Cartas do Editor

A pergunta que não pode calar e a importância da resposta engajada

Bolsonaro transformou o Brasil em uma nação globalmente carimbada como fonte de alto risco para o planeta e a humanidade

25/08/2019 19:01

 

 
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Não é apenas constrangedor, é intrigante o 'por quê' as elites não se desfazem de seu centurião, agora que se tornou a caricatura deste emblema econômica e geopoliticamente desastroso.

Bolsonaro tem milícias mais fortes que o poder econômico dos que o levaram ao poder?

Claro que não.

Se a Rede Globo de Televisão e veículos assemelhados quisessem, o falastrão virulento cairia em questão de horas num corner político insustentável.

Uma montanha de processos e a desmoralização política dissolvente o aguardam, tal o acúmulo de crimes, fraudes e desastres conectados à sua apessoa, à sua família e ao entorno visível e clandestino.

Por que então a tolerância com o estorvo?

Por uma ilusão de classe.

As elites brasileiras acreditaram que a demonização da esquerda e o fuzilamento político de Lula erradicariam a contradição social do metabolismo brasileiro, ou ao menos, a devolveriam ao sono profundo da história.

Na sociedade que ostenta a maior taxa de concentração de renda do mundo, no 1% mais rico da população (28% contra 16% na Índia das castas e da fome) essa crença é ao mesmo tempo um conforto e uma cegueira.

Ambos perigosos.

A classe dominante brasileira acreditou que depois do golpe contra Dilma, e do encarceramento político de Lula, o mundo ficara plano do ponto de vista social.

O terraplanismo histórico dispensava-a de negociar o passo seguinte de um ciclo de desenvolvimento que desde 2013 havia se esgotado.

Bastaria, uma vez picado e salgado o PT, colocar um cachorro louco para manter o pulso da sociedade sob controle.

E proceder à faxina cobiçada.

Essa que estamos vivendo agora com a supressão de direitos, conquistas, patrimônios e valores civilizatórios que, do ponto de vista do dinheiro, infeccionou o metabolismo político do país, sobretudo a partir de 2003.

O pressuposto de uma recuperação rápida da economia faria o resto, cauterizando a memória da luta de classes para sempre entre nós.

O lacre da retomada econômica fulminante não veio.

E não virá.

Quem vai investir em uma economia empobrecida com 50% da força de trabalho desperdiçada, elevada ociosidade, obras públicas entregues ao pó e à ferrugem e apenas 8% do orçamento de investimento das 126 estatais brasileiras realizado até agora?

Pior que isso.

O horizonte turvo da economia global adiciona à desolação doméstica a sombra em expansão de uma nova crise mundial.

Aplicações estrangeiras não apenas definham, como estão saíndo em busca de segurança no porto seguro de títulos públicos das nações ricas.

Mais ainda.

A derrota acachapante de Macri na Argentina catalisou medos, insegurança, incerteza com o Brasil dos Bolsonaros.

A vela do bolo azedo veio na forma do imenso fogaréu na Amazônia nas últimas semanas, que fechou a percepção global do risco à humanidade e ao planeta no qual se transformou o Estado brasileiro assaltado pela extrema direita.

O panelaço da última sexta-feira, em várias cidades do país, enquanto o Presidente falava em cadeia nacional sobre a Amazônia em chamas, pode ter sido também um sinal do descolamento de setores da classe média, que em 2018 votaram no capitão.

Por certo é uma trinca em expansão.

Mas a dificuldade para tornar isso uma ruptura não pode ser desprezada.

Por uma razão fundamental.

O desafio dessa travessia coloca uma responsabilidade intransferível à maior organização e às ruas.

Romper com o cão de guarda exigiria da elite brasileira abandonar o terraplanismo social para aterrissar de volta à encruzilhada do desenvolvimento brasileiro onde o futuro aguarda uma repactuação dos interesses contrapostos da nação para emergir.

Ponto número dois: isso não ocorrerá sem que à mesa de negociação esteja sentado um interlocutor chamado Luiz Inácio Lula da Silva.

Esse é o medo.

E essa é a tarefa intransferível que a História coloca à mobilização da sociedade brasileira.

É forçoso alertar: negociar não é um anátema.

Entre os erros cometidos pelos governos do PT não figura o de promover a negociação entre interesses antagônicos de uma sociedade secularmente extremada pela tragédia da desigualdade.

Negociação não é rendição.

A mesa negociadora é a extensão da correlação de forças em cada ciclo da História.

Em 1988, a força e o consentimento acumulados pela luta contra a ditadura permitiram que a sociedade impusesse às elites uma Constituição ancorada em valores antagônicos aos do neoliberalismo em ascensão em todo o mundo.

É o legado constitucional dessa audácia que está sendo mastigado agora pelos sistema canino da matilha que tomou o país de assalto com a trapaça eleitoral de 2018.

Se as elites achavam que nunca mais precisariam negociar, a rua terá que fazê-la mudar de ideia .

Para isso deve corrigir o erro fatal do ciclo progressista iniciado em 2003.

Qual?

Ter acreditado, a partir de um certo momento, que a negociação política poderia ser feita a frio, no parlamento, tendo a rua apenas como adereço de mão e pano de fundo coreográfico.

O golpe está contabilizando o imenso custo social, político e geopolítico dessa ilusão histórica.

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Joaquim Palhares
Diretor de Redação



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