aliás, que impedidos de exercer a docência em 1969, primeiro ano de vigência do AI-5, fundaram o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), dedicando-se ao estudo da realidade brasileira e de suas desigualdades. Figuras como Chico de Oliveira, Octavio Ianni, Paul Singer, Roberto Schwarz, Boris Fausto e não apenas o ex-presidente que diria anos mais tarde “esqueçam o que escrevi” e que abraçaria, vergonhosamente, o golpe contra Dilma Rousseff, em 2016.

Sejam professores, alunos, militantes, ativistas ou cidadãos preocupados com o futuro, a tarefa está posta na mesa e ela consiste em aglutinar a sociedade brasileira em defesa da democracia social que temos direito neste século XXI, e sem distinção de raça, credo, gênero, preferência sexual ou de ideologia.

Essa plataforma urge e ela não será escrita sem embates, porque se há uma verdade por trás da pós-verdade é o velho e bom combate pela retomada do poder e a implementação de uma visão de longo prazo e com justiça social, algo que somente a esquerda poderá fazer, como já mostraram os governos neoliberais e vem mostrando o governo neofascista.

O trabalho, sabemos, é de formiguinha. E não raro, a impaciência nos assalta, sem falar do desânimo. Mas não nos esqueçamos que a luta é longa, não começa agora e não terminará amanhã. Cabe-nos fazer a diferença, cumprindo as tarefas postas por este conturbado momento histórico.

Somente unida, a esquerda e os progressistas (excluídos os traidores de toda estirpe) conseguirão combater o avanço da direita, motivando novamente as mentes e os corações de seus eleitores. Pandemia à parte, a abstenção recorde nas eleições municipais da França, com participação de apenas 40% dos eleitores franceses, boa parte composta por trabalhadores não compelidos a votar, não é um fenômeno isolado.

Basta recuperarmos os dados de 2018. No segundo turno, 31.370.372 de brasileiros não foram às urnas, o equivalente a 21,3% do eleitorado brasileiro; 2.486.571 (2,14%) votaram em branco e 8.607.999 (7,43%), anularam o voto. Somados esses números chegamos a 42,1 milhões de brasileiros que se recusaram a votar, ante 57.796.986 (55,13%) que votaram em Bolsonaro e 47.038.963 (44,87%), em Fernando Haddad.

Gente, precisamos acordar! A história ensina que a transformação não cai de maduro. É preciso balançar a árvore.

A proposta da direita é a da terra arrasada, a venda do patrimônio. Querem vender a Caixa, o Banco do Brasil, fechar o BNDES. E tudo o que hoje colocam como projeto de governo não foi sequer mencionado na campanha eleitoral. Eles suprimiram o debate porque nele perdem fragorosamente – vide as quatro eleições consecutivas que ganhamos --, e é por isso que a nossa tarefa será a de preparar o amanhã.

Agora, não é só o Brasil que vem sendo destruído.

O mundo tal como o conhecemos está em pleno desmonte e desde 2008, quando a farra do mercado financeiro veio à tona, dizimando milhões de empregos, desestruturando milhões de famílias e levando um sem número de empresas à falência, durante a pior crise do capitalismo. A questão é: o que seria do sistema financeiro sem o Estado?

Nós, da esquerda, temos todos os argumentos. E estamos com a razão. É hora de um amplo debate para formular um projeto de repactuação social, a começar com a questão: por que a tal da responsabilidade fiscal tem que predominar sobre a responsabilidade social? A pandemia mudou nosso jeito de viver e mostrou que o Estado precisa ser forte e estar protegido por uma lei de responsabilidade social.

Não será o mercado que irá fortalecer o SUS, induzir os empresários a produzirem máscaras e EPIs, respiradores, produzir medicamentos e vacinas contra esta e outras pandemias que virão. Imaginem um Estado sem Banco do Brasil, Caixa Econômica, BNDES, Correios em momentos cruciais como este que estamos vivendo?

Com a resposta, os nossos intelectuais, docentes, militantes e ativistas da boa luta: a luta por aquele Brasil sonhado por Florestan Fernandes, Antônio Candido, Paulo Freire, Betinho, Gilberto Freyre, Milton Santos, Celso Furtado (que também comemora seu centenário no próximo domingo), Darcy Ribeiro, Leonel Brizola, Carlos Marighella, Carlos Lamarca e tantos outros pensadores de primeira hora que deram rumo à luta que agora continuamos.

Eram tempos de ousadia.

Por fim, mais um apelo: por favor, contribuam com Carta Maior, todos os projetos que temos daqui por diante – e eles são muitos – dependem de atingirmos 3 mil doadores até dezembro deste ano (cliquem aqui e conheça as possibilidades de doação).

Abraço e sigamos juntos

Joaquim Ernesto Palhares
Diretor da Carta Maior







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