Cartas do Mundo

Brasil: o SPD sai do armário

O atual responsável do Partido Social-Democrata alemão para a América Latina, Niels Annen, deu uma declaração contundente sobre as inconsistências das condenações de Lula e as ameaças à democracia brasileira

29/01/2018 14:06

 

Flavio Aguiar

Em relação ao Brasil, o Partido Social-Democrata alemão (SPD) saiu do armário. O atual responsável de seus quadros para a América Latina, Niels Annen, deu uma declaração contundente sobre as inconsistências das condenações de Lula e as ameaças à democracia brasileira.

Apesar de artigos e declarações em contrário, esta tem sido a tônica majoritária nos pronunciamentos e na mídia europeia: destaque aos argumentos da defesa do ex-presidente, junto com a consideração de que a democracia no Brasil está suspensa e sub júdice (o termo é adequado). A cassação do passaporte do ex-presidente só agravou a situação. Nem mesmo os conservadores, que podem gostar das “reformas” de Temer nas leis trabalhistas e na Previdência, demonstram qualquer respeito pelo pseudo-presidente em exercício, aliás o pior e mais daninho de nossa História, em matéria de aparelhamento do Estado e danos à nação.

Como se tem dito, ninguém quer sair na foto com ele. Dirigentes internacionais que vêm à América Latina têm evitado Brasília. Na cena internacional, Temer é dirigente pesteado. Em Davos, na Suíça, uma plateia diminuta assistiu seu pronunciamento. Tiveram de tapar o vazio do local com biombos, para disfarçar. No cenário diplomático, o Brasil virou personagem irrelevante, apesar do seu tamanho e do de sua economia. Atrai abutres e compradores de espólio à venda na bacia das bananas, ou dos bananas. Dizer “bacia das almas” é demais, para falar daqueles que não as têm. Ou venderam.

É pena. O atual governo e os interventores no Itamaraty estão destruindo uma excelente reputação diplomática construída desde o século XIX, que sobreviveu até mesmo à ditadura de 1964.

O SPD alemão já tinha sido cenário de declarações pertinentes sobre a ameaça à democracia brasileira quando do impeachment ilegal da presidenta Dilma Rousseff. No debate que houve sobre a questão no Bundestag, em outubro de 2016, o representante do SPD, Klaus Barthel, fez forte pronunciamento sobre o tema, junto com seus colegas Wolfgang Gehrcke, da Linka, e Omid Nouripor, dos Verdes. Somente o representante da CDU, Andreas Nick, contemporizou, dizendo que não cabia ao Parlamento alemão discutir os procedimentos do Congresso brasileiro, embora reconhecesse que as acusações contra ela eram “controversas”.

Mas desde então o SPD, de público, mantivera um “silêncio obsequioso” sobre o caso, sem dúvida pressionado por sua participação num governo que considera, oficialmente, que as instituições democráticas brasileiras estão em pleno funcionamento.

A nova declaração de Annen dá alento à esperança de que a condenação do “lawfare” contra o presidente Lula no Brasil vá além dos partidos de esquerda. O SPD, apesar de sua crise atual e da dubiedade de sua atitude em relação a integrar ou não o futuro governo de Merkel, é um partido de grande prestígio na Europa.

Como complemento a este quadro, o desprestígio internacional da mídia brasileira mainstream cresce a cada dia.



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