Cartas do Mundo

Carta de Paris: 1968, o ano que terminou em 13 de dezembro

O Congresso foi fechado, o habeas corpus foi extinto para ''crimes políticos'', o regime instaurava a censura à imprensa, à música, ao teatro e ao cinema

11/12/2018 11:27

 

 

Em carta de 25 de julho de 1968 ao amigo Otto Lara Resende, o psicanalista Hélio Pellegrino comentava:

“O Brasil ou faz sua revolução socialista – a revolução dos pobres, dos deserdados, desgraçados, degredados e degradados – ou então jamais se integrará como nação dona de si e de sua totalidade nacional capaz de ser sujeito e não objeto da história […]  essa gente (a burguesia brasileira), ao menor sinal de abatimento, ou mal-estar, entregou, entrega e entregará o país aos militares, e estes são o braço armado dos ricos contra os pobres. […] A saída – beco sem saída – é a força das armas, é a repressão, é a violência a serviço da morte contra a vida. VIVA LA MUERTE ! É esta a bandeira das Forças Armadas no Brasil”.

Hélio escrevia sob o impacto dos acontecimentos do primeiro semestre do ano que já se revelava sombrio. O pior ainda estava por vir.

Quando se observa hoje tudo o que se passou no Brasil em 1968, tem-se a impressão de que aquele ano teve mais de 12 meses, pelo acúmulo de acontecimentos num tempo que pareceu acelerado.

O “Maio de 68” brasileiro durou 12 meses. Os estudantes e intelectuais foram, pouco a pouco, ocupando as ruas, os jornais, os debates e, no Congresso, em setembro, o discurso de um deputado, Márcio Moreira Alves, serviu de pretexto para a votação do Ato Institucional número 5, o famigerado AI-5, que já estava sendo gestado.

O ano se encerrou de fato naquele tétrico 13 de dezembro.

A luta estudantil

A sede da União Nacional dos Estudiantes fora depredada e incendiada por partidários do golpe de Estado desde o primeiro dia da ditadura, que decretou o fechamento oficial da UNE poucos dias depois. Logo no ano seguinte, começaram a surgir tentativas de reorganizar o movimento estudantil mas os estudantes recusavam qualquer controle governamental.

Em 1968, a luta estudantil visava os acordos MEC-USAID (Ministério da Educação e Cultura e United States Agency of International Development), além do combate ao projeto de privatização da universidade pública.

Segundo o deputado Márcio Moreira Alves, crítico severo do acordo bilateral, negociado secretamente e tornado público em 1966, ele na verdade tinha como proposta privatizar as universidades públicas. Matérias como História tiveram carga horária reduzida. A implantação do acordo também retirou outras matérias do currículo pré-universitário, como: Filosofia, Latim, Sociologia. Cortou-se a carga horária de várias matérias e inseriu-se Educação Moral e Cívica.

Os líderes estudantis brasileiros discordavam da ingerência de um país estrangeiro nos assuntos educacionais do Brasil. Pressionado, o governo militar criou, em 1968, um grupo de estudos encarregado de trabalhar na reforma com uma proposta “nacionalizada”.

Vladimir Palmeira, um dos mais importantes líderes do movimento estudantil de 1968, afirmou este ano, no Rio, num dos numerosos encontros para marcar os 50 anos de Maio de 1968 : “As universidades brasileiras não foram privatizadas pela ditadura graças ao movimento estudantil que teve seu apogeu em 1968”.

Naquele ano, os debates na universidade ganharam uma nova dimensão. Além da oposição ao acordo MEC-USAID, em janeiro e fevereiro de 1968 os estudantes lutavam por mais vagas para os excedentes do vestibular e pela renovação do restaurante estudantil Calabouço.

O ano todo foi pontuado de manifestações nas capitais, principalmente no Rio e em São Paulo.

Cinco acontecimentos marcantes

Os principais acontecimentos daquele “annus horribilis” foram por ordem cronológica :

Dia 28 de março, o estudante Edson Luís de Lima Souto foi morto pela polícia, no Rio, no restaurante universitário do Calabouço, invadido quando os estudantes preparavam uma manifestação.

