Cartas do Editor

Cadê a oposição?

Precisamos nos preparar para enfrentar essa nova força, a partir da aliança com partidos, entidades da sociedade civil e pessoas progressistas que possam defender a democracia em um novo patamar. O momento é de união e não mais de divisão

12/03/2019 11:56

 

 
Zé de Abreu, primeiro presidente autoproclamado do Brasil, foi reconhecido no último domingo (10.03), pelo autoproclamado presidente da França, o também ator Frédéric Pagès. Com indignação, bom humor e fina ironia, ambos estão mostrando ao mundo o quão absurdo é Juan Guaidó se autoproclamar presidente da Venezuela.

Com todas as saudações ao presidente Zé de Abreu, não posso deixar de registrar o espanto frente à evidência de que sua autoproclamação é um dos fatos políticos mais relevantes hoje no país. É simplesmente inacreditável que a oposição se restrinja a manifestações individuais ou pontuais, como vimos no carnaval.

Estou falando de Oposição à altura que o momento exige. De movimento de massa, de gente indignada lutando por seus direitos nas ruas. Estou falando de lideranças, novas e antigas, dos movimentos e das academias, do mundo artístico e da ciência. Onde estão as pessoas, para além de seus avatares virtuais?

O Brasil precisa de gente de carne e osso, lado a lado, de mãos dadas. E a razão está do nosso lado, o bom senso, a continuidade de todos os direitos, o aumento do emprego, a perspectiva de uma vida minimamente decente. Os números não mentem, aliás, eles gritam.

Levantamento recente do Instituto Brasileiro de Economia da FGV, divulgado pelo Estadão/Broadcast, atesta o aumento da desigualdade no Brasil. No ano passado, a desigualdade de renda atingiu o seu maior patamar desde 2012. Em outras palavras: com o golpe, a concentração de renda e o desemprego pioraram no Brasil.

O gráfico do Índice de Gini (abaixo) fala por si. Ele mede a desigualdade numa escala de 0 a 1 (quanto mais perto de 1, maior a concentração de renda). Confiram:



Passamos por um dos mais estranhos períodos da história brasileira. Não bastasse a principal liderança política do país estar encarcerada em Curitiba, o pior político brasileiro se tornou o presidente da República e, agora, nos encontramos sob total regresso obscurantista.

Um regresso que começou a ser construído em julho de 2013, quando a direita (Rede Globo à frente) se apropriou da pauta reivindicatória daquele momento. Desde então, não tivemos sossego. Em março de 2014, ano eleitoral, iniciou-se a Lava Jato; ao perder as eleições, Aécio Neves não reconheceu a vitória de Dilma Rousseff, provocando, além da crise econômica e política, o extermínio do PSDB.

Em 2015, quando a curva da desigualdade começa sua subida desenfreada, Globo, Parlamento golpista e Judiciário, passando por cima de 54 milhões de votos, impediram Dilma de governar, abrindo as porteiras do ódio. Não foram os fatos, mas a construção do ódio à esquerda que levou ao impeachment de Dilma e ao aumento da desigualdade. Em 2017, assistimos à condenação sem provas de Lula e, ano passado, sua prisão política e a vitória dos fascistas.

Nem mesmo a decisão liminar do Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas ou as inúmeras manifestações de centenas de juristas nacionais e internacionais, intelectuais e lideranças de todos os continentes, puderam conter o desejo ensandecido de eliminar Lula, o Partido dos Trabalhadores e a esquerda da direção dos rumos deste país.

É preciso reconhecer que Bolsonaro conquistou uma imensa base social. Seu discurso de ódio e violência vem capturando insatisfações desde os jovens às viúvas da ditadura, desde as senhoras de classe média alta às senhoras pobres e evangélicas moradoras das periferias, e tudo, sob aplauso dos fabricantes de armas.

Acompanhamos, diariamente, essa extrema direita nenhum pouco nacionalista, cujo capitão Messias bate continência para a bandeira norte-americana, coloca o país sob ameaça de uma guerra contra nossos irmãos da Venezuela (confira nosso especial Golpe na Venezuela).

Todos sabemos que o ódio não cria emprego, não aumenta a renda, não resolve os graves problemas sociais do Brasil, da saúde, da educação e muito menos da segurança pública, vide o gráfico acima. Armar a população aliás só atende ao lucro da Taurus, fabricante de armas; não ao imenso problema da desigualdade social do Brasil.

Em particular, a desigualdade que atinge, em cheio, a metade dos trabalhadores brasileiros que ainda vive com menos de um salário mínimo por mês. Gente que está atemorizada pelo desemprego, fazendo todo tipo de acordo. Pais e mães de família que estarão totalmente desamparados sem aposentadoria.

Não tenhamos dúvidas, do vídeo publicado (Golden shower) à exposição da jornalista do Estadão no último domingo – e com base em informações inverídicas –, Bolsonaro e seus filhos só querem desviar a atenção dos brasileiros, fazendo das redes sociais ora púlpito, ora tribuna.



Precisamos nos preparar para enfrentar essa nova força, a partir da aliança com partidos, entidades da sociedade civil e pessoas progressistas que possam defender a democracia em um novo patamar. O momento é de união e não mais de divisão.

Em meio a esta guerra, a Mídia Alternativa ou o que restar dela terá enorme dificuldades de sobrevivência. Aos 72 anos de idade e 56 de militância política, eu estou com muita vontade de trabalhar. Projetos não faltam. Sabemos perfeitamente o que precisamos fazer; para isso, Carta Maior precisa de uma enorme mobilização de seus leitores.



Vocês são os protagonistas deste processo. Carta Maior é mero instrumento entre o pensamento de vocês e a realidade política que estamos vivendo. Para que possamos avançar, com condições de enfrentarmos o que virá pela frente, a doação de nossos leitores é fundamental.

Com apenas R$1,00 por dia, R$30,00/mês, você pode agregar força e legitimidade a essa trincheira. Quem puder, DOE MAIS (clique aqui e confira opções de doação) possibilitando que o nosso conteúdo também ultrapasse os limites atuais. E, por favor, cadastrem-se na Carta Maior ou atualizem seu cadastro clicando aqui.

Precisamos nos manter unidos e em contato permanente frente a qualquer eventualidade. Sigamos juntos e mobilizados.

Joaquim Ernesto Palhares
Diretor da Carta Maior

Conteúdo Relacionado