Cartas do Mundo

Carta de Paris: A ameaça do petróleo na foz do Amazonas

A francesa Total assinou uma Aliança Estratégica com a Petrobras em 2016 e pode trazer risco para o meio-ambiente

12/06/2018 19:15

Base de exploração de petróleo e gás natural da Petrobras na província petrolífera de Urucu,

Créditos da foto: Base de exploração de petróleo e gás natural da Petrobras na província petrolífera de Urucu,

 
 
Leneide Duarte-Plon

'O Brasil é um país de oportunidades e a França percebeu isso', me disse, em um contexto totalmente neutro, o embaixador do Brasil em Paris, Paulo Oliveira Campos, para louvar as excelentes relações bilaterais. Em 2016, a França foi o segundo maior investidor no Brasil, depois dos Estados Unidos.

Todos sabemos que se existem empresas que festejaram o golpe de Estado de 2016, as petrolíferas estão entre as mais entusiasmadas.

São elas que têm recebido os maiores presentes do governo ilegítimo, que assumiu com o impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

Entre elas, conta-se a francesa Total, uma das seis maiores empresas mundiais de gás e petróleo, ao lado da ExxonMobil, Shell, Chevron, BP e ConocoPhillips. A empresa francesa realizou um lucro líquido de 8,63 bilhões de dólares em 2017 e tem como slogan Committed to better energy. Acredite quem quiser que uma empresa de petróleo está preocupada com uma “melhor energia”.

Em 2015, Total foi a primeira empresa francesa mais rentável com as energias fósseis, altamente poluentes, que ela explora. Não ganhou bilhões de dólares com better energy.

No Brasil, a francesa assinou uma Aliança Estratégica com a Petrobras em dezembro de 2016 (logo depois do impeachment) e de lá para cá aumentou sua presença em território nacional. Através desse acordo, Total lançou o desenvolvimento em grande escala do campo gigante de Libra (dezembro de 2017) e, logo depois, os campos de Lapa e Iara.

Esperança

O noticiário francês sobre os problemas da Total para explorar petróleo e gás da foz do Rio Amazonas nos deixa otimistas quanto à seriedade do trabalho do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos recursos naturais renováveis). Pelo menos até agora.

Dia 29 de maio, o Ibama considerou novamente que os estudos que a Total apresentou são « insuficientes » para garantir o início da exploração. Mesmo assim, o grupo francês prefere continuar a pensar que ela é viável.  Total tem de três a quatro meses para responder às dúvidas do Ibama.

A verdade é simples e o Ibama botou o dedo na ferida : o projeto da Total na foz do Amazonas – associada à britânica British Petroleum e ao grupo Queiroz Galvão – representa um perigo para o meio ambiente.

A Total não tem como controlar totalmente os riscos desse projeto, avaliou o Ibama. « Até onde irá a farsa da Total que continua afirmando que o processo segue seu curso ? », pergunta Edina Efticne, da Greenpeace France.

O grande problema é que no caminho havia não uma pedra mas um magnífico recife de coral, descoberto em 2016 por uma equipe de cientistas e por Greenpeace. Esse recife situa-se a apenas 8 quilômetros das reservas e não a 28 quilômetros como se pensava antes.

Ora, isso é uma péssima notícia para a British Petroleum, Total e Queiroz Galvão já que as reservas dessa bacia são estimadas em 14 bilhões de barris de petróleo.

Desde 2016, o Greenpeace luta contra esse projeto de extração de petróleo na foz do Amazonas e desde 2017 vem documentando o ecossistema local.

A boa notícia de tudo isso é que o Ibama parece permanecer numa linha de defesa séria e, até agora, inflexível de proteção ambiental. Num país em deliquescência, é uma surpresa.

O Instituto Brasileiro de Meio Ambiente já recusou quatro vezes o sinal verde alegando que as empresas em questão – francesa, inglesa e brasileira – não têm condições de dominar os riscos inerentes ao projeto.

Total e seus parceiros esperavam começar a explorar um primeiro poço no primeiro trimestre de 2019.

Vão ter que provar que o farão podendo dominar totalmente os riscos de uma tragédia ecológica para o Brasil e para o planeta.

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