Cartas do Editor

Tempos de espera

 

17/10/2019 13:48

 

 
Carta Maior sempre adotou uma linha editorial voltada ao incentivo da leitura e à produção de conteúdos analíticos de fundo. Reconhecemos a validade da guerrilha diária contra as mais variadas estratégicas de manipulação praticadas pela mídia corporativa, que oculta, desinforma, elege bandidos e mocinhos, fazendo da informação – que é um direito social – a sua moeda de troca no mercado.

Carta Maior nunca concebeu a comunicação como mercadoria. Inclusive, nós nos recusamos a exibir publicidade, principalmente de empresas que apoiaram o golpe de 2016.

Essa é uma opção política.

Nosso objetivo sempre foi criar uma cultura entre os leitores da imprensa alternativa de garantir a sustentabilidade dos variados projetos.

No caso da publicidade, a regra geral deveria ser a da democratização dos recursos públicos de publicidade, admitida a necessidade de o Estado dela necessitar, inclusive para a efetivação de suas políticas públicas.

Nesta luta pela comunicação desde janeiro de 2001, quando fundamos Carta Maior, e passamos a promover o encontro entre universidade e sociedade, intelectualidade e militância, pesquisa acadêmica e jornalismo; portanto, nesta trincheira há dezoito anos, nem nos maiores pesadelos, eu imaginei ver o país submetido à boçalidade de um homem do baixo clero tanto do Exército Nacional, quanto do Congresso.

Do golpe contra Dilma, da prisão de Lula à eleição de Bolsonaro, foi crucial o papel da mídia. Por mais anti-jornalístico que pareça, Lula não existe nos jornais. A Globo – ao contrário de VEJA que chegou a publicar mea culpa em editorial – jamais reconhecerá o caráter político da prisão de Lula, até porque foi cúmplice daqueles que prenderam e impediram a eleição do ex-presidente.

Ao vazar as conversas entre os promotores da Lava Jato, The Intercept revela muito mais que a premeditação criminosa da prisão de Lula, mostra o quanto o jornalismo que tentamos fazer ainda está aquém do que realmente precisamos. Com o peso de um Pulitzer, de uma trajetória voltada ao jornalismo investigativo, com fartos recursos de uma ONG americana, Glenn Greenwald mostrou que sim, a verdade dos fatos costuma estar acima das narrativas.

O apoio de nossos leitores é essencial para garantirmos nossa linha editorial. Este é o nosso modelo para o jornalismo aberto, independente e engajado, já que afirmamos com convicção que somos um portal de esquerda. Nunca é bastante lembrar que, em 2001, quando começamos nossas atividades, dava-se o início da rede mundial de computadores no Brasil. O Facebook foi lançado em 2004, o YouTube em 2005 e o Twitter em 2006.

O GOLPE de 2016 nos atingiu violentamente, quase nos levando ao desaparecimento. Porém, nossos leitores não permitiram que isso ocorresse e nos trouxeram até aqui.

A conjuntura vai mudar.

O que está em jogo não é a disputa entre garantistas e punitivistas; mas entre juízes que respeitam e fazem cumprir a Constituição Brasileira, e os que querem escrever uma outra regra constitucional sem ter mandato popular para tanto.

O correto seria a soltura imediata de Lula porque, além das questões constitucionais que foram e estão sendo infringidas, são óbvios a perseguição política e o constrangimento ao qual Lula vem sendo submetido. A expectativa, porém, aponta para uma solução que pode ser mais demorada. Temos pela frente julgamentos dos recursos apresentados pelo brilhante escritório de advocacia dos doutores Cristiano Zanin e Valeska Martins em favor de Lula.

Na esteira desses acontecimentos, a situação do Judiciário brasileiro é absolutamente catastrófica. E tudo pode acontecer. Aguardemos.

Vamos admitir que Lula seja solto. Outra situação política passará a ser debatida no Brasil. Por exemplo, esperamos que Lula imediatamente estabeleça contato com os principais líderes da América Latina – López Obrador, Evo Morales, Mujica, Alberto Fernandez e por aí vai... Seria possível, também, uma conversa ao vivo entre Lula e o ex-presidente Rafael Correa, em defesa da constitucionalidade do Equador.

É perfeitamente compreensível quando Lula diz que não troca sua dignidade pela liberdade. Aceitar passivamente a progressão da pena, cumprindo-a em casa, poderia submetê-lo a série de restrições que o juiz da Execução certamente imporia ao ex-presidente.

Agora, sendo liberdade em virtude do reconhecimento de que ele só poderia estar preso após o trânsito em julgado, inclusive no STF; ou em virtude do reconhecimento da suspeição de Moro ver a sentença anulada, Lula estará num campo livre para atuar politicamente.

E aí sim, caberá refletir sobre “o que fazer?”

Joaquim Ernesto Palhares
Diretor da Carta Maior



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