Cartas do Editor

Censura chega pior que em 1964

 

07/11/2019 15:45

(Arte Carta Maior)

Créditos da foto: (Arte Carta Maior)

Novembro começa com o filho 03, deputado federal e líder do governo na Câmara, apregoando a reedição do Ato Institucional n.5, o famigerado AI-5. Como sempre, dadas as reações, Eduardo Bolsonaro voltou atrás, mas sua fala teve repercussão e não à toa.

Não é preciso ter vivido aquele 13 de dezembro de 1968, quando da promulgação do Ato Institucional 5, por Costa e Silva, para saber o quanto a violência adotada pelos militares atingiu em cheio as nossas liberdades individuais e coletivas.

Para vocês terem noção do que ocorreu:

Era dezembro e as aulas tinham sido encerradas. Janeiro, férias. Fevereiro, iniciaram as aulas. E no primeiro dia de aula, oito e trinta da manhã, a minha sala na Faculdade de Filosofia da UFRGS, onde eu cursava o segundo ano de História, de repente foi invadida por seis policiais. Todos nós fomos presos, inclusive o professor.




Todos os alunos foram levados para o pátio da universidade; e lá permanecemos, até às 12h, cercados por policiais civis e pela Polícia Militar com cães e armas. Aí, de repente, sem nenhuma explicação, eles foram embora. A intimidação se repetiu várias vezes naquele ano, mas já não era mais intimidação. Algumas vezes, professores, funcionários e alunos eram levados para interrogatório. Disso decorreram torturas, prisões, expulsão de docentes e discentes.

Notem que me refiro a um caso local, em uma das principais universidades do país. Nacionalmente, o AI-5 permitiu toda sorte de arbítrio, em praticamente qualquer instituição brasileira; inclusive, garantiu o fechamento do Congresso Nacional, das Assembleias Legislativas dos estados, e das Câmaras Municipais. O Executivo governava por meio de decretos-leis.

O resto da história, vocês conhecem, mas é sempre bom dizer que nós resistimos e todos os dias, todas as semanas, por meses e anos a fio. Apanhando, levando bomba, gás, mordida de cachorro, atropelamento de cavalos. O resto da história, vocês já sabem.

É esse espírito de indignação, de luta, de resistência que vemos no Chile. O povo está dizendo um sonoro “não” a 30 anos de neoliberalismo desumano e assassino. E eles vão derrubar Piñera, vão promulgar uma nova constituição, é isso que está nas mentes e nos sonhos do povo chileno.

São movimentos como este, de resistência, que entram para a historia. E não será um fascista, arremedo de deputado, sem nenhuma noção dos deveres da vida pública, dos princípios democráticos, que calará a revolta do povo, e ela há de vir. O povo brasileiro vem resistindo em diversos espaços.

Apesar de você, amanhã será outro dia!

Muitos de nós já fomos às ruas. Não conseguimos barrar o golpe, o teto de gastos, a reforma trabalhista, a reforma da previdência e agora, esse pacote econômico violento de Paulo Guedes, que acaba com toda e qualquer estabilidade no serviço público; extingue o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT); impede novos concursos, paralisa a administração pública. Eis o Estado neoliberal de Pinochet que Guedes quer aplicar no nosso país.

O fato é que, atacados por todos os lados, diversos setores estão vindo a público denunciar o arbítrio do Estado. Caio Blat, ator de cinema, foi um dos que participaram, ao lado de Dira Paes, Luiz Carlos Barreto, Caco Ciocler, Caetano Veloso e tantos outros da Audiência Pública no Supremo Tribunal Federal (STF), na última segunda-feira.

A audiência pública teve como objetivo subsidiar a análise da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental, ADPF, 614, proposta pela Rede Sustentabilidade contra o Decreto 9.919/2019, da Presidência da República que altera a estrutura do Conselho Superior do Cinema (CSC); e, também, contra a Portaria 1.576/2019 do Ministério da Cidadania, que altera a destinação de verbas para a produção cinematográfica.

“A Censura já está neste país e pior que em 1968, porque antes ela era declarada e institucional; agora o que eles estão fazendo é uma limpeza ideológica velada. Tirar dos editais as minorias? Para que serve um edital publico senão distribuir cultura para as minorias?”, afirmou Blat, lembrando que o cinema “é o meio mais democrático para que jovens conheçam a sua historia e entendam a própria diversidade. Este processo é que está sendo cortado”.

Abaixo, a fala de Blat e também as intervenções da atriz Dira Paes e do humorista Gregório Duvivier. Ouçam, repassem entre seus contatos. As pessoas precisam saber os reais riscos que estamos correndo, e nada melhor que artistas comprometidos com a democracia para alertá-los.

Dira Paes:



Caio Blat:



Gregório Duvivier:




Em suma: motivos não nos faltam para irmos às ruas!

Sigamos juntos,

Joaquim Ernesto Palhares
Editor de Carta Maior

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