Tanto o Congresso Nacional quanto a Assembléia Legislativa da Guanabara decretaram luto, assim como as escolas e universidades. Houve protestos em todo o país. O corpo de Edson Luís foi levado até a Assembléia Legislativa pelos próprios estudantes. Uma multidão ocupou a praça e as ruas vizinhas. Mais de 50 mil pessoas acompanharam o enterro.

No aniversário do 4° ano do golpe, dia 1° de abril, o Brasil viu protestos pipocarem em diversas cidades.

Dia 4 de abril, a missa de sétimo dia por Edson Luís, na Igreja da Candelária, reuniu centenas de pessoas que foram dispersas na saída pela polícia montada. Os padres tiveram que formar um muro de proteção para permitir a saída dos fiéis. Houve dezenas de feridos. As fotos dessa saída da missa fazem parte da iconografia mais eloquente do ano de 1968.

No mesmo dia, à noite, houve outra missa na Candelária, previamente proibida pelo regime. O arcebispo Dom Castro Pinto enfrentou a interdição e as cenas dos soldados jogando os cavalos sobre a multidão se repetiram.

Nesse momento, as manifestações dos estudantes começavam a ter um grande apoio de outros setores da sociedade e aumentavam dia-a-dia.

O ápice das manifestações de rua foi a “Passeata dos Cem Mil”, no Rio, dia 26 de junho. Nela, artistas, intelectuais, jornalistas, estudantes, padres e freiras, mulheres e homens de diversas origens protestavam contra a ditadura.

“Abaixo a ditadura, o povo no poder” eram palavras de ordem repetidas por todos e escritas em faixas.

No mesmo dia da “Marcha dos Cem Mil”, o rosto mais terrível da ditadura se refletia em Recife. O CCC, Comando de Caça aos Comunistas, um grupo de extrema-direita, matou o padre Antônio Henrique Pereira Neto, coordenador da arquidiocese de Olinda e Recife, um dos mais próximos auxiliares do arcebispo Dom Helder Câmara.

O corpo do padre Antônio Henrique foi encontrado no dia seguinte ao seu sequestro, perto da Cidade Universitária, pendurado numa árvore, com a cabeça para baixo e marcas de tortura. Ele havia sido castrado e morto a tiros. Pagava o preço de suas posições em defesa dos estudantes.

Partidos de extrema-esquerda eram um ímã

A maioria dos estudantes militava em diversos partidos de extrema-esquerda clandestinos : AP (Ação Popular), PCB (Partido Comunista Brasileiro) e suas dissidências : Dissidência-GB, Dissidência-SP, PCdoB, PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário) e ALN (Ação Libertadora Nacional, de Carlos Marighella).

Diversas organizações de esquerda já tinham escolhido a luta armada para enfrentar a ditadura.

Em sua estratégia de luta contra o regime, Marighella defendia uma “aliança com os católicos, em particular com a esquerda católica”. Foi essa visão que o levou ao Convento dos Dominicanos no bairro de Perdizes, em São Paulo, onde ele encontrou apoio para ajudar militantes clandestinos necessitando de assistência médica ou em busca de uma saída para o exílio.

Dia 3 de setembro, o deputado Márcio Moreira Alves fez um discurso na Câmara denunciando a violência da repressão militar. O tom do discurso desagradou à ditadura que pediu ao Congresso autorização para processá-lo. Protegido pela imunidade parlamentar, o deputado não pôde ser processado, uma vez que o Congresso negou a autorização.

Paralelamente à agitação política, o país vivia acontecimentos artísticos como o Festival Internacional da Canção. Dia 29 de setembro, na sua fase final, o público demonstrou grande descontentamento com a vitória da canção de Tom Jobim e Chico Buarque de Holanda, “Sabiá”. Houve um grande mal-entendido.

A canção falava metaforicamente dos exilados e do sonho de retorno ao país. Ela pertence à linhagem das canções de exílio, cuja peça mais conhecida é o poema homônimo de Gonçalves Dias, que fala da saudade da terra distante. Ora, os exilados brasileiros tinham deixado o país “num rabo de foguete” sem saber quando poderiam retornar. E só pensavam em voltar “para o meu lugar, foi lá e é ainda lá, que eu hei de ouvir cantar uma sabiá”.

O resultado foi vaiado pelo público que preferia a canção “Pra não dizer que não falei de flores”, de Geraldo Vandré, com uma mensagem política mais explícita.

A UNE em Ibiúna

Em outubro, o 30° Congresso da União Nacional dos Estudantes, na cidade de Ibiúna, no interior de São Paulo – organizado clandestinamente com a participação de mais de 700 representantes vindos de diversas universidades do país – foi invadido pela polícia. Todos os estudantes foram detidos, fichados no Deops-SP e os principais líderes ficaram na prisão depois da libertação da maioria.

A estratégia de José Dirceu, que defendeu a realização do congresso na clandestinidade, mostrara-se equivocada.

O congresso de Ibiúna deveria eleger o sucessor de Luis Travassos, entre dois principais candidatos, Jean-Marc von der Weid, estudante de Química, do Rio, e José Dirceu de Oliveira e Silva, estudante de direito da PUC-SP. Jean-Marc pertencia à AP et José Dirceu à Dissidência-SP.

Enquanto os estudantes paulistas debatiam a organização do 30° congresso, um conflito surgiu entre os alunos da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, da rua Maria Antônia, e um grupo de provocadores de extrema-direita do CCC-Comando de Caça aos Comunistas, da Universidade Meckenzie. O CCC invadiu a Faculdade de Filosofia e um estudante foi morto no conflito.

Mas como fazer um congresso clandestino com centenas de estudantes ? Era preciso encontrar um lugar. O local foi encontrado por Tito de Alencar, dominicano do convento das Perdizes e estudante da USP, que conhecera o proprietário de um sítio na casa do general Zerbini. O sítio ficava em Ibiúna, a menos de cem quilômetros de São Paulo. Havia uma casa e uma grande tenda de circo foi instalada para as reuniões mas as condições de alojamento eram mais que precárias. Fazia frio e era preciso abrigar e alimentar os 700 estudantes vindos de todo o Brasil. O lugar ficava vigiado por um grupo encarregado de dar o alarme caso a polícia chegasse.

Evidentemente, ela chegou. Eram centenas de policiais militares que levaram os estudantes para São Paulo onde 712 foram devidamente fichados e detidos no Deops. A maioria foi solta e os líderes como José Travassos, Vladimir Palmeira e José Dirceu ficaram presos. As fichas foram muito úteis no futuro. Jean-Marc von der Weid conseguiu escapar ao cerco mas foi preso semanas depois.

No dia da queda de Ibiúna, os guerrilheiros executaram em São Paulo o capitão do Exército Americano Charles Rodney Chandler, ex-combatente da guerra do Vietnão, suspeito de ser agente da CIA. A ação foi reivindicada pela VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) e pela ALN.

O psicanalista Hélio Pellegrino foi a Brasília com uma comissão de estudantes (Comissão dos Cem Mil) para pedir a liberdade dos universitários presos. Foram recebidos pelo general-presidente Costa e Silva mas os líderes continuaram presos.

Os quatro líderes estudantis presos em 1968 só saíram da prisão através do sequestro dos embaixadores que serviram de moeda de troca para libertar prisioneiros políticos : o americano Charles Burke Elbrick (setembro de 1969), o alemão Ludwig Von Holleben (julho de 1970) e o suíço Giovanni Bücher (dezembro de 1970). Os prisioneiros políticos libertados pela ditadura em troca dos embaixadores eram banidos do território nacional por um ato presidencial.

Dia 13 de dezembro de 1968, o presidente Costa e Silva e seus ministros assinaram o Ato Institucional Número 5 que suprimia as estruturas democráticas e parlamentares do país.

Caía a derradeira máscara de um regime “democrático”.

O Congresso foi fechado, o habeas corpus foi extinto para “crimes políticos”, o regime instaurava a censura à imprensa, à música, ao teatro e ao cinema.

1968 terminava precocemente no dia 13 de dezembro.

Conteúdo Relacionado