Cartas do Editor

A resposta à irresponsabilidade indecente

 

29/09/2019 17:29

 

 

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A resposta à irresponsabilidade indecente

Na semana em que o governo brasileiro foi à ONU dizer ao mundo que a Amazônia fumegante estava preservada e a prioridade oficial do país para os povos indígenas era anexar seus territórios à lógica dos negócios – leia-se, o projeto em curso no Congresso que libera a mineração nas reservas e entrega o subsolo das porções mais intocadas da floresta à predação internacional-- os alarmes da ciência e da pesquisa soaram um contraponto imperativo.

De diferentes núcleos e centros de estudo partiu o aviso de que a crise climática mudou de pista e agora transita na fronteira da urgência planetária.

O limite tolerável de um aquecimento global de até 1,5º C no final do século XXI já fora rompido. O de 2º C tampouco está sendo respeitado. E se nada mudar ingressaremos em uma dinâmica de consequências imponderáveis, no degrau dos 3º C de elevação da temperatura até 2100.

As consequências, porém, chegarão antes.

O Relatório Especial sobre Oceano e Criosfera, um condensado de informações contidas em sete mil trabalhos diferentes divulgado nos últimos dias, avisa que a elevação do nível do mar ganhou velocidade antes inimaginável.

O derretimento da ordem de 14 mil toneladas por segundo no Ártico demonstraria que a taxa de perda das grandes geleiras do planeta triplicou em relação à média dos anos 80.

A camada mais densa e mais antiga do gelo ártico já diminuiu em 95%.

O encadeamento decorrente é sabido: menos gelo, água mais quente, derretimento mais rápido. Assim sucessivamente.

A mensagem política que esses acontecimentos nos trazem é muito dura e clara: envelheceram os projetos de futuro dissociados da variável climática.

Não há mais discussão crível de desenvolvimento, democracia e justiça social sem incorporar o relógio e o repertório da mutação planetária em curso.

O repúdio ao destampatório de Jair Bolsonaro na ONU, uma ruptura desconcertante com a tradição pacifista, multilateralista e negociadora do Brasil encerra, igualmente, a indignação com o menosprezo a essa urgência de um pacto cooperativo, equitativo e convergente que ofereça respostas ao problema que atinge de forma inexorável todos os povos, todas as classes sociais e o conjunto das nações.

Agarrado a uma irresponsabilidade histórica indecente o governo brasileiro não tinha nada a dizer ao mundo sobre o resgate da esperança diante desse amanhã.

A conclusão nos impele a acelerar a construção de estruturas políticas organizadas, dotadas de informação crítica e traduzidas em frentes plurais à altura do principal desafio do nosso tempo.

Ou seja, ressuscitar a confiança da sociedade nela mesma. Vale dizer, na ação política organizada e na democracia participativa.

É esse sentido de urgência histórica que impele Carta Maior a realizar um árduo esforço de sobrevivência e engajamento para dar sua cota propositiva a esse mutirão.

A web Rádio Carta Maior no ar desde o início de agosto provou a sua adequação à agilidade que o tempo cobra dos democratas, socialistas e liberais sinceros de todo o país.

Através de podcasts focados nos eixos que condensam os graves conflitos vividos pela sociedade brasileira e global, amplificamos o alcance de vozes que podem contribuir para a sua compreensão e superação.

Esse é o objetivo: aproximar interlocutores, disseminar ideias, aprofundar o discernimento crítico, abrir avenidas ao engajamento e à mobilização.

Reitores, intelectuais, professores, lideranças políticas e sociais teem vocalizado seus alertas e propostas para a equação da encruzilhada brasileira, indissociável da matriz global que a emoldura.

A receptividade sugere que o papel aglutinador dessa polifonia está sendo bem sucedido. E isso nos impele a continuar.

Na nova etapa da web Rádio Carta Maior neste mês de outubro, agregaremos à pauta o desafio de entender e construir respostas à manipulação do discernimento popular pela agenda do medo, do preconceito e do obscurantismo.

E, sobretudo, daremos à urgência ambiental –catalisada na ameaça à Amazônia-- o espaço que lhe pertence como variável determinante – incontornável-- na formulação de um programa capaz de devolver ao interesse coletivo o comando sobre o bem comum.

É forçoso dizer-lhes que não daremos essa contribuição sem uma larga e ativa parceria com nossos leitores e ouvintes.

O tempo de perguntar que horas são se esgotou: a hora é de engajamento e respostas criativas para vencer a irresponsabilidade indecente caricaturada na figura mundialmente bizarra e perigosa do Presidente do país.

Só há uma forma de fazer isso de maneira bem sucedida: juntos.

Seja parceiro na continuidade desse projeto, contribua com o que puder; doe R$ 1 real por dia (R$ 30,00 por mês) , ou mais, dentro de suas possibilidades.



Mas, sobretudo, engaje-se na tarefa de amplificar o alcance das vozes e ideias que respondam às urgências do nosso país e do nosso tempo. Ouça e divulgue os podcasts da web Rádio Carta Maior.

Resgatar a esperança coletiva no amanhã é a mãe de todas as causas políticas do nosso tempo. Dela depende todas as demais.

Essa pauta espera o seu engajamento. Há muitas portas para chegar a ela, e Carta Maior é uma delas.

Aguardamos por você.

Joaquim Ernesto Palhares
Diretor da Carta Maior

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