Cartas do Editor

Poder e ContraPoder: geopolítica em debate

Convidamos você, cara leitora, caro leitor, a acompanhar a nova editoria Poder e ContraPoder que vem adensar as edições de Carta Maior. Consideramos indispensável a compreensão do ambiente global no qual se desenvolve a crise brasileira, talvez a mais grave de nossa história

13/03/2018 09:43

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Créditos da foto: Reprodução - Medium

 
Convidamos você, cara leitora, caro leitor, a acompanhar a nova editoria Poder e ContraPoder que vem adensar as edições de Carta Maior.

Ela trará reportagens, traduções de textos internacionais e reflexões de professores da universidade brasileira, pesquisadores e especialistas em geopolítica, de modo a ampliar nosso olhar sobre a profunda mutação no exercício do poder global, a partir dos movimentos no tabuleiro formado pelas das três maiores potências do mundo, Estados Unidos, China e Rússia.

Nosso objetivo com mais esse braço editorial deve ser circunstanciado claramente.

Ao buscar a aglutinação da inteligência crítica nacional e internacional, Carta Maior, como sempre, não almeja se constituir  em um espaço editorial de tertúlia acadêmica.

Interessa-nos o pensamento disposto a provar que pertence ao mundo através da ação.

Da ação transformadora.

É nesse sentido que consideramos indispensável a compreensão do ambiente global no qual se desenvolve a crise brasileira, talvez a mais grave de  nossa história.

De novo, o que se busca não é uma abordagem teórica.

Sem ousadia para observar o mirante mais avançado da nossa experiência corremos o risco de lutar a batalha do dia anterior.

E de buscarmos soluções do passado para o futuro da nossa sociedade, da democracia, da industrialização e das formas de ação política --talvez defasadas das formas de viver e de produzir que podem, efetivamente, preservar a civilização no século XXI.

A própria dificuldade de aglutinação das forças progressistas entre nós –imperiosa necessidade diante da ofensiva global do conservadorismo—decorre, em parte , ao menos, da precária avaliação que se faz do que está em jogo nesse capítulo da história.

A subestimação do largo, virulento processo de mutação civilizacional em curso – das oportunidades inéditas que a abundância material hoje enseja e dos riscos que a sua esterilização pelo capitalismo encerra--   abre espaços à temerária   fragmentação do  campo progressista que , no Brasil,  aparenta muitas vezes hipnotizado por prioridades paroquiais e surdo ao tropel dos acontecimentos que avançam arrombando certezas graníticas e sectarismos incondicionais.

Trata-se, portanto, de convocar o desassombro do engajamento intelectual para enxergar além da neblina  espessa, capaz de remeter a esquerda brasileira ao abismo da irrelevância nessa gravíssima hora da vida nacional.

 Desassombro em mais de um sentido.

Em primeiro lugar, para nos afastarmos, propositalmente, do dia a dia miserável a que foi lançada a política nacional,  oferecendo aos nossos leitores um observatório do grande tabuleiro global, marcado pela desordem de um fim de ciclo, o da supremacia neoliberal, sem forças de ruptura capazes de definir o passo seguinte do futuro.

O que pulsa nessa cova é a treva política, com as ressurgências sabidas de agendas e forças que aterrorizaram o mundo nos anos 30.

Mas desassombro também  para mirar o longo prazo, a contrapelo do imediatismo indigente que pauta o noticiário jornalístico no Brasil.

Mas, sobretudo, desassombro por termos a convicção de que sob o fogo intenso do conservadorismo aqui e no mundo, a esquerda ainda pode se colocar à altura das respostas cobradas pelas arguições da história.

Há quem diga que nunca estivemos tão próximos de uma catástrofe total, até mesmo nuclear, envolvendo as três maiores potências mundiais que ora participam de uma espécie de “jogos de guerra“ tão ao gosto dos militares e  de “ disputas comerciais”  tão ao gosto da ciranda especulativa.

Com suas marcas horrendas, as duas faces da realidade mundial se complementam e definem o tamanho do desafio que pesa sobre o nosso tempo.

De um lado, a intensificação das rivalidades geopolíticas, resultante –de um lado-- do choque entre as aspirações crescentes de Estados até há pouco tratados como coadjuvantes (ou meros figurantes) da ordem montada no pós Guerra fria, e –de outro-- da rigidez dessa mesma ordem, fundada na utopia desvairada do mercado soberano e ancorada na soberania efetiva de um super-Estado.

O nó nas tripas dessa desordem sócio-econômica, que leva o nome de neoliberalismo, marca a crise brasileira mais do que muitos de seus protagonistas imaginam. E não só à direita do espectro político.

Inclua-se nesse rol de degradação o ocaso do meio ambiente em nosso tempo, desde as suas formas mais cenográficas, às silenciosas e não menos letais.

Aqui, como em outras esferas, deparamo-nos com o caráter essencialmente contraditório do capitalismo. Fruto da lógica de expansão insaciável que tipifica esse modo de produção, a agressão sistemática à natureza ergue-se como uma ameaça a sua própria sobrevivência, uma vez que passou a corroer as bases da civilização humana.

Os fenômenos de degeneração política a que assistimos em vários quadrantes do mundo –sendo o Brasil um deles-- só podem ser integralmente compreendidos e revertidos quando situados nesse contexto.

O programa de liquidação nacional aplicado pelo governo golpista entre nós ilustra com eloquência esse garrote asfixiante.

O futuro é incerto. Talvez como nunca o tenha sido na trajetória brasileira.

Ninguém é capaz de prever hoje como vamos terminar o ano de 2018. Nem a nação que seremos amanhã.

O contexto global aqui aludido não mudará após a eleição de 2018. E continuará por muito tempo a se traduzir em problemas enormes à governabilidade e à superação dos desafios nacionais

Precisamos nos armar intelectualmente, de antemão, para enfrenta-los. Compreender a matéria-prima da encruzilhada é o requisito incontornável a sua superação.

A Editoria Poder e ContraPoder pretende contribuir para essa tarefa.

Espero que, juntos politicamente, e com a sua parceria para financiar mais esse passo, possamos avançar rumo a avenidas mais largas da história.

Por favor, se você já é nosso doador ou se ainda não fez nenhuma doação, nos ajude a superar mais esta etapa crucial que enfrentamos hoje, junte-se a nós com uma doação, para que possamos continuar fazendo o tipo de jornalismo que 2018 exige.

Joaquim Ernesto Palhares 

Diretor e Editor-Chefe  de Carta Maior



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