Cartas do Editor

Carta de Paris: Nanni Moretti: golpe contra Allende revelou uma Itália acolhedora

Quando « Santiago-Itália » foi concebido, a Itália ainda não tinha sido engolida pela extrema-direita

08/03/2019 12:09

 

 

Uma das cenas mais fortes e emblemáticas do documentário « Santiago-Itália », de Nanni Moretti é aquela em que o cineasta responde a um militar chileno, preso por acusação de mortes, desaparecimentos e tortura.

O único militar entrevistado no filme nega, obviamente, qualquer crime e diz que Allende tinha a intenção de instaurar uma ditadura comunista. Na sua versão, os militares chegaram para salvar o Chile do horror comunista.

O diálogo vai subindo de tom e a uma das insistentes perguntas do cineasta, cuja voz é sempre ouvida em off, o general reclama da falta de imparcialidade do entrevistador.

Moretti retruca : « General, eu não sou imparcial ».

Este é o único momento em que se vê o rosto do cineasta : quando ele responde ao militar olho no olho. Corte rápido.

Nanni Moretti começa seu excelente documentário filmado de costas, apreciando Santiago do alto, com a Cordilheira dos Andes ao fundo. O que vem em seguida é o resumo dos momentos de alegria e sonho de igualdade dos anos Allende. Muitas imagens de arquivo mostram as angustiantes últimas horas de democracia em Santiago, tomada pelos militares que obedeciam ao plano montado em Washington por Nixon e Kissinger.

Corajosamente, Allende resistiu. Só saiu do Palácio de la Moneda morto, como prometera ao povo que o elegeu.

Engajamento e fraternidade

O episódio memorável da história italiana que fala de engajamento e fraternidade voltou a interessar Moretti numa conversa entre amigos.

Dela surgiu a idéia do filme. Nele, diversas pessoas contam como viveram o golpe e reagiram à prisão, à tortura e como sobreviveram ao exílio. E sobretudo, como a embaixada italiana de Santiago se tornou uma casa de asilo com mais de 500 pessoas entre adultos e crianças.

O cineasta chileno Patricio Guzman é uma das pessoas que dão depoimento sobre o golpe. Premiadíssimo, Guzman é autor de alguns dos melhores documentários sobre o 11 de setembro de 1973 e o terror que se iniciava. Seus dois últimos filmes « Nostalgia da Luz » e « O botão de pérola » são obras-primas premiadas em diversos festivais do mundo.

Entre os entrevistados estão ainda os cineastas Miguel Littin e Carmen Castillo, além de professores, tradutores, operários, militantes de esquerda e dois dos diplomatas italianos da embaixada de Santiago na época. A maioria dos entrevistados conta como foi acolhida na embaixada da Itália, país que tinha em Santiago diplomatas de qualidade que não hesitaram em transformar a sede da representação italiana em verdadeiro refúgio contra a repressão violenta do novo regime.

As formas de escalar o muro da embaixada são contadas com detalhes tragicômicos. O dia-a-dia até o embarque para Roma era cordial e fraterno, apesar das dificuldades.

Em entrevista ao jornal « Le Monde » na semana do lançamento, do filme em Paris, Moretti lembrou que seu país não reconheceu o governo golpista de Pinochet, contrariamente à maioria dos países.

Quem pensava que não veria mais golpes na America Latina tem que convir que a Venezuela vive hoje um novo modelo, formatado para o século XXI. É o que a doutrina americana chama de « regime change ». A imprensa ajuda dando a visão de Washington e de seus aliados.

A mesma Itália que hoje mergulhou numa xenofobia abjeta comandada pelo líder de extrema-direita Matteo Salvini, dirigente da Liga (ex-Liga do Norte) deu, em 1973, um dos mais belos exemplos de respeito aos direitos humanos.

Respondendo a uma pergunta de Jacques Mandelbaum, Moretti diz : « Você sabe, a memória não é o forte do povo italiano, como podemos comprovar com o que se passa hoje no país, onde os homens políticos não se lembram do que disseram na véspera. Eu conhecia esse episódio de 1973, mas tinha esquecido. Foi um dos momentos raros da história contemporânea no qual a Itália fez um papel admirável ».

Hoje, ele vê o povo italiano « hipnotizado pela imigração ».

« Essas pessoas que estão no poder, como o líder de extrema-direita Matteo Salvini, pensam que estão acima das leis. Declararam guerra à magistratura. Têm pouca familiaridade com a gramática institucional e qualquer indivíduo dotado de um pouco de competência lhes parece naturalmente suspeito. Neste ponto, existe uma continuidade direta de Berlusconi ».

Quando « Santiago-Itália » começou a ser concebido a Itália ainda não tinha sido engolida pela extrema-direita.

O filme é um excepcional trabalho de memória e uma homenagem aos diplomatas italianos da época.



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