Cartas do Mundo

A guerra vista por jornalistas mirins

Crianças vítimas das bombas no Iêmen e à mercê da 'heroína digital' no mundo todo

12/02/2018 09:08

 

LENEIDE DUARTE-PLON

A iemenita Khadija Al-Salami teve a idéia genial de dar um telefone celular para três crianças em Sanaa, capital do Iêmen, cidade onde nasceu. O resultado é um documentário de guerra extraordinário, original, emocionante, de uma força rara que vem da espontaneidade e verdade das imagens.

Por que um documento de guerra feito por crianças ? Porque o país está isolado do mundo e essa guerra se desenrola sem imagens, sem o olhar internacional. Esse documentário interessou à televisão francesa estatal France2, entre outras coisas, porque as armas que matam os iemenitas são vendidas pelos Estados Unidos e alguns países da Europa, inclusive a França.

Assim, Ahmed, de 11 anos, Rima, de 8 anos, e Youssef, de 9 anos, se tornam repórteres de guerra e percorrem hospitais onde crianças mutiladas, falam depois de operadas como perderam os dedos, como foram atingidas no braço ou na perna.

O Iêmen está em guerra civil desde 2011 e a partir de 2015 uma coalizão de 9 países árabes dirigidos pela Arábia Saudita não pára de bombardear as posições dos rebeldes Hutis, chiitas próximos do Irã, principal inimigo e rival da Arábia Saudita na região. Em dezembro do ano passado, a ONU alertou para a fome que ameaça oito milhões de pessoas em razão do bloqueio a que o país está submetido. Mais de um milhão de pessoas já foram atingidas pela cólera segundo o Comitê Internacional da Cruz Vermelha.

Com candura mas compenetrados, os três repórteres improvisados entrevistam uma pintora que se inspira de fotos da guerra para seus quadros que denunciam o horror do conflito ; encontram e entrevistam  Miss Guerra , uma beldade que posta fotos nas redes sociais com cenas da vida cotidiana dos que penam em viver sob as bombas ; um cantor de rap, que ensina às crianças o que é rap e como ele pode ser usado para denunciar essa guerra. A cada um deles, os entrevistadores mirins pedem uma mensagem à União Europeia.

Todos pedem que ela pare de vender armas à Arábia Saudita.

Sanaa, a capital do Iêmen, é uma das mais antigas cidades do mundo, com uma arquitetura original e deslumbrante. Em muitos lugares só há escombros. Mas ainda há vida e esperança entre as crianças de uma classe média que só têm um medo : que novas bombas venham matar os que ainda estão vivos. Todos eles viram a morte de um próximo ou de amigos.

Eles encontram nas ruínas de uma casa a pequena Nadia, de 4 anos, que perdeu o pai, a mãe e os irmãos quando uma bomba caiu sobre sua casa. Diante das ruínas, Nadia conta como se salvou : estava no balanço, que ainda pode ser visto, ao lado de uma árvore. O resto são montes de ruínas. Nadia não chora, responde às perguntas dos três com uma olhar de quem já deixou a infância e entrou em outra dimensão.

Um grupo de crianças conta que tem medo das bombas. Entre elas, uma menininha de 4 anos diz que já tem até cabelos brancos. A câmera aproxima. Ela mostra no alto de sua cabeça diversos cabelos brancos. ‘São do medo’, diz candidamente.

Um dos três repórteres que a câmera de Khadija Al-Salami segue não resiste e chora quando algumas das crianças vão ao cemitério acompanhando um menino e uma menina que perderam a mãe e vão visitar o túmulo. O diálogo nesse momento em torno do amor que sentem pelos pais é pura poesia.


Segundo a ONU, três milhões de pessoas tiveram de deixar suas casas para fugir das bombas. Vivem hoje em campos de refugiados, em barracas sem higiene, sem alimentos.

 A guerra em curso no Iêmen pouco interessa ao Ocidente, principal fornecedor de armas à Arábia Saudita,  país que está destruindo o povo iemenita. Essa guerra mata 6 crianças por hora a cada dia sob bombas jogadas pela coalizão da Arábia Saudita e seus aliados.

A adição às telas é altamente tóxica

O problema é universal e diz respeito ao presente mas tem reflexos no futuro das próximas gerações. Mas a grande maioria dos pais da geração de quarenta anos para baixo tende a minimizar a importância dessa epidemia.

Num documentário que vi recentemente no canal France2,  'Accros aux écrans, l’épidémie silencieuse'  a médica pediatra Anne-Lise Ducanda alerta para as dificuldades de comunicação, problemas de atenção e até mesmo de atraso de desenvolvimento de crianças expostas a telefones celulares, ipads ou televisão. O caso de um menino de 3 anos é gritante : ele não olha nos olhos, não fixa a atenção em nada quando privado do celular da mãe. E o menino não é autista é um verdadeiro drogado em imagens.

Depois de um período de um mês sem acesso ao celular, ele brinca sozinho com seus brinquedos, se relaciona, responde às perguntas, volta ao convívio dos humanos. Sua mãe não consegue acreditar no que vê, o que o  tratamento de privação da telinha fez ao filho.

Pediatras, ortofonistas e psicólogos que se dedicam ao estudo do problema são unânimes em apontar aos pais os efeitos nocivos do excesso de exposição de crianças às telas, com casos impressionantes de adição dos pequenos. Pequenas, médias ou grandes, as telas podem se tornar uma espécie de heroína para as crianças, hipnotizadas e captadas pelas imagens e histórias.

Alguns dos profissionais de saúde entrevistados não hesitam em falar de heroína digital. O psiquiatra americano Gary Small explica que o córtex frontal encolhe se uma criança passa tempo demais diante das telas que proliferam em todos os lares. Os neurocientistas estão se debruçando sobre o estudo do cérebro e provando isso.

Os próprios inventores dessas novas drogas, como um grupo de jovens americanos pesquisadores de jogos digitais, chegam a admitir terem criado uma ferramenta que destrói o laço social. Um deles, Max Stossel diz que os usuários dessas redes sociais, grupo nos quais se inclui,  ’não são clientes. Somos o produto deles’, pensa Stossel. ‘E é isso que explica a gratuidade da internet. Eles vendem o usuário como produto’ .

Nir Eyal, autor do livro Hooked, how to build habit-forming é categórico :  as crianças devem ser protegidas e toda exposição não supervisionada, no tempo e no conteúdo, é perigosa.

Quanto menos, melhor.





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