Cartas do Editor

O gol contra das elites brasileiras

 

09/07/2018 09:54

 

 
Finda a Copa do Mundo, o Brasil retoma o cotidiano de desmontes. Estamos, após o mundial, muito mais pobres e desprotegidos. Três exemplos bastam, aprovação da PL do Veneno, a entrega dos 70% do pré-sal às estrangeiras e, claro, a venda da Embraer nesta semana.

A festa do agrotóxico – impedida em vários países, por isso eles jogam agrotóxico nas nossas terras – foi garantida por parlamentares que ignoraram todos os laudos científicos apresentados contra o projeto de lei. Estamos falando de comida envenenada, de trabalhadores envenenados, de imensas extensões de terra envenenadas.

A entrega do pré-sal, que analisamos na última semana, é outro descalabro que passou durante a Copa, levando à publicação da Carta do ex-presidente Lula, indignado, como todos estamos, com o roubo do pré-sal, um patrimônio de todos nós, sobretudo, das novas gerações.

O terceiro exemplo da virulência do desmonte, perpetrado durante o mundial, foi a venda da Embraer que, juntamente com a Petrobrás, atuava no centro do projeto de desenvolvimento nacional e econômico dos governos Lula, abordado, aliás, no livro organizado pelo economista Pedro Chadarevian a pedido da editora Routledge, para explicar ao público acadêmico internacional o que aconteceu e está acontecendo no país (mais aqui).

O terceiro desmonte foi a venda da Embraer, imenso golpe à política de desenvolvimento nacional dos anos Lula, assim como a Petrobras, um patrimônio nacional, segunda maior em exportações e uma das propulsoras de pesquisas em tecnologia. Um verdadeiro gol contra do Brasil, à favor da norte-americana Boeing, com direito a escancarado apoio das Organizações Globo.

Vivemos em tempos de mudança. Ao contrário da “ponte do futuro” de Temer que nos trouxe a esse brejo, o desenvolvimento tecnológico é o único caminho para entrarmos no século XXI. Em junho, a National Science Foundation (NSF) dos Estados Unidos publicou um relatório sobre os Indicadores de Ciência e Engenharia dos Estados Unidos que merece atenção, confira aqui (em inglês)

Em 2015, os Estados Unidos investiram 2,74% do PIB em pesquisa em desenvolvimento; a China, que já ultrapassou os norte-americanos em número de publicações científicas, investiu 2,07% naquele ano. Em 2014, quando ainda havia governo, nós investíamos 1,17% do PIB.

Segundo reportagem da Câmara dos Deputados, em 2014, foram injetados R$ 8,4 bilhões em Ciência e Tecnologia; em 2018, o governo programava investir apenas R$ 2,7 bilhões. Vejam o que aconteceu, na prática, de janeiro até agora, conforme detalha a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC):

"Dos cerca de R$ 1,6 bilhão gastos pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), R$ 83 milhões foram utilizados pela Secretaria de Telecomunicações (Setec), enquanto a Secretaria de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação obteve pouco mais de R$ 19 mil. Também sob a rubrica da pasta, o Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste (Cetene) recebeu, até o momento, de R$ 740 mil, dos quais R$ 680 mil serviram para cobrir apenas despesas correntes, sobrando R$ 60 mil para investimentos" (leia mais na RBA).

Enquanto as potências mundiais investem em Ciência e Tecnológica, nós estamos deixando de investir. O estrangulamento do setor, pelo corte de verbas, alia-se ao desmonte de toda uma estrutura – puxadas pela Petrobras e Embraer – de criação, desenvolvimento e geração de tecnologia nacional. As decisões de Temer, sem exceção, visam impedir a entrada do Brasil no século XXI. Um ataque evidente à soberania nacional.

E por falar em soberania nacional, não deixem de ler a entrevista exclusiva de Celso Amorim, “López Obrador é um exemplo para América Latina”, sobre a eleição de AMRO no México. Em sua avaliação, a vitória de Obrador “desmente o argumento de que a onda progressista na região se esgotou. Este é o primeiro governo de esquerda no México nos últimos 90 anos”.

Amorim também comenta a visita de Mike Pence, vice-presidente dos Estados Unidos, ao Brasil. Para o chanceler, essa visita tem dois objetivos: garantir um maior isolamento da Venezuela e que o petróleo brasileiro seja explorado pelas multinacionais.

“A posição dos Estados Unidos como potência hegemônica não se explica nas posições de Donald Trump. Estou falando dos interesses do chamado ´Estado profundo´ que existe nos Estados Unidos, onde estão os interesses dos grandes grupos econômicos, da comunidade de inteligência, da indústria militar. Todos esses fatores vão trabalhar para isolar a Venezuela”, aponta.

“Sabemos que a criação dos BRICS (bloco de novas potências, com Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) causou uma grande preocupação a esse “estado profundo” norte-americano. E além de tudo isso, é preciso considerar o descobrimento do Pré-Sal, e a decisão de mantê-lo sob o controle da Petrobras”, complementa. (Leia a íntegra da entrevista aqui).

Daí a importância das eleições em outubro próximo. A direita, não tenhamos dúvidas, não terá pudores em abraçar a ultradireita até porque, bem lembra Gilberto Maringoni em “O empresariado ligou o foda-se”, para eles “pouco importa se as mãos de quem dirigirá o país estiverem sujas de sangue, se há apologia de Brilhante Ustra, ou se há pregação misógina, homofóbica ou de ódio aos pobres. Isso é bobagem. Estamos falando de negócios”.

O mais grave é que não apenas o empresariado ligou o botão de foda-se. No alto de suas cadeiras, a Corte Suprema não apenas assiste ao desmonte do país, como dele participa. Vê, a olhos nus, a democracia ser corroída no seio de suas instituições e nada faz. Ou melhor, faz: acelera ou retarda o processo histórico, esquivando-se do papel central que lhe cabe: proteger a democracia e, sobretudo, a soberania do Brasil.

Não é preciso, nessa altura do campeonato, salientar o quanto é fundamental a luta da mídia alternativa nesse contexto. Dependesse das Organizações Globo, o Brasil inteiro estaria jogando contra a nossa soberania. Torcendo pela Boieng, pela Exxon, pela Shell, os patrões da elite brasileira. Uma das elites mais imbecis da nossa história.

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Boas leituras,

Joaquim Ernesto Palhares

Diretor da Carta Maior







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