Cartas do Editor

''Não são 30 centavos, são 30 anos'' de opressão neoliberal

A palavra de ordem da Unidade Social chilena, composta por movimentos da sociedade civil, não se restringe ao Chile

28/10/2019 20:58

(Susana Hidalgo)

Créditos da foto: (Susana Hidalgo)

 
O título acima, com a palavra de ordem da Unidade Social chilena, composta por movimentos da sociedade civil, não se restringe ao Chile. Primeiro no continente a implementar as políticas neoliberais do Consenso de Washington, o país andino, a partir da ditadura de Pinochet, tornou-se campo de testes; e passou a ser vendido como “modelo” para os demais países latino-americanos.

No Brasil, em particular o Brasil, economistas e jornalistas de mercado, liderados pela Globonews e Miriam Leitão, pregavam “o sucesso” dos planos econômicos adotados no Chile. Paulo Guedes, ministro de Bolsonaro, anunciou várias vezes, com apoio dessa imprensa, que pretendia adotar no Brasil as mesmas reformas feitas no país andino por Pinochet.

A revolta no Chile e, agora, a derrota de Macri na Argentina, com a vitória de Alberto Fernández/Cristina Kirchner neste domingo (27.10) mostra que as pessoas estão constando que o neoliberalismo não funciona, e estão reagindo, nas urnas e nas ruas.

Quando Bolsonaro classifica de “gravíssimo” e chama as manifestações chilenas de “atos terroristas”, ele revela o medo que tem de um possível contágio. E com razão. Paulo Guedes, seu superministro da economia, que até agora só fez aprofundar a crise, esqueceu de observar que a “Suíça” latino-americana só funciona para os de cima; na base, a desigualdade de oportunidades e direitos é imensa.

O que vemos no Chile é uma autêntica revolta popular. Os chilenos não aceitam mais viver sob o signo da barbárie neoliberal. E estão gritando isso para o mundo. Um grito que fazemos questão de multiplicar na editoria “As veias abertas da América Latina: eleições, revoltas e violência”, em textos e poadcasts, com análises de grandes intelectuais de esquerda do Cone Sul.

Participam o jornalista argentino Martín Granovsky; a porta voz do movimento feminista 8M, Constanza Cifuentes; o economista argentino Julio Gambina; o jornalista chileno Tebni Pino Saavedra; o ex-ministro de Evo Moraes, José Hugo Moldiz Mercado; a presidente da CUT chilena e coordenadora da Unidade Social, Bárbara Figueroa; o escritor chileno Paul Walder; o diretor da revista Punto Final, de Santiago, Manuel Cabieses; o escritor Juan Pablo Sutherland; e outros virão...

Não poderia deixar de destacar a extraordinária colaboração que estamos recebendo dos companheiros do Centro Latinoamericano de Análisis Estratégico (CLAE), militantes pela comunicação democrática, como Aram Aharonian, fundador da TeleSur e atual editor da CLAE, FILA e Nodal, que recomendamos muito a leitura. Contamos também com um correspondente em Santiago, o repórter Victor Cariccari Saavedra.

Dessa forma, Carta Maior se mantém na trincheira, combatendo a desinformação e o silêncio dessa imprensa mercenária, alheia aos interesses da população, a serviço do neoliberalismo no continente. Uma ação, porém, que demanda recursos, tempo, pessoal. Daí o apelo: torne-se parceiro de Carta Maior – confira aqui as possibilidades de financiamento do nosso projeto –, para que possamos continuar com atividades como esta.



Aproveito para destacar, desse material selecionado para você, o vídeo abaixo, de cinco minutos apenas, com as reivindicações da Unidade Social chilena:


(leia a íntegra das reivindicações aqui)

Proposições que extrapolam as nossas fronteiras geográficas, afinal, elas dialogam e muito com a realidade brasileira (confira as reivindicações no original). Vejamos:

1 - Os chilenos exigem imediata revogação do Estado de Emergência.

Nós também. Ou alguém duvida que estamos em Estado de Emergência?

2 - Os chilenos exigem o retorno dos militares aos quarteis.

Nós também, inclusive, que alguns voltem aos pijamas.

3 - Os chilenos exigem uma greve legislativa.

Nós também.

4 - Os chilenos exigem a retirada de todas as leis que violam as liberdades e os direitos sociais, econômicos e culturais do povo.
 

Nós também.

5 - Os chilenos exigem a definição e implementação de um pacote de medidas econômicas urgentes no campo dos direitos sociais para os trabalhadores.

Nós também.

6 - Os chilenos exigem a convocação imediata de uma Assembléia Nacional Constituinte, composta por um majoritário arco de representantes sociais, para desenvolver uma nova Constituição, que abra caminho para um novo modelo de sociedade inclusiva e ponha fim ao modelo neoliberal em crise terminal.

Nós também.

7 - Os chilenos exigem a renúncia do Presidente da República.

E nós? Quando exigiremos a renúncia do Presidente?

Motivos sobram.

Desde a negociação predatória do patrimônio nacional – e são empresas lucrativas (Petrobras, Embraer...) –; passando pela entrega da soberania nacional, vide a base de Alcântara; até a negociação (não menos predatória) dos direitos sociais, humanos, trabalhistas da população. O que vemos é uma verdadeira política contra o povo trabalhador, iniciada pelo governo Temer, com a aprovação do Teto de Gastos, congelando o orçamento de áreas vitais para o país, como saúde e educação.

Não bastassem esses males, que provocam desemprego, violência, criminalidade, o que vemos é suspeita atrás de suspeita, denúncia seguida de denúncia contra a família Bolsonaro, e nenhuma investigação. O caso Queiroz é um tapa na cara dos brasileiros, que deveria ter sido investigado há muito tempo, não tivéssemos o sistema judicial que temos. Aliás, já filosofava Deltan Dallagnol sobre o imbróglio Queiroz-Flávio Bolsonaro: “É óbvio o que aconteceu… E agora, José?”.



Sobram ou não sobram razões?

Que os amigos chilenos e argentinos recebam nossos efusivos cumprimentos.

Sigamos juntos,

Joaquim Ernesto Palhares
Diretor da Carta Maior





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