Cartas do Mundo

Carta de Sydney: A Austrália queima em meio à tragédia climática

 

05/01/2020 12:14

 

 
A Austrália é conhecida como ‘País Sortudo’ (Lucky Land) devido a riquezas naturais, clima e isolamento dos problemas mundiais. Mas a sorte parece estar no fim. Há dois meses, temperaturas extremas e escassez de chuva geram incêndios que castigam o sul e o sudeste. Uma tragédia sem precedentes que os ambientalistas associam à mudança climática – um problema puramente global.

Tragédia

O saldo, que já é muito negativo, deve piorar até o fim do verão. Quase trinta pessoas e meio bilhão de animais morreram, milhares de moradores e veranistas tiveram de ser evacuados. Duas dezenas de pessoas estão desaparecidas.

Seis milhões de hectares queimaram, foram destruídas cerca de 1.400 casas e outras 400 ficaram danificadas. Lojas, fazendas, pastos, parques nacionais, tudo sucumbe ao fogo nas áreas atingidas.

Incontrolável

A velocidade do vento transforma as chamas em um tipo de tornado capaz de derrubar um caminhão de 10 toneladas. Foi o que aconteceu na fronteira entre Nova Gales do Sul e Vitória, resultando na morte de um bombeiro voluntário.

Fenômenos improváveis tornam a situação imprevisível. Na região de Nowra, o fogo atravessou o rio Shoalhaven e agora ameaça cidades que estavam relativamente protegidas. Segundo o Serviço de Incêndio Rural (Rural Fire Service), os moradores não têm mais tempo de fugir e devem buscar abrigos.

Para colocar o problema em perspectiva, nos últimos seis meses, a extensão dos incêndios na Austrália é seis vezes maior do que na Amazônia, em 2019, e três vezes superior à da Califórnia, em 2018. Dois terços das emissões de carbono anuais do país foram lançadas nesse tempo.

Todos os anos, várias regiões australianas correm o risco de ‘bushfire’ (incêndio no mato). A situação agrava-se com a chegada do verão, mas desta vez foi pior. Ventos fortes, ausência mais prolongada de chuva e temperaturas elevadas ajudaram a gerar e espalhar as chamas por áreas extensas. São mais de 110 pontos ativos de fogo, muitos fora de controle.



Prejuízos perenes

Em Nova Gales do Sul, cuja capital é Sydney, decretou-se estado de emergência. A condição dá autonomia aos bombeiros para fechar estradas e evacuar casas. O cenário é grave também em Vitória, onde foi declarado estado de desastre, e em Austrália do Sul.

Os prejuízos serão grandes e duradouros. Muitos proprietários não possuem seguro patrimonial e terão dificuldades para reconstruir suas casas e negócios. Como os animais sobreviventes não encontram comida nos terrenos dizimados, haverá desequilíbrio na fauna. Os setores agrícola e de turismo também serão afetados no curto e médio prazo.

Comunidade em ação

Bombeiros e voluntários combatem, incansavelmente, desde pequenos focos a grandes concentrações. Campanhas são organizadas nas redes sociais para arrecadar fundos destinados a bombeiros, voluntários e associações de proteção animal.

Sistemas de difusão, tanto oficiais quanto informais, alertam para os riscos, indicam a urgência de evacuação e ajudam a organizar o resgate de pessoas e animais.

A dedicação e o espírito de cooperação comunitária ganham destaque na imprensa diariamente. Mas esses mecanismos são altamente dependentes da Internet, que pode ser cortada pela destruição de pontos de infraestrutura de energia e comunicação. Quando isso acontece, os bombeiros vão de casa em casa pedir que moradores evacuem os locais.

Efeitos em Sydney

Embora Sydney esteja protegida do fogo em si, a proximidade faz com que ruas, casas, lojas e escritórios sejam tomados pela fumaça. O sol de um laranja intenso brilha num céu amarelo, tornando lunar a paisagem.

Os níveis de poluição já superaram, em muito, os de Pequim ou São Paulo. Com a qualidade do ar classificada como perigosa, cresce o número de pessoas usando máscaras de proteção nas ruas e nas emergências hospitalares.

O abastecimento de água já foi discretamente comprometido, com horários de racionamento sendo adotados pelo governo estadual. Há risco de o fogo chegar até a periferia, onde a temperatura alcançou 50 graus neste fim de semana.

Mudança climática

O esforço coletivo não é suficiente para enfrentar um problema dessa proporção. Se as consequências são sobre-humanas, as causas têm um componente antropogênico.

Assim afirmam os cientistas; assim acredita a população. Mais de 80% dos australianos consideram que o país já está afetado pelos efeitos do aquecimento global.

A Associação Médica Australiana formalmente declarou a mudança climática como uma emergência de saúde. “Evidências científicas claras indicando impactos graves para os nossos pacientes e comunidades, agora e no futuro”, concluiu a associação, em conformidade com outras instituições médicas internacionais.

Governo negacionista

O Climate Change Performance Index (Índice de Desempenho de Mudança Climática) coloca a Austrália na 57ª posição mundial de combate à mudança no clima. Um fracasso para uma potência média desenvolvida.

Para o atual governo, essas críticas são infundadas. Em discurso recente na ONU, o primeiro-ministro Scott Morrison disse que a Austrália tem boas políticas ambientais, sendo responsável por apenas 1,3% das emissões globais de carbono. Contudo, quando considerada a indústria carbonífera australiana, o percentual sobe para 5%. O país exporta o equivalente a cerca de 32% da produção mundial de carvão, o que o torna um grande agente do aquecimento global.

Morrison assumiu o governo em 2019 de forma controversa. Uma manobra intrapartidária na Coalizão levou à saída de Malcolm Turnbull, justamente porque o então primeiro-ministro liberal propunha uma lei de energia que incluía provisões para mudança climática.

Meses depois, Morrison derrotou o Partido Trabalhista nas eleições gerais. Foi uma batalha, respectivamente, da agenda econômica versus agenda ambiental. Para o neoliberal, as alterações climáticas são “uma preocupação exclusiva dos habitantes instruídos da cidade”.

Agora, com os campos do país derretendo, Morrison virou alvo de críticas justificáveis pela oposição trabalhista, imprensa e população. Demorou a agir como líder do país e viajou com a família para o Havaí enquanto a Austrália ardia. Descaso idêntico mostrou o ministro de Serviços de Emergência, David Elliott, que foi em férias para Londres no auge da crise.

Há dois dias, Morrison foi recebido com revolta pela população de Cobargo. Entre as vítimas fatais contabilizadas no país, três moravam na cidade.

Mais de sessenta dias depois do começo da crise, o primeiro-ministro acionou 3.600 militares para atuar em várias regiões e ordenou que reservistas fiquem de prontidão. Um navio da Marinha começou a retirar quatro mil pessoas isoladas na praia de Mallacoota, em Vitória.

A percepção geral, no entanto, é que o problema foi tratado de forma negligente pela administração federal. Lembrando que a Austrália tem um sistema político parlamentarista, a aliança de centro-direita inicia o ano com uma prova de fogo, no sentido literal e figurado.

